A vida secreta das bisarmas musculadas

Como filmar o bodybuilding sem voyeurismo? Em Ta Peau si lisse, a concurso internacional em Locarno, Denis Côté responde: com pudor, ternura e respeito

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Um documentário ficcionado (ou uma ficção documentada) sobre o quotidiano de culturistas, bodybuilders e wrestlers do Québec DR

Um armário cheio de camisas, t-shirts, calças, calções, e depois ao lado outro com ténis de marca, todos organizados impecavelmente, nem uma coisa fora do lugar. Poderia ser um armário de senhora com especial atenção à sua imagem – se não se desse o caso da pessoa que está a escolher a roupa do dia ser uma bisarma musculada de cabeça rapada e barba até ao peito. É o primeiro dos seis “bisontes” que o canadiano Denis Côté segue ao longo de hora e meia em Ta Peau si lisse (Concurso Internacional), um documentário ficcionado (ou uma ficção documentada) sobre o quotidiano de culturistas, bodybuilders e wrestlers do Québec. Que não é um filme sobre o culturismo, como o realizador, presença regular no IndieLisboa, fez questão de esclarecer na concorrida conferência de imprensa: “O filme definitivo sobre o bodybuilding já está feito, chama-se Pumping Iron, com o Arnold Schwarzenegger. O que é que se pode fazer mais que não tenha sido dito nesse filme? Eu não quis fazer um filme sobre o bodybuilding, quis fazer um filme terno, contemplativo, impressionista sobre a vida privada dos culturistas.”

Evitando ao mais possível os ginásios e as competições, Côté não se interessa tanto pelos corpos destes homens, antes pelos seus rostos, pela sua presença, revelando o lado de “bons gigantes”, de trabalhadores do corpo, com o prazer meio rebelde de se recusar a filmar Jean-François, Cédric, Alex, Max, Ronald e Benoît como “homens sem cabeça”. E estes homens, que têm empregos normais, famílias, uma disciplina brutal, são, de facto, trabalhadores do corpo - mas de um modo completamente diferente do sentido que daríamos a essa expressão se estivéssemos a falar de uma mulher.

Um pudor deliberado

Não existe nada de feminino nestes corpos embora Côté não resista a dizer que, ah, pois, sim, é inevitável ver algo de homoerótico no modo como eles olham uns para os outros, admiram a perfeição dos músculos esculpidos e das poses perfeitas, mas é algo que lhes passa completamente ao lado. Os culturistas que Côté filma são extremos que tocam, por exemplo, nas super-modelos que aparecem perfeitas em cada novo desfile, e tal como nelas há aqui uma preocupação muito específica com a aparência que afasta qualquer sexualização. O erotismo, aqui, está mesmo no olhar de quem vê.

Talvez por isso, Ta Peau si lisse não é um filme voyeurista; é até assinalavelmente púdico no modo como deixa zonas de sombra e de mistério no retrato dos seis homens, quase frustrante. É um pudor deliberado, não por uma qualquer vontade de frustrar o espectador mas mais por uma vontade de respeitar as fronteiras pessoais dos seus “modelos”, de não se tornar num intruso. E sim, alguns momentos do filme são encenados, mas sempre a partir da experiência pessoal dos sujeitos. Sabíamos de filmes como Vic e Flo Viram um Urso (o único a ter tido distribuição entre nós), Bestiaire ou Que tá joie demeure que há algo de minucioso e observador no cinema de Côté; mas ao assumir esse pudor de um modo mais aberto que não existia anteriormente, descobre-se em Ta Peau si lisse uma singular espontaneidade, como se o cineasta precisasse de colocar entraves para se poder libertar.