Opinião

Os solavancos e as guinadas da política externa dos EUA

Com quem pensam os EUA construir uma política mundial que impeça que se agravem os explosivos conflitos já existentes?

Nos EUA, desde que Trump foi eleito, democratas e republicanos vão passando o tempo a descobrir conspirações russas durante a campanha eleitoral. Estão envolvidos familiares, assessores e colaboradores próximos do Presidente na alegada colaboração com a Rússia para impedir a eleição de Clinton. Pouco mais existe que a Rússia na política externa dos EUA. A Venezuela... a Coreia do Norte, a China, a Arábia Saudita.

Em Hamburgo, Trump e Putin chegaram a um acordo parcelar quanto à situação na Síria, um assunto bem difícil no relacionamento entre os dois países. Celebrado o acordo, com o regresso a Washington de Trump, o Congresso anunciou novas e duras sanções contra a Rússia.

O novo e moderno czar da Rússia ordenou a expulsão de 755 diplomatas dos EUA. 755. O antigo conflito entre a URSS e os EUA mantem-se, embora a Rússia tenha feito o socialismo colapsar, optando pelo capitalismo cujo farol é o país de Trump. Impõe-se perguntar: não sendo antagónicos os regimes, antes similares, por que se digladiam a este ponto?

Trump quer uma América grande, cada vez mais grande; Putin quer uma Rússia grande, bem grande, grande como a sua superfície. É interessante constatar que Trump, para alcançar essa América grande, também aponta o fuzil à Alemanha, ela igualmente uma potência capitalista. E afronta a China, cheia de multibilionários, compradora de tudo o que dê dinheiro fora do seu país.

Trump sabe (já lho devem ter dito) que a Rússia possui um poderoso arsenal nuclear e a China para lá caminha. Trump tem revelado que conhece o crescimento da economia alemã que vê como ameaça aos interesses económicos dos EUA. Trump aborda estes países e, aliás, toda a situação internacional, a partir dos impulsos momentâneos, o que é particularmente perigoso, na medida em que por um mero erro resultante de um qualquer acaso, numa situação internacional tensa, como é hoje o mundo, não é o modo mais adequado para que os conflitos se mantenham controláveis.

Trump, quando assume que trata do assunto Kim Jong-un, fá-lo como se tratasse de um problema de uma das empresas do grupo que liderou, revelando uma tremenda impreparação para lidar com um problema que diz respeito a toda a península coreana, aos vizinhos (China, Japão, Rússia) e à ONU, que embora não pareça, continua a existir. Os EUA, sendo o país mais poderoso, necessitam de uma política que enquadre os diversos conflitos e atores.

Trump foi à Arábia Saudita e vendeu milhares de milhões de dólares em armamento a um regime governado por uma monarquia obscurantista e absolutista, sem a mínima liberdade, e a seguir aplica sanções a um país com um Presidente eleito... Sim, Maduro foi eleito, assim como foi a Assembleia Nacional venezuelana, ao contrário do rei da Arábia Saudita ou de Sissi no Egito. Pode ser um “great” negócio para os EUA, mas cai por terra a sua preocupação com a liberdade e os direitos humanos. Aliás, Putin também foi eleito, goste-se ou não.

Trump conhece os países que o podem travar nas suas ambições megalómanas. Por isso, namora a França, que económica e militarmente não teme; hostiliza a Alemanha, que vê como rival. Confronta-se com a China porque sabe que económica e militarmente é um osso duro de roer e daí, numa ação de mera propaganda, responsabiliza-a pela situação na Coreia do Norte.

Na verdade, tirando a declaração de amor à Arábia Saudita e de uma amizade velada à Coreia do Sul, ao Japão e a Israel, com quem pensam os EUA construir uma política mundial que impeça que se agravem os explosivos conflitos já existentes?

Trump não tem uma política para a NATO, nem para o Médio Oriente, nem para a Península Coreana, nem para o Irão, nem para a União Europeia... Tateia a ver como se desembrulha. Navega como “tuíta”. Ou manda tomahawks. Ou a mãe de todas as bombas. Ou aplica sanções à Rússia e à Venezuela. E manda abraços para o reino da escuridão.

Não tem uma política consistente para com os aliados e rivais. Esta conceção é particularmente perigosa. Deixa a todos num mundo de insegurança. A política de Trump é viver cada dia e esperar que todas as suas tropelias para chegar e se manter na presidência sejam tidas como “fake news”.

O mundo não pode confiar num homem que governa como os galos dos cataventos. É para onde está virado. Vai à bolina dos ventos que cheiram a petróleo para entalar a Europa e o mundo.

O autor escreve segundo as normas do novo Acordo Ortográfico

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