Opinião

Matrículas, escola pública e a nossa sociedade aristocrática

O ensino português – com a escola pública à cabeça – foi e continua a ser um mecanismo reprodutor e amplificador das diferenças sociais.

 1. Rebentou com estrondo um caso que toda a gente conhece bem, mas de que ninguém falava. Quando digo “toda a gente”, talvez fosse mais adequado dizer todos os que pertencem a uma camada sócio-cultural ou sócio-económica ilustrada para os padrões nacionais. O caso rebentou em Lisboa, a propósito da Filipa de Lencastre e do Pedro Nunes, mas é nacional e é antigo, muito antigo. Ele retrata bem, mesmo muito bem, a sociedade portuguesa e a sua profunda resiliência aristocrática, não havendo aí distinções de esquerda ou de direita. Mostra, aliás, algo que digo há muito tempo, precisamente a respeito da apaixonada discussão escola pública versus escola privada: não há só uma escola pública; com efeito, há escolas públicas e escolas públicas. Ao contrário do que para aí tantos alvitraram, isto nada tem a ver com os rankings e a sua publicação. Podem até pasmar, mas a verdade é que há várias escolas públicas dentro da mesma, da mesmíssima, escola pública.

 2. Apesar de ser prática ancestral e nacional, o caso só agora e só em Lisboa rebentou. Não porque houvesse uma revolta das classes mais baixas do ponto de vista sócio-cultural e sócio-económico, que seriam as verdadeiramente prejudicadas por esta praxe elitista. Rebentou porque a procura daquelas escolas de Lisboa dentro das ditas camadas sociais esclarecidas – que não são necessariamente ricas ou bem-abonadas, mas não são seguramente pobres – deve ter batido todos os recordes. Zangam-se as comadres, sabem-se as verdades! E talvez também porque as redes sociais tecem afinidades anteriormente impossíveis e, para o bem e para o mal, perfuram os biombos armados pela comunicação social – ela própria, por definição de um extracto sócio-cultural distinto do vulgo e, portanto, interessada.

 3. Recordo-me de ter dez ou onze anos e ouvir falar, com naturalidade e sem qualquer consciência da ilicitude ou da imoralidade, de casais que pediam a casais amigos para darem a sua morada, de modo a que os seus filhos pudessem frequentar o então Liceu de Gaia. E de pedirem também para aceitarem ser encarregados de educação. E, talvez pior, lembro-me bem do rodopio à volta da secretaria da escola (e não só…) para que os filhos ficassem nas turmas A e B do Liceu. Eram as turmas dos filhos dos professores, onde muito “democraticamente” haviam de ficar os filhos da restante classe ilustrada da terra. Dentro da mesma escola pública, conviviam várias escolas públicas.

Lembro-me também, por volta de 2006 ou 2007, de políticos de renome, de direita e de esquerda, dizerem alto e bom som, em plena praça pública e a propósito de mais uma querela público-privado, que os seus filhos tinham sempre andado na escola pública. Lembro-me bem de ter dito a dois deles, que encontrei por acaso e em ocasiões diversas, que “assim também eu”: a escola pública dos filhos deles não era a escola pública dos filhos dos outros.

4. Estas memórias relativas a um liceu que nunca frequentei (em que, valha a verdade, estudou um ou dois anos uma irmã minha) mostram bem que a questão nada tem que ver com a divulgação dos rankings e está longe de ser um fenómeno lisboeta. É coisa antiga e é mal nacional. Mais: mostram que os mecanismos de selectividade social e de resiliência aristocrática estão altamente impregnados na administração pública e, em particular, no ensino. O ensino português – com a escola pública à cabeça – foi e continua a ser um mecanismo reprodutor e amplificador das diferenças sociais (em especial, sócio-culturais, mas também sócio-económicas). O facilitismo da ideologia da escola inclusiva tem sido o instrumento mais efectivo e mais simbólico dessa reprodução classista. As famílias pobres e incultas não podem substituir-se à escola. Se a escola é laxista, os filhos dessas famílias ficarão como estão. O que o caso revela e põe a nu é algo mais grave ainda: a escola é também um mecanismo discreto de apartheid social. É uma forma de promover a rede e as relações entre os filhos da mesma classe, mais cultivada, mais cosmopolita e mais abonada. Garantir que convivem entre si, que partilham os hábitos e gostos e, quem sabe, à boa maneira aristocrática, promover o tráfego endogâmico e endoândrico. A minha luta quixotesca a favor da abolição dos títulos de licenciatura – sobrevivência ostensiva da nobreza de toga –, afinal entronca também aqui.

5. Vários articulistas, imbuídos de bom espírito, vieram exigir medidas higiénicas do Ministério, mas mostraram-se indulgentes para com as famílias. Todos os pais querem o melhor para os seus filhos e não se lhes pode levar isso a mal. É quiçá uma sentença para descansar consciências. Mas não me parece que, por mais disseminada e aculturada que esteja a malfadada praxe, se possa desresponsabilizar os pais. Primeiro, porque os pais dos filhos das classes menos qualificadas, também querem e merecem dar o melhor aos seus filhos. Depois, cumpre perguntar: ao decidirem dar uma morada falsa, que sinal estão os pais a dar aos filhos adolescentes? Ao abdicarem de ser seus encarregados de educação, mesmo que só no papel, que exemplo dão às gerações que educam? Dão o sinal e o praticam o exemplo de que se pode mentir ao Estado para ter um benefício ou uma vantagem pessoal ou familiar. É a velha cultura portuguesa do “chico-espertismo”. Não podemos desresponsabilizar as famílias, nem os pais, achando que o problema é apenas de controlo das regras por banda do Ministério. Não: é um problema de cidadania em que a sociedade portuguesa, e em particular o seu segmento mais ilustrado, continua a prevaricar. E é um sintoma do que há mais de quinze anos venho aqui escrevendo: vivemos numa sociedade profundamente aristocrática, avessa à mobilidade social. É por estar absolutamente convicto desta injustiça que continuo a considerar que a grande bandeira política de renovação deve ser a mobilidade social. O caso da Filipa de Lencastre mostra que Portugal permanece comprazidamente imóvel.

 

SIM. Série “Amor em Berlim”. A RTP 2 está a exibir uma série de meios parcos e simples, que ilustra na perfeição a perversão do totalitarismo comunista e o aviltamento a que ele reduz a condição humana.

NÃO. General Pina Monteiro. Foi ao Parlamento desmentir o incauto chefe do Exército, a respeito da cumplicidade interna de militares no assalto a Tancos. Reina a opacidade e a confusão. Mas nada acontece.