Reportagem

Isabel Castanheira: A livreira que se apaixonou por Bordalo Pinheiro

Aos 30 anos descobriu que Rafael Bordalo Pinheiro foi o pai da banda desenhada portuguesa. Chamava-se “desenhos aos quadrozinhos”. Desde então não parou de investigar a vida e a obra do artista que foi cartoonista, ceramista, decorador, jornalista e encenador.

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Vive num primeiro andar em frente ao Gato Assanhado – uma das esculturas em cerâmica que povoam a cidade e que fazem parte da Rota Bordaliana, criada pela Câmara das Caldas da Rainha para homenagear e divulgar a obra de Rafael Bordalo Pinheiro, o artista que marcou indelevelmente a cidade devido à fábrica que ali fundou em 1884. Foi aos 30 anos que Isabel Castanheira descobriu o artista e, desde então, nunca mais o deixou.

A Rota Bordaliana conta com figuras icónicas como o Zé Povinho, a Maria da Paciência, a Ama das Caldas, o Padre, o Polícia e ainda os sardões, caracóis, andorinhas, rãs e outros bichos que povoam o universo bordaliano. A livreira diz que se sente co-mentora deste projecto porque, em conjunto com outros comerciantes, concebeu há anos uma rota efémera com figuras em tabopam forrado com tela acrílica que, diz, mexeu com a cidade. Nas Caldas da Rainha é conhecida a sua paixão pelo artista, que resultou não só em anos de investigação, mas também em algumas obras publicadas em parceria com a Gazeta das Caldas.

“Bordalo Pinheiro poderia estar para as Caldas da Rainha como o Gaudi está para Barcelona”, afirma com convicção, ressalvando as “devidas distâncias” entre as duas cidades. “A verdade é que em Barcelona olhamos para qualquer lado e há sempre referências ao Gaudi e aqui podíamos fazer a mesma coisa – encher a cidade com obras, fotografias, esculturas, objectos bordalianos. No fundo era pegar na imagem de Bordalo, trabalhá-la e vendê-la”, defende Isabel Castanheira.

Uma das ideias que procura “vender” ao município é a instalação de uma escultura em tamanho natural com Bordalo Pinheiro a trabalhar em cerâmica, uma obra de arte onde – tal como acontece com Fernando Pessoa no Chiado, em Lisboa – as pessoas pudessem sentar-se ao seu lado e conversar com ele. “As estátuas não têm que ser necessariamente em bronze. Há materiais mais baratos e fáceis de trabalhar que podem ser usados para espalhar a obra de Bordalo pela cidade”, acentua.

Isabel Castanheira nasceu em Timor em 1948 e tardaria 30 anos a descobrir o artista das Caldas. Culpa da vida de nómada que levou até assentar arraiais definitivamente naquela cidade, em 1974. É um filha do Império. O pai fez parte do primeiro corpo de funcionários portugueses que fez a reocupação de Timor após a saída dos japoneses, no fim da Segunda Guerra. Isabel nasceu em Díli, mas três meses depois vai para as Caldas da Rainha, terra natal dos pais, onde viveu até aos cinco anos.

A escola primária será feita em Angola, no Novo Redondo (hoje Sumbe) e o liceu em Sá da Bandeira (Lubango), sempre acompanhando o pai, funcionário público que tinha o curso de Quadro Administrativo Ultramarino. Aos 14 anos regressa às Caldas da Rainha, onde estuda no Externato Ramalho Ortigão, mas dois anos depois está novamente em Angola, agora em Luanda, onde faz o 6.º e o 7.º ano. Regressa à então Metrópole e faz o curso de Gestão em Lisboa. Vai para a Sorefame como administrativa. Em 1967, com a licenciatura concluída, ruma outra vez para África para trabalhar no Banco de Angola, de onde se despede para ir para o supermercado Pão de Açúcar, então recém aberto em Luanda.

O 25 de Abril apanha-a em Angola. Isabel percebeu que a roda da História não lhe era favorável e regressa a Portugal. Durante dois anos sofre o estigma de “retornada” e não encontra trabalho. Até que decide abrir a Livraria 107. “Como eu lia muito e gostava muito de livros, achei que percebia alguma coisa de livrarias”, diz, rindo-se de si própria. O 107 era o número da porta onde abriu, em pleno centro da cidade a livraria que seria um marco nas Caldas da Rainha nos 34 anos seguintes.

“Desenhos aos quadrozinhos” e não só

E a paixão por Bordalo Pinheiro? “Comecei a namorar com ele quando o apanhei desprevenido e fiz-lhes uns olhinhos malandros”, brinca. A verdade é que com o crescer intermitente entre a metrópole e as colónias, Isabel Castanheira, que adorava banda desenhada, não tivera a oportunidade de conhecer as publicações portuguesas deste género, que não chegavam facilmente a África. “Eu lia o Astérix, o Corto Maltese, o Michel Vaillant, o Príncipe Valente e às tantas não sabia nada de banda desenhada portuguesa. Comecei a pesquisar e encontrei um senhor chamado Rafael Bordalo Pinheiro que foi o pai da BD portuguesa e que foi também caricaturista, oleiro, decorador e... bom amigo de comer e beber, para além de gostar muito de gatos.”

Os “desenhos aos quadrozinhos”, como então se chamava aquilo que viria a designar-se como banda desenhada, aparecem pela primeira vez em 1870 e constavam de tiras com quadrados desenhados e legendas por baixo. Os “balões” com as falas só apareceriam mais tarde, com o desenvolvimento das artes gráficas. “Comecei a investigar e fiquei impressionada com a genialidade de Bordalo. Tenho o maior respeito pela obra dele como ceramista, mas o que mais me atrai nele é a sua faceta de caricaturista. Nessa área ele foi realmente o primeiro.”

Isabel Castanheira mergulha no séc. XIX português e percorre todas as publicações dos conturbados anos da Monarquia Constitucional onde Bordalo Pinheiro terá escrito e ilustrado entre 1873 e 1895. Isto, claro, para além dos jornais dos quais Bordalo Pinheiro era o próprio autor, editor, director e proprietário: O António Maria, dedicado a Fontes Pereira de Melo de quem era um crítico feroz e mordaz, foi o primeiro. Seguiu-se o Pontos nos ii, que tal como o anterior, acabaria por fechar por motivos políticos. Bordalo reedita ainda uma segunda série de O António Maria e mais tarde cria A Paródia. Em todas as publicações sobressai um humor corrosivo e uma crítica social e política maledicente que não poupava quase ninguém das elites da época.

Entre 1880 e 1902, sem periodicidade definida, Bordalo Pinheiro publica em fascículos O Álbum das Glórias onde se pode dizer que faz um autêntico trabalho de cartoonista satirizando 42 personagens da época.

“O meu mais recente trabalho de investigação é um dicionário gráfico com as publicações que ele ilustrou, umas vezes para ganhar dinheiro, outras para responder a pedidos de amigos. Entre livros, revistas e almanaques – uma publicação muito em voga na época –, já descobri mais de 90”, conta Isabel Castanheira.

Paixão em comum: os gatos

A historiadora amadora é também conhecia na cidade pela “Isabel da 107”. A sua livraria inaugurada em 1977 depressa se impõe – até pela sua localização privilegiada – como um ponto de encontro. A livreira foi precursora de algo que hoje está na moda, mas que foi novidade nos idos de 1970: os cafés literários. A seu convite vão às Caldas falar da sua obra José Saramago, António Lobo Antunes, Beatriz Costa, Mia Couto, Manuel Alegre, Jaime Rocha, Hélia Correia, Maria José Morgado, Saldanha Sanches, Richard Zimler, Mário Zambujal, Lídia Jorge, Baptista Bastos, António Vitorino D’Almeida, José Eduardo Agualusa, António Barreto… “Foram mais de cem autores. Até tenho medo de esquecer os mais relevantes...”, diz a mulher que foi uma verdadeira agente cultural e a dado momento era mesmo considerada como uma segunda (ou talvez primeira) vereadora da Cultura das Caldas da Rainha. Não por acaso viria a receber a medalha de ouro da cidade e seria também premiada pela revista Ler e pela Associação Portuguesa de Editores e Livreiros.

Durante anos a Livraria 107 tinha um residente permanente. Chamava-se Gil Vicente e era um gato que vivia e dormia entre os livros, poisando pachorrento entre as prateleiras da loja. Para não se sentir sozinho, Isabel arranjou-lhe companhia: a Florbela Espanca, “uma gata que tinha sido maltratada, apesar de ser uma princesa”. A paixão pelos gatos, hoje tem uma Sofia, é algo que a livreira gosta de sublinhar como uma das características que tem em comum com Bordalo Pinheiro.

Em 2011 a mais famosa livraria das Caldas da Rainha soçobra à crise e fecha as portas, para espanto de muitos, que julgavam que instituições deste tipo, amadas e acarinhadas, eram perenes.

Do mal o menos. Agora Isabel Castanheira tem mais tempo para se dedicar ao seu autor favorito. Nas prateleiras da sua casa crescem os livros dedicados a Bordalo Pinheiro. Os quadros, os bustos, as pinturas, as fotografias, as peças de cerâmica, os desenhos, as revistas, as caixas com documentos, tudo catalogado e organizado. “Tive a sorte de o Museu Rafael Bordalo Pinheiro me abrir as portas, a mim que não sou uma académica, e me permitir investigar lá muitas coisas”, conta.

A auto didacta já deixou rasto em alguns livros que publicou. A primeira obra de Isabel Castanheira teve – como todas as que seguiram – uma publicação prévia na Gazeta das Caldas, em artigos periódicos que depois deram origem a um livro. A rubrica de arranque chamava-se “Traços e Barros” e juntava uma imagem de Bordalo Pinheiro a um texto que fazia a ligação com o momento político actual. Isabel diz que se divertiu e que ficou surpreendida ao constatar como a vida política de oitocentos tinha tantos pontos em comum com a de agora.

Instigada pelo autor caldense Carlos Querido e pelo editor João Paulo Cotrim (ele próprio também um fã e um estudioso da obra bordaliana), a ex-livreira lança-se em 2014 num novo projecto designado “As Caldas de Bordalo” no qual visita os locais frequentados pelo artista durante o tempo em que viveu na então vila termal, entre 1884 e 1905.

Já em 2017 dá à estampa Bordalo à Sombra dos Plátanos, um livro apresentado no mês passado literalmente à sombra dos plátanos do Parque D. Carlos I junto ao busto que em 1927 os caldenses inauguraram para homenagear o homem irreverente, o artista desabrido, o génio da cerâmica e o mau empresário industrial que deixou marca na localidade.

“Quando soube que o busto foi inaugurado em 1927 comecei a folhear a Gazeta das Caldas desde a sua criação, em 1925, e revisitei as divertidas discussões da época em torno da homenagem que a cidade iria fazer a Bordalo. Mas depois entusiasmei-me e acabei por compilar todos os artigos publicados no jornal sobre cerâmica e os ceramistas. Impressionou-me, por exemplo, as queixas de alguns leitores sobre os fumos que pairavam sobre as Caldas devido ao grande número de olarias e oficinas cerâmicas”. E foi daqui, deste casamento entre as notícias sobre Bordalo e as relacionadas com os ceramistas da época que surgiu o último livro.

Após tantos anos de estudo, consegue reconstituir a vida de Rafael Bordalo Pinheiro? “Consigo, com alguns hiatos, é claro. Mas sobre o que ele fez, sobre a sua obra, sobre o que lhe é exterior. Agora sobre o homem em si, sobre a sua personalidade, o seu modo de ser, isso já é mais difícil. Todos os estudos que existem sobre Rafael Bordalo Pinheiro são sobre a sua obra e não sobre o homem. Eu gostaria de ir para a conversa com ele.”

Os amigos dizem-lhe que precisa de “auxílio psicológico” e Isabel Castanheira ri-se. “Todos os dias encontro mais coisas, falo muito sobre ele e há tanta coisa a descobrir e a estudar a seu respeito... A vida de Bordalo é relativamente bem conhecida, tanto a profissional como a social. O que eu gostava de saber – ou que ele me contasse – era os seus segredos, os seus pensamentos mais íntimos, tudo aquilo que esteve além da sua máscara social. O homem por detrás do homem”, anseia.

A curiosa historiadora lembra que Bordalo era republicano mas que “não se coibia de receber a família real nas suas exposições. Na sua fábrica nas Caldas da Rainha chegou a receber a rainha D. Amélia e um dos infantes e até lhes ofereceu duas peças de cerâmica agora expostas no Palácio da Ajuda. É claro que ele precisava de ganhar a vida... Mas no Brasil, onde viveu de 1875 a 1879, ele foi um defensor da abolição da escravatura”.

E gostava de farras, era desbragado e excessivo, acrescenta. Teve amantes? “Quer uma informação em primeira mão? Tenho provas que ele teve um caso com uma actriz italiana. Encontraram-se em Paris quando ele lá esteve na Exposição Universal de 1900 e é possível que ela cá tenha vindo. Chamava-se Maria Visconti e morreu, aparentemente, com um cancro na garganta. Há um busto dela feito pelo Bordalo em que ela aparece com o pescoço protegido por lenços.”