McCain volta a ser o herói de milhões e trava fim do Obamacare

Senador do Arizona, a quem foi diagnosticado cancro do cérebro, juntou-se às senadoras republicanas Susan Collins e Lisa Murkowski para infligirem a Donald Trump uma derrota humilhante.

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John McCain regressou ao Senado depois de lhe ter sido diagnosticado um tipo agressivo de cancro Aaron P. Bernstein/Reuters
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John McCain LUSA/MICHAEL REYNOLDS
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Lindsey Graham LUSA/SHAWN THEW
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Rand Paul LUSA/SHAWN THEW

O Senado norte-americano travou esta madrugada a última das propostas do Partido Republicano para mandar abaixo o programa de cuidados de saúde conhecido como Obamacare. No final de uma semana dramática, foi o voto do senador republicano John McCain que deu ao Presidente Donald Trump uma derrota humilhante.

No início da semana, a liderança do Partido Republicano conseguiu reanimar as suas esperanças de derrubar uma das principais bandeiras da Administração Obama, ao reunir os votos suficientes para dar início ao debate no Senado.

O fim do Obamacare e a sua substituição por um novo sistema – que foi uma das mais emblemáticas promessas de campanha de Donald Trump e uma luta de sete anos do Partido Republicano – foi aprovado na Câmara dos Representantes há poucas semanas, com uma votação à justa. Nessa altura, 217 congressistas votaram a favor e 213 contra: a proposta era considerada muito radical pela ala mais moderada do Partido Republicano e pouco ambiciosa pela ala mais conservadora.

Mas essa proposta – ainda que com alterações – teria de ser aprovada no Senado, para depois fazer o seu caminho até à secretária do Presidente Donald Trump.

O problema é que os senadores do Partido Republicano também estavam pouco unidos. Na terça-feira, o líder dos republicanos no Senado, Mitch McConnell, ainda conseguiu tirar um coelho da cartola e deu a si próprio e ao Presidente uma vitória encorajadora: 50 dos 100 senadores votaram contra o início do debate, incluindo dois republicanos, mas o vice-presidente norte-americano, Mike Pence, deu o voto decisivo que permitiu abrir o debate (o vice-presidente é, por inerência, presidente do Senado).

Mesmo essa votação arrancada a ferros só foi possível porque o senador John McCain viajou do seu estado do Arizona para Washington D.C. poucos dias depois de lhe ter sido diagnosticado um cancro do cérebro. McCain votou a favor do início do debate, na terça-feira, e foi por isso publicamente elogiado por Donald Trump – sem o seu voto, os republicanos não conseguiriam sequer começar a discutir o cumprimento de uma promessa de campanha essencial.

Os dias foram passando e as duas principais propostas do Partido Republicano foram reprovadas durante essa maratona que começou terça-feira, muito graças à determinação de duas senadoras republicanas: Lisa Murkowski, do Alasca, e Susan Collins, do Maine.

As duas foram decisivas para impedir o Partido Republicano de aprovar o fim do Obamacare e a sua substituição por um novo sistema que iria deixar sem seguro mais de 20 milhões de pessoas nos próximos anos, segundo um estudo do gabinete independente do Congresso. O Partido Republicano tentou depois derrubar o Obamacare sem pôr no seu lugar um novo programa no imediato, mas as duas senadoras voltaram a impedir que o seu Partido Republicano tivesse os votos suficientes.

O voto decisivo

Esta madrugada, a liderança do Partido Republicano no Senado levou a votos a última tentativa: deitar abaixo o Obamacare e substituí-lo por um sistema que o mantinha em vigor no essencial, numa proposta conhecida como "skinny repeal" – os cidadãos e as empresas deixavam de ser obrigados a ter seguros, mas outros pontos essenciais do Obamacare continuariam em vigor (o que, ainda assim, deixaria milhões de americanos sem cobertura).

Essa proposta tinha como objectivo duas coisas: dava ao Partido Republicano e ao Presidente Donald Trump a possibilidade de dizerem aos seus eleitores que tinham conseguido derrubar o Obamacare, e permitia manter a esperança numa demolição total da lei actual. Depois de aprovado esse "skinny repeal", uma comissão conjunta da Câmara dos Representantes e do Senado (ambos de maioria do Partido Republicano) iria pegar nas propostas que cada uma das câmaras tinha aprovado e depois poderia endurecer a lei final – um cenário ainda assim difícil, devido às óbvias divergências no interior do partido, mas que pelo menos daria mais tempo e um novo alento à liderança do Partido Republicano na Câmara dos Representantes e no Senado, e também ao Presidente Donald Trump.

Mas esta sexta-feira esse plano foi travado. No final de uma votação dramática e histórica, as senadoras Collins e Murkowski mantiveram-se firmes e votaram contra – nesse momento, o Partido Republicano não poderia perder nem mais um voto nas suas fileiras, já que desse modo só teria 49 dos seus 52 e o vice-presidente nem sequer poderia desempatar.

E foi nesse momento que todos os olhos se viraram para o senador John MCain.

O seu regresso a Washington no início da semana, dias depois de lhe ter sido diagnosticado um cancro do cérebro, foi elogiado tanto pela coragem física como pelo sinal de que talvez o Partido Republicano conseguisse mesmo derrubar o Obamacare – afinal, se McCain tivesse ficado em casa, os republicanos nunca conseguiriam reunir os votos suficientes na sua bancada, já que as senadoras Collins e Murkowski estavam determinadas a votar contra.

O regresso de McCain foi mesmo elogiado publicamente pelo Presidente Donald Trump – ele que, durante a campanha, atacou várias vezes o senador do Arizona. Numa dessas vezes, disse que não considerava McCain um herói de guerra: "Eu gosto de pessoas que não foram apanhadas", disse Trump, referindo-se ao facto de McCain ter sido capturado durante a guerra do Vietname. McCain esteve detido como prisioneiro de guerra durante cinco anos e foi torturado, ficando com sequelas físicas para toda a vida.

Conhecido por ter conseguido vários acordos com o Partido Democrata no Senado ao longo dos anos, McCain era, ainda assim, visto com desconfiança pelos eleitores do Partido Democrata: foram várias as ocasiões em que criticou o Presidente Donald Trump, mas foram muito poucas as vezes que traduziu esse descontentamento em votos no Senado.

Desta vez – e logo depois de lhe ter sido diagnosticada uma forma de cancro muito agressiva –, John McCain tinha a oportunidade de se tornar no herói de milhões de americanos, pelo menos da maioria dos que votaram no Partido Democrata, e de muitos republicanos em regiões mais desfavorecidas que têm beneficiado da cobertura dada pelo Obamacare. Ao juntar-se às senadoras Collins e Murkowski, McCain fez História ao roubar ao Partido Republicano e ao Presidente Donald Trump a promessa de acabar com o Obamacare. Apesar de ter votado contra o fim do Obamacare, McCain é muito crítico do actual sistema – tal como as duas senadoras que votaram contra esta sexta-feira, o que o senador do Arizona pretendia era que os seus colegas aceitassem fazer alterações às propostas que foram apresentadas esta semana. 

Agora, resta ao Partido Republicano dialogar com o Partido Democrata para conseguir corrigir algumas das deficiências que os dois partidos reconhecem existir no Obamacare. Ou isso, ou ir aprovando medidas avulsas nos próximos meses que podem ir minando a lei em vigor, apesar de os resultados dessas possíveis alterações só terem consequências na vida das pessoas nos próximos anos – algumas delas só depois das eleições presidenciais de 2020 e outras depois das eleições para as duas câmaras do Congresso em Novembro do próximo ano.

Mas, antes disso, o Senado vai agora para umas curtas férias sem que o Partido Republicano tenha conseguido aproveitar a sua maioria nas duas câmaras do Congresso e um Presidente na Casa Branca para cumprir uma promessa com sete anos. Foi para derrubar o Obamacare que os republicanos pediram aos eleitores americanos que lhe dessem a maioria nos poderes legislativo e executivo – agora que falharam essa promessa, dificilmente vão afastar a imagem de fracasso a tempo de recuperarem para as eleições de Novembro de 2018.

Apesar de as senadoras Susan Collins e Lisa Murkowski terem sido as principais figuras desta semana, por terem assumido a sua oposição contra a liderança do Partido Republicano e contra o Presidente Donald Trump na questão do Obamacare desde o início até ao fim e sem vacilarem, as duas figuras do momento são Donald Trump e John Mcain – pelo passado de confrontação entre os dois e pelo desfecho da votação desta sexta-feira, que pode também ser visto como uma vingança do senador do Arizona.

Os dois responsáveis reagiram à votação através da rede social Twitter. Trump foi mais brando do que é costume, dizendo apenas que três senadores do Partido Republicano e 48 do Partido Democrata desiludiram o povo americano, e aproveitou para tentar não ficar mal na figura: de acordo com a sua análise, o falhanço da votação vai manter o Obamacare em vigor, pelo que agora resta esperar pelo fracasso da lei da Administração Obama, como o Presidente tem dito "desde o início".

McCain explicou que votou contra o "skinny repeal" porque "não era suficiente para derrubar e substituir o Obamacare com reformas significativas".