O conflito israelo-palestiniano e o fardo do passado

Se a história se continuar a repetir é mais provável que lhes suceda outra paz armada do que surgirem um Estado judaico e um Estado palestiniano, lado a lado, em harmonia.

1. O conflito israelo-palestiniano move paixões. Não há praticamente ninguém com algum interesse pela política internacional que não tenha uma opinião mais ou menos forte sobre este, bem ou mal fundamentada. Mesmo entre os que pouco se interessam por questões de política internacional, o assunto é conhecido e alimenta discussões empolgadas. No conflito israelo-palestiniano interligam-se aspectos político-ideológicos, estratégicos, religiosos, de identidade e outros, que o tornam extraordinariamente multifacetado e complexo. É, também, um dos conflitos onde o sentido de moralidade e de justiça de quem o observa mais se projecta na apreciação dos intervenientes e na sua qualificação, ostensiva ou subtil, como "bons" ou "maus". Para aqueles que por sensibilidade e visão do mundo se colocam, normalmente, ao lado da parte mais fraca e dos oprimidos, o conflito tem um grande potencial de envolvimento e de identificação. Na Europa de hoje leva muitos a suportar a causa palestiniana, por elevadas razões morais e humanitárias (para os críticos mais ideológicas), mas nem sempre foi assim.

2. Num passado não muito distante, os judeus e Israel eram uma causa da esquerda intelectual e política europeia. Para alguns pode ser surpreendente esse facto, mas a realidade é que a União Soviética, por via directa e indirecta, foi o mais decisivo apoio externo à formação do Estado de Israel — é irónico dado estes serem hoje o maior aliado dos EUA na região. O apoio soviético foi político, votando favoravelmente o plano das Nações Unidas para partição da Palestina do mandato britânico; e vetando, em seguida, uma resolução do Conselho de Segurança que previa o regresso dos palestinianos aos territórios abandonados na sequência da guerra de 1948. Foi também demográfico, ao facilitar e estimular a emigração de largos milhares de judeus da Europa de Leste para a Palestina — libertando-se, assim, de um problema de refugiados de guerra. E foi ainda, de forma decisiva, militar, na altura mais crítica para o nascente Estado de Israel, a 14 de Maio de 1948. Este viu-se confrontado com uma invasão dos seus vizinhos árabes, que se opunham à criação de dois Estados — uma ironia da história, pois hoje é Israel, sob o governo de Benjamin Netanyahu, que refuta a solução de dois Estados. Mas foi o armamento oriundo da Checoslováquia, com consentimento soviético, que permitiu aos judeus parar os ataques árabes. A outra grande ironia da história é que esse armamento teve origem nas fábricas que a Alemanha nazi (que quis exterminar os judeus) tinha deixado.

3. Existiam, naturalmente, razões intelectuais e ideológicas para o apoio aos judeus e ao Estado de Israel, às quais era particularmente sensível a esquerda intelectual e política europeia. A memória do anti-semitismo — que culminou no genocídio perpetrado pelos nazis de milhões de judeus durante a II Guerra Mundial — estava bem viva na Europa e no mundo. Em termos ideológicos os judeus eram genericamente vistos como progressistas. Afinal, Karl Marx era um judeu (secular). Experiências como o kibutz (plural kibutzim), uma forma de colectividade e de produção comunitária, ressoavam o ideário socialista na sua fase mais idealista, ou utópica, do século XIX. Tiveram um papel relevante na criação do Estado de Israel, combinando ideais socialistas e ideias nacionais sionistas. Mas havia razões mais práticas e palpáveis de política internacional, no contexto da nascente Guerra-Fria. A União Soviética tinha a ideia de poder dispor no Médio Oriente, no âmbito da sua esfera de influência, de um Estado “progressista”, por oposição às "feudais" e "reaccionárias" monarquias árabes. Note-se que, na altura, os EUA estavam a construir uma rede de alianças global que incluía, entre outros, a retrógrada monarquia saudita para fornecer petróleo barato e ajudar a conter a influência soviética.

4. As contingências históricas da II Guerra Mundial e do pós-guerra, tiveram, por isso, grande impacto na configuração da questão de Israel-Palestina. Vistas ao detalhe, contêm, não, invulgarmente, episódios e surpreendentes como os já referidos. Tal como anteriormente já tinham tido as circunstâncias e promessas contraditórias da I Guerra Mundial, feitas a árabes e a judeus, na criação de um de uma situação que acabou por se tornar explosiva. Primeiro foi MacMahon, o Alto-Comissário britânico no Egipto, que, em 1915, alimentou entre os árabes do Império Otomano a ideia de apoiar as suas pretensões de independência; depois, em 1916, foi o acordo secreto franco-britânico (com a anuência da Rússia e compensações previstas após a guerra) para partilha das províncias árabes do Império Otomano (Acordo Sykes-Picot); em seguida, em 1917, a declaração Balfour que prometeu um “lar nacional judaico” na Palestina. Mas as contingências históricas e a realpolitik das grandes potências são apenas uma parte — embora sem dúvida importante —, da elevada complexidade do conflito israelo-palestiniano.

5. Uma das facetas mais complexas é o forte simbolismo religioso/identitário/político de muitos locais situados no território de Israel/Palestina. Na sua generalidade, o território tem um grande simbolismo para os três monoteísmos: o Judaísmo, o Cristianismo e o Islão. No caso do Judaísmo, a mais antiga das três religiões monoteístas — e aquela que, de alguma forma, está na origem das outras duas —, estão aí os seus lugares mais sagrados, especialmente em Jerusalém. Já no caso do Cristianismo, pelo menos do Cristianismo católico devido à figura do Papa (Roma / Vaticano) e do Islão (Meca / Medina), os locais sagrados encontram-se não só aí como noutros territórios. O facto de o Cristianismo se ter formado em interacção/sobreposição/rejeição com o Judaísmo e de o Islão se ter formado em interacção/sobreposição/rejeição com ambas as religiões monoteístas anteriores — Judaísmo e Cristianismo —, pretendendo corrigir os seus “desvios” da vontade de Deus, em nada facilita o relacionamento entre si. A proximidade, sobreposição e rejeição é altamente problemática.

6. Provavelmente seria mais fácil o relacionamento se estivéssemos perante religiões que não reivindicam o mesmo legado e afirmando-se, cada uma, como a correcta manifestação da vontade de Deus. Assim, para uma se afirmar como verdadeira, tem de negar as outras em pontos centrais da sua crença. Se os judeus aceitarem Jesus Cristo como Messias e filho de Deus estão a negar o seu Judaísmo. O mesmo ocorre se judeus e/ou cristãos aceitarem Maomé como profeta e “selo da profecia” — na crença do Islão Maomé foi último dos profetas de uma revelação iniciada com Abraão —, pois estão a negar o seu Judaísmo e Cristianismo. Ao longo da história, esta interacção /sobreposição/rejeição teológica legitimou lógicas de poder e conquista, construindo/sobrepondo/destruindo locais sagrados. O exemplo mais crítico é Jerusalém. O Muro das Lamentações ou Muro Ocidental, local sagrado por excelência do Judaísmo data da Antiguidade. No mesmo local, ou seja, no espaço designado pelos judeus como o Monte do Templo, e, mais tarde, pelos muçulmanos como Esplanada das Mesquitas — designações que, em si mesmas, não são inócuas, pois já mostram visões contraditórias de sagrado e de apropriação do território —, foi construída a mesquita de Al-Aqsa, após a conquista da Palestina e de Jerusalém pelos árabes ao Império Bizantino, no século VII.

7. O Islão — a mais recente das três religiões monoteístas —, tem, por isso, as suas próprias reivindicações de soberania sobre Jerusalém. Judeus (e cristãos) são "povos do Livro" e tolerados na lógica da sharia, a lei islâmica, mas estão-lhe claramente subordinados. Para o crente muçulmano só o Islão completou — e interpreta correctamente —, a revelação divina. De acordo com as tradições islâmicas, Maomé ascendeu aos céus a partir de Jerusalém após ter sido transportado de Meca numa viagem nocturna, montado numa criatura branca com asas (buraq, a criatura dos céus que transporta os profetas). Ao simbolismo que a cidade já tinha para judeus (e cristãos), que vem da Antiguidade, os muçulmanos sobrepuseram o seu, a partir do período medieval, quando chegaram como conquistadores. Esse domínio foi prosseguido pelo Império Otomano, desde 1516 até finais de 1917, quando entrou na posse britânica e posterior mandato da Sociedade das Nações. Todavia, desde a guerra de 1967, Israel controla a totalidade de Jerusalém. O complexo da mesquita de Al-Aqsa, pela já referida importância religiosa para os palestinianos, manteve formas próprias de funcionar que foram negociadas entre Israel e a Jordânia. Com base nesse acordo, as autoridades religiosas islâmicas têm autonomia de gestão no seu interior estando a segurança exterior a cargo dos israelitas.

8. Tudo isto é uma situação frágil e tensa, potencialmente geradora de conflitos. Jerusalém é uma cidade com “excesso de Deus”, onde lugares religiosos altamente simbólicos se sobrepõem, mostrando diferentes, contraditórias, e, frequentemente, irreconciliáveis interpretações da vontade divina. Noutro contexto, a instalação de detectores de metais no acesso à mesquita Al-Aqsa — a 14 de Julho de 2017 dois polícias israelitas foram mortos por um palestiniano à sua entrada — seria uma medida trivial de segurança e não vista como uma provocação ou atentado à dignidade. É isso que normalmente é feito num edifício público. Mas em Israel-Palestina, especialmente em Jerusalém, tudo é mais complexo e tem um forte simbolismo e carga do passado. Coisas aparentemente menores, ou inócuas, podem desencadear grandes tensões e confrontações alargadas como já aconteceu no passado dia 21 de Julho, sexta-feira, o dia sagrado da semana para os muçulmanos. O próprio dia sagrado muçulmano rivaliza, e em parte sobrepõe-se, ao sabbath judaico, o qual decorre desde o pôr-do-sol da sexta-feira até ao pôr-do-sol de sábado. É uma amostra das extremas dificuldades de uma solução equilibrada para o conflito israelo-palestiniano. Esta, por princípio, deve passar pela existência de dois Estados que se reconhecem mutuamente, concordam nas suas fronteiras e coexistem pacificamente.

9. Não é fácil ter qualquer optimismo fundado na solução do conflito israelo-palestiniano. Numa visão fria e desapaixonada, a situação é o que sempre foi ao longo dos últimos dois milénios: uma paz armada onde um poder militar impõe o seu controle sobre o território e população, praticando uma maior ou menor tolerância sobre as minorias, que, na melhor das hipóteses, são cidadãos de segunda. Essa é a realidade desde romanos, bizantinos, árabes, cruzados, turcos-otomanos e britânicos. Os judeus são os últimos, e, na sua óptica, também foram os primeiros (antes do Império Romano), desta longa sequência histórica — um poder pacificador e legítimo (aos olhos de que manda), ou opressor (aos olhos dos governados/dominados). Se a história continuar a repetir-se é mais provável que lhes suceda outra paz armada — que, ironicamente, pode até vir dos árabes-palestinianos, hoje subjugados, se a demografia e as potências mundiais lhes forem favoráveis no longo prazo —, do que surgirem um Estado judaico e um Estado palestiniano, lado a lado, em harmonia. Esta é a tragédia de uma terra que, mais do que “excesso de Deus”, tem uma longuíssima história de ambições humanas de poder e dominação.