Reportagem

Reacendimentos brutais tornaram a tarde de Alijó num inferno

Colunas de fumo transformavam-se, repentinamente, em chamas que se aproximaram de várias casas, levando o medo à população. Algumas pessoas foram retiradas temporariamente, mas não há relatos de feridos. O plano de emergência municipal foi activado em Alijó e em Mangualde.

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Adriano Miranda
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Maria Helena afligia-se. Irene Ribeiro já só se ria - o susto tinha passado. Sónia Quintas estava demasiado ocupada para parar e pensar no que sentia, depois de uma noite sem dormir, a tentar acudir a quem precisava de ajuda no incêndio de Alijó. Ou incêndios, porque é difícil falar num só fogo quando se fala do que esta segunda-feira aconteceu naquele concelho do Alto Douro. O calor e o vento levaram a reacendimentos brutais, que transformaram uma manhã de aparente acalmia numa tarde de inferno. Exactamente um mês depois do início do grande incêndio de Pedrógão Grande, que matou 64 pessoas, foi a vez das aldeias de Alijó temerem o pior. Não houve vítimas, mas o presidente da câmara activou o estado de emergência municipal. O mesmo aconteceu em Mangualde.

Ao início da tarde, Carlos Magalhães, presidente da Câmara de Alijó dizia ao PÚBLICO que o rumo do incêndio era “imprevisível”. O vento tinha mudado de direcção e ganhara uma força que não se vira durante a manhã, a temperatura subia. Entre as manchas de terra e árvores queimadas, o que tinha sobrevivido à primeira vaga do fogo que começou na madrugada de domingo, não escapou à tarde de segunda-feira. Reacendimentos que pareciam fogachos, cresceram repentinamente. As chamas galgaram o mato, agigantaram-se ao alimentarem-se das árvores que encontravam pelo caminho, chegavam-se às casas, assustando os moradores.

Foi assim em Santa Eugénia, pela hora do almoço, onde Maria Helena, 53 anos, na companhia de outras mulheres, gritava e tentava travar as chamas que se aproximavam da aldeia. A casa dela estava no outro extremo do aglomerado, longe do perigo, mas ali estava a do primo. “Estava com medo que o fogo aqui chegasse e ele aqui está”, contava, enquanto os primeiros aviões começavam a despejar água sobre o pinhal, depois de os moradores se desesperarem com a espera por auxílio.

Salvou-se a aldeia

As árvores não se salvaram, mas a aldeia sim. O mesmo aconteceu à casa de Irene Ribeiro, 61 anos, em Casas da Serra. Aí, o fogo chegou ainda na tarde de domingo. Ela despachou a família e ficou para tentar salvar a moradia, mas o fumo era muito, pensou que não ia vencer a luta. “Lembrei-me daquela aldeia em Pedrógão Grande [Nodeirinho] onde as pessoas se salvaram dentro de um tanque. Pensei em fazer o mesmo, mas o tanque tinha pouca água, enfiei-me numa mina”, disse. Foi lá que ficou, depois de já ter perdido os chinelos, até ouvir vozes e ser resgatada pelos bombeiros, que a obrigaram a seguir para Alijó.

Agora, ri-se. “Descalça, toda arranhada, molhada até aos joelhos e com a camisola encharcada, porque ao telefone me disseram para a molhar e pôr à volta da boca. E olhe que passei a respirar bem melhor”, diz, já em sossego, porque o que havia para arder ali, já ardeu e não havia risco de as chamas voltarem tão cedo.

Em Chã, Paulo Gil, 33 anos, segura pela rédea o pequeno pónei que levou com ele quando o fogo se aproximou de casa, no domingo. Lá atrás, ardeu tudo: árvores, contentores onde guardava lenha e outros bens, um camião, um carro, um contentor do outro lado da estrada, mobilado e pronto para receber quem o visitasse. Também ele, a mulher e a filha Iara, de 2 anos, tiveram que sair, mas tal como Irene, todos puderam regressar de madrugada.

Por essa altura, Sónia Quintas, presidente da União de Freguesias de Carlão e Amieiro, andava de casa em casa, de terreno em terreno, a dar uma ajuda a quem precisava. Ao final da manhã de segunda-feira, continuava na mesma, a acartar baldes de água com alguns vizinhos para evitar que as chamas que consumiam o mato seco e rasteiro em torno de uma casa, chegassem à habitação. “Foi uma noite de grande sobressalto. Agora, vinha do incêndio lá em cima e vi isto. Estou sem dormir, mas é preciso ajudar”, diz.

O incêndio lá em cima passou a ser o incêndio do lado direito e do esquerdo, à frente e atrás, de Santa Eugénia, Vila Chã, Carlão ou Burneira. Os aviões e helicópteros passavam de uns para os outros. Os carros de bombeiros ora se amontoavam, parados, nuns momentos de descanso, ora apareciam, em grupo, onde havia mais chamas a alaranjar o ar. Carregavam nomes de todo o país: Caminha, Vila Real, Oeiras, Montijo, Barreiro, Mondim de Basto, Estoril... Uma bombeira de Carnaxide, que às 11h dizia que não tinha tido ainda trabalho na ambulância, já estava às 13h30 a acalmar duas idosas de Santa Eugénia. Às 16h, ela e o colega atravessavam a ambulância numa das rotundas de acesso àquela aldeia, porque as chamas, que minutos antes não se viam ali, estavam, de repente, enormes, e era preciso cortar o acesso (foi só mais um corte, dos muitos que ocorreram ao longo do dia). Várias pessoas foram, temporariamente, retiradas de casa.

Mais de 500 bombeiros no combate

Às 19h30, Patrícia Garcia, adjunta do comando nacional da Autoridade Nacional de Protecção Civil fazia o balanço mais recente do dia. Em Alijó, estavam 584 operacionais, 160 veículos e oito meios aéreos. Em Mangualde, dois focos de incêndio (o de Abrunhosa-a-Velha reactivara-se durante a tarde) mantinham no terreno 400 operacionais, 130 viaturas e cinco meios aéreos, levando o presidente da câmara local, João Azevedo, a activar o plano de emergência municipal pelas 20h15. Na Guarda, o fogo da Rochoso queimara uma casa de segunda habitação e três habitações devolutas. E em Oleiros, a preocupação crescia, com o fogo que começara pelas 16h e precisava já do trabalho de 225 homens, auxiliados por 70 viaturas e quatro meios aéreos.

Em Alijó, a noite prometia não ser, outra vez, de sossego.

Carlos Magalhães activou o plano de emergência municipal às 21h15, e ao PÚBLICO explicou que esta acção “abre algumas oportunidades de agir de forma diferente, responsabilizando também todos os intervenientes”. O autarca disse esperar recolher meios financeiros “para apoiar os bombeiros, com combustível e alimentação” ainda durante o combate às chamas, que à hora de fecho desta edição pareciam longe de terminar. Além disso, disse, é preciso tratar do dia seguinte ao do fim do incêndio. “O dia a seguir é que vai ser mais preocupante. Recebi muitos telefonemas da tutela de solidariedade, mas isso não chega. Temos que passar à prática, e isso significa apoio financeiro”, disse.