Chico César na hora de “abrir o formato canção a uma poesia vigorosa”

Cabe a Chico César fechar em Lisboa, nesta quarta-feira, o festival Soy Loco por Ti, America. E ele vai fazê-lo com Estado de Poesia, um olhar livre e universal sobre si próprio e sobre o mundo.

Chico César numa das fotografias da sessão para a capa do disco <i>Estado de Poesia</i>
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Chico César numa das fotografias da sessão para a capa do disco Estado de Poesia DR

Nesta quarta-feira, o festival Soy Loco por Ti, America vai fechar tal como abriu, com chave de ouro. Depois da peruana Susana Baca (dia 15), da cubana Yilian Cañizares (dia 16) e da argentina Adriana Varela (dia 17), chega a vez do paraíbano Chico César, que Portugal conheceu logo nos primeiros momentos, com o seu extraordinário disco de estreia, Aos Vivos (1995). O concerto será às 22h, nos Jardins da Pimenta do Museu de Lisboa (ao Campo Grande), com entrada livre. Este concerto esteve inicialmente marcado para o passado domingo, mas foi adiado devido ao luto nacional pela tragédia de Pedrógão Grande.

Nascido a 26 de Janeiro de 1964, em Catolé do Rocha, Estado da Paraíba, Brasil, Chico César (ou Francisco César Gonçalves, de seu nome completo) começou a trabalhar cedo, aos oito anos, numa loja de discos, enquanto concluía os estudos. Aos doze, já escrevia as suas próprias composições musicais, e em 1980 rumou à capital paraíbana, João Pessoa, abraçando a carreira de jornalista para poder sobreviver, ao mesmo tempo que tocava para pequenas audiências. Em 1985, com 21 anos, mudou-se para São Paulo, mantendo-se no jornalismo por mais cinco anos. Uma viagem à Alemanha fê-lo voltar para o Brasil com novos planos, agora centrados na música.

Três anos bastaram para lançar o primeiro disco, Aos Vivos (gravado ao vivo), a que se seguiram Cuscuz Clã (1996), Beleza Mano (1997), Mama Mundi (2000), Respeitem Meus Cabelos, Brancos (2001), De Uns Tempos Pra Cá (2005), Francisco Forró y Frevo (2008), Aos Vivos Agora (2012) e Estado de Poesia (2015). É este último que, a rodar pelos palcos há dois anos, é agora apresentado por Chico César em Portugal. Será, diz Chico, num espectáculo em formato reduzido, ele mais dois músicos (piano e bateria). “A gente vai fazer bastantes canções do disco Estado de Poesia, e ao piano vamos fazer algumas coisas de outros discos que estão no imaginário das pessoas.”

Olhares entrelaçados

Estado de Poesia, o disco, com catorze temas originais (um deles como faixa-bónus), pode dividir-se quase simetricamente em duas partes: a primeira mais virada para si próprio e para a sua relação com a Paraíba (com canções como Caninana, Caracajus, Estado de poesia ou Palavra mágica); e a segunda mais virada para fora, com um olhar crítico sobre a realidade social (com canções como Negão, Quero viver, No Sumaré ou Reis do agronegócio). Mas, diz ao PÚBLICO Chico César, eles são complementares. “Esses olhares estão entrelaçados. Entrelaçados como trança de Curupira em crina de cavalo – esse é um verso de Ariano Suassuna, que eu cito e tenho na cabeça porque estou fazendo a direcção musical de uma peça em homenagem a ele. Mas tanto o olhar para dentro, intimista, pessoal, quanto o olhar para fora, social, ambos são olhares de amor e poesia. Tanto a relação amorosa quanto a vida social. Que nem é só no Brasil, é um momento universal pelo qual estamos todos passando, um agravamento na busca das fontes de energia, na forma de produção de alimentos.”

Isto para voltar à ideia de complementaridade: “Olhar com poesia para o meu momento, o momento que eu vivi ali na Paraíba, em que eu me apaixonei, pela Bárbara Santos, com quem acabei me casando, me ajudou muito a olhar também com poesia para o mundo em geral.”

E do que precisa hoje o mundo? Chico César sublinha uma urgência: “Precisamos de procurar viver com menos, com o essencial, de contrariar essa coisa de ter tudo, vários carros, campos de golfe, em vez de produzir alimentos para todos. Os ricos juntam coisas e também jogam fora, e várias pessoas passam necessidades. Há que entender que a vida é para todos, que o mundo é para todos. O espaço geográfico de São Paulo é também para pessoas que vêm do Haiti, da Bolívia, da Índia, da Líbia. Todos somos filhos da mãe-Terra e qualquer lugar onde estejamos é o nosso lugar. Não é porque um camarada nasceu numa região subsariana que ele é gente de segunda classe em Coimbra ou em Lisboa. Não. Toda a água e toda a comida é de todos, então é preciso cuidar disso com carinho e saber distribuir. Esse é um olhar de poesia.”

Bastante universal

Mas o olhar de poesia não anula a acutilância, pelo contrário. A maior prova disso é Reis do agronegócio, que surge no disco como faixa-bónus e foi integrada já no final: “O disco estava todo pronto, já mixado, e apareceu esse poema longo, para mim, do Carlos Rennó. Ele mo mandou por e-mail e eu resolvi musicar. E quando fomos cantá-lo num acampamento indígena, em Brasília, de manhã, para cantar depois com eles no Congresso Nacional, à tarde a música já estava espalhada nas redes sociais. Então eu vi que, pela urgência da canção, ela precisava entrar no disco. Ficou faixa-bónus.”

Para se ter uma ideia (a letra está, na íntegra, no site de Carlos Rennó, a par da gravação de Chico César), fica aqui a primeira oitava (há mais onze, em 11 minutos) desta canção que faz lembrar as invectivas de Bob Dylan em temas como Masters of war.

“Ó donos do agrobiz, ó reis do agronegócio
Ó produtores de alimento com veneno
Vocês que aumentam todo ano sua posse
E que poluem cada palmo de terreno
E que possuem cada qual um latifúndio
E que destratam e destroem o ambiente
De cada mente de vocês olhei no fundo
E vi o quanto cada um, no fundo, mente.”

Musicalmente, e isso foi notado por alguns críticos quando o disco saiu, Estado de Poesia é talvez o mais paraíbano dos discos que Chico César já lançou. Ele concorda. “É verdade. Ao voltar para lá, e ao formar um grupo-base praticamente de paraíbanos, enquanto reencontrava amigos, e a casa dos meus pais, este é um olhar mais livre de compromissos da metrópole São Paulo e mais próximo da Paraíba. Mas, para mim, ele soa bastante universal, como se fosse um disco talvez dos anos 70, um disco da época dos Novos Baianos, dos Secos & Molhados, muito livre. E isso foi muito importante para a minha poética: romper com o molde que eu próprio podia ter criado. Foi como se o formato canção se pudesse abrir para receber uma poesia vigorosa.”

Notícia actualizada às 18h12 de segunda-feira: a data do concerto foi adiada de domingo para quarta-feira, 21 de Junho, devido aos três dias de luto nacional decretados em homenagem às vítimas do incêndio em Pedrógão Grande. A sessão de leitura para crianças sob o título Brincar com as Palavras, prevista para a tarde domingo, foi anulada e não ocorrerá na quarta-feira, avisaram também os promotores.