Isabel II diz que o Reino Unido vive "um estado de espírito muito sombrio"

Num comunicado de teor sem precedentes, a rainha une-se "sem medo e com imparcialidade" à população. Theresa May recebeu vítimas e familiares em Downing Street, mas à sua porta juntaram-se mil pessoas em protesto.

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A rainha numa cerimónia em Londres este sábado Toby Melville/Reuters

A rainha Isabel II do Reino Unido sabe quais são os riscos que os líderes correm quando não estão à altura das ocasiões. Por, isso, este sábado, “sem medo e com imparcialidade” enviou uma mensagem aos cidadãos para dizer que partilha a sua tristeza pela tragédia na torre Grenfell, em Londres. Fez um diagnóstico do ambiente do país onde ocorreu “uma sucessão de terríveis tragédias”: “É difícil escapar a um estado de espírito nacional muito sombrio”.

Isabel II celebrou ontem o 91.º aniversário e a mensagem deveria ter sido diferente. O tom e as frases que usou, disse o especialista em Casa Real da BBC, “não têm precedentes”.

O ambiente também é inédito. O incêndio do prédio no bairro de Kensington que matou pelo menos 58 pessoas — 15 corpos já foram recuperados nas buscas que foram suspensas ontem por o edifício estar instável — adensou o contexto de grande divisão e incerteza políticas. A rainha sublinhou que as suas palavras eram necessárias neste momento que o país atravessa, apesar de estar obrigada à neutralidade política. “Unimo-nos na tristeza, e estamos igualmente determinados, sem medo e de forma imparcial, no apoio a todos os que estão a reconstruir vidas terrivelmente afectadas por ferimentos ou mortes”.

O comunicado surgiu um dia depois de se ter realizado na capital britânica uma marcha a exigir justiça para as vítimas do incêndio e a responsabilizar o Governo conservador pelos cortes derivados da austeridade que têm afectado a classe média e os mais desprotegidos. Na sexta-feira, a primeira-ministra, Theresa May, foi obrigada a sair de um encontro com membros da comunidade afectada pelo incêndio sob forte escolta policial e foi apupada.

Já a rainha visitou, no mesmo dia, um centro de apoio às vítimas. Isabel II viveu a pior crise do seu reinado quando a princesa Diana morreu, em Julho de 1997, sendo acusada de distanciamento e falta de empatia por ter demorado a confortar as dezenas de milhares de pessoas que saíram à rua para fazerem o luto pela princesa. Foi o primeiro-ministro trabalhista, Tony Blair, quem manobrou para que a rainha falasse à população e se juntasse ao luto.

É agora Theresa May, considerada uma mulher pouco hábil no contacto com a população, que está a ser acusada de distanciamento. May já estava muito fragilizada politicamente, depois de não ter conseguido o seu objectivo nas legislativas de 8 de Junho, que marcara para reforçar a maioria, que perdeu, e a sua posição nas negociações sobre o “Brexit”, que começam amanhã.

O seu adversário político, o trabalhista Jeremy Corbyn — cujo partido recuperou do desaire das eleições anteriores, em 2015 —, falou com vítimas, abraçou uma mulher cuja filha está desaparecida e ouviu as queixas sobre a forma como o Governo está a lidar com a tragédia. “O país precisa de si, alguém tem que ser responsabilizado pelo que aconteceu. Não queremos que o Governo varra isto para debaixo do tapete”, disse-lhe um representante local, Ishmael Blagrove, citado pelo The Telegraph.  

Ontem, May tentou recuperar terreno recebendo na sua residência oficial um grupo de sobreviventes e familiares de mortos. Reconheceu que  o apoio às vítimas "não foi o melhor". Mas à porta de Downing Street, juntaram-se mil pessoas em protesto. “É uma cobarde, tem que sair”, disse ao Guardian Tilly Howarth, de 28 anos, que foi de Brighton para Londres para se manifestar contra May.

O estado de espírito de que fala Isabel II deriva também, diz a monarca, dos recentes atentados terroristas no país. Foram três: a 22 de Março, um extremista matou cinco pessoas em Westminster (Londres); a 22 de Maio, um bombista matou 23 adultos e crianças num concerto em Manchester; a 4 de Junho, radicais mataram oito pessoas na capital (Borough Market e London Bridge).

Na sua mensagem, a rainha apelou à capacidade de resistência dos britânicos: “Sempre que tem sido testado, o Reino Unido soube ser resoluto perante as adversidades”.