Editorial

É hora de abrir o arquivo do MNE

Precisamos de uma resposta inequívoca: este baú ficou fechado porque não havia mais para contar; ou ficou selado porque ninguém quis manchar o pano de uma bela vitória diplomática?

O melhor é começar por aqui: não tenho o prazer de conhecer Pereira Gomes. Também não estive em Timor-Leste, nem na altura do referendo, nem antes ou depois disso. Para que não fiquem equívocos: nada me move contra ele, nem a favor dele. O que se segue não é pessoal, é apenas a minha missão e a missão do PÚBLICO: procurar os factos, contar a verdade.

E para contar a verdade temos de regressar a Timor-Leste, porque António Costa escolheu o embaixador Pereira Gomes para liderar as nossas “secretas” e porque a nossa ex-embaixadora em Jacarta alertou o primeiro-ministro para um erro nessa nomeação. Já agora, porque essa versão da história, contada por Ana Gomes, é em tudo coincidente com o que relataram os jornalistas portugueses que estiveram, nessa altura, na zona de perigo. Incluindo aqui no PÚBLICO, escritas e reiteradas pelo Luciano Alvarez.

Claro que, com o regresso das denúncias e o reabrir de feridas antigas, voltou também o outro lado da história: o do embaixador, o dos diplomatas que acompanharam a sua versão do que se passou em Timor. Aqui, no PÚBLICO, temos aberto as páginas a eles também. Acontece que já não basta. 

Repito: este é um baú que ninguém voltaria a abrir, a não ser por curiosidade histórica, daqui por uns anos. Mas agora vai ser preciso fazê-lo, porque o país não se pode dar ao risco de ter à frente das secretas alguém que não lhe dê as devidas garantias. Não só as garantias de saber lidar com a pressão (porque em Timor era legítimo ter medo e ter dúvidas). Mas garantias de saber lidar com a verdade, tantos anos passados.

Chegou, portanto, a hora de o Ministério dos Negócios Estrangeiros abrir os seus arquivos, para nos mostrar o que realmente fez Pereira Gomes naqueles dias decisivos da história de Timor-Leste. Porque, para sabermos se a sua nomeação faz sentido, não nos chega saber se o primeiro-ministro pediu o livro de memórias do embaixador, ou se ouviu alguns dos com ele partilharam aquela época. Não nos basta, também, ouvir António Costa ou Marcelo Rebelo de Sousa remeter para uma audição parlamentar, porque não chega saber se ele passa num exame oral - o que nos interessa é saber se ele passa no exame da História.

Para encerrar esta polémica, precisamos de uma resposta inequívoca: este baú ficou fechado porque não havia muito mais para contar; ou ficou selado porque os diplomatas não quiseram manchar o pano de uma bela vitória?

Concluo, portanto, sem pressupostos, nem estados de alma: venha a verdade, venham os telegramas. Não é para acertar contas com o passado, é para nos garantir um futuro seguro.