É quando as crianças aprendem a ler que começam a usar a Internet sozinhas

É aos oito anos que se vê o maior salto na autonomia online das crianças. É também quando começam os riscos. Duas investigadoras seguiram um grupo de crianças ao longo de dois anos.

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O computador é visto como uma ferramenta de estudo ADRIANO MIRANDA

A primeira experiência digital é no smartphone dos pais quando ainda são bebés, mas é apenas quando aprendem a ler e a escrever que se tornam capazes de navegar sozinhas na Internet e escolher conteúdos. O que traz riscos. Um grupo de oito crianças portuguesas foram acompanhadas ao longo de dois anos (dos seis aos oito) por uma dupla de investigadoras da Universidade Católica Portuguesa e da Universidade do Minho. A dimensão da amostra é demasiado pequena para retirar conclusões representativas. O objectivo era começar a perceber os hábitos, riscos e preferências desta nova geração. Os irmãos mais novos e os pais também foram entrevistados.

A primeira parte do projecto começou já em 2015, no âmbito de um estudo-piloto europeu com 18 países, em que dez crianças (com seis ou sete anos) de cada país foram seguidas ao longo de um ano. As investigadoras portuguesas decidiram dar continuidade ao trabalho em 2016, com oito das dez famílias iniciais (quatro com um rendimento baixo, três com rendimento médio e uma com rendimento elevado).

Os resultados, divulgados num livro electrónico – Crianças (0 aos 8 Anos) e Tecnologias Digitais – publicado esta quinta-feira, por ocasião do Dia Mundial da Criança, sugerem que é com o domínio da literacia (entre os sete e os oito anos) que se vê o maior salto na autonomia online das crianças.

“Esta fase é particularmente perigosa, pois as crianças já estão a ampliar as suas actividades online, mas, como não estão ainda nas redes sociais, a maior parte dos pais ainda não abordaram com elas alguns dos perigos a que estão expostas,” alerta Patrícia Dias, uma das investigadoras, da Universidade Católica Portuguesa.

As redes sociais, porém, não são o único perigo. Devido à publicidade em alguns jogos e aplicações, as crianças podem ser transportadas, através de links, para outros sites onde podem comunicar com estranhos e aceder a jogos impróprios para a sua idade.

Os pais não têm o hábito de bloquear conteúdos: seja por falta de conhecimento, seja por acharem que é a opção errada. “Há alguns que nos dizem que nós somos uma geração de ‘pais-piratas’, portanto sabemos perfeitamente que há sempre forma de contornar essas situações,” explica Patrícia Dias. “Acreditam que filtros não são a solução, mas sim a informação e o diálogo.”

O estudo também revela que as crianças do grupo já sentem necessidade de um smartphone (e duas delas já o têm), que a aplicação preferida é o YouTube, que os pais estão cada vez mais envolvidos no percurso digital dos filhos e que o tablet (o aparelho peferido dos mais novos) é associado ao entretenimento, enquanto o computador é associado ao estudo e, por isso, não tem tempo de uso limitado.

Além de quererem continuar a acompanhar crianças da mesma faixa etária, as investigadoras dizem que é importante começar a “acompanhar este fenómeno mais cedo, practicamente desde o nascimento”. Afinal, estamos na primeira geração em que as crianças crescem imersas num cenário digital que os pais (alguns da geração de “nativos digitais”) já dominam.