Trump tira EUA do Acordo do Clima, por ser "um mau negócio"

Presidente diz que quer voltar a negociar um pacto climático, "mais justo" para os contribuintes norte-americanos. O resto do mundo critica a acção unilateral e reafirma o compromisso com as metas de Paris.

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Presidente dos EUA, Donald Trump, confirma saída do Acordo do Clima de Paris Reuters/KEVIN LAMARQUE
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Presidente dos EUA, Donald Trump, confirma saída do Acordo do Clima de Paris Kevin Lamarque/REUTERS

A Casa Branca tentou até à última hora manter o suspense sobre o teor da declaração do Presidente dos Estados Unidos sobre o Acordo do Clima de Paris. Mas quando Donald Trump finalmente falou, confirmou o que o mundo inteiro já sabia desde a véspera: que os EUA vão mesmo abandonar o pacto para combater o aquecimento global, através da redução das emissões de gases com efeito de estufa, que foi subscrito por 195 países do mundo e entrou em vigor a 4 de Novembro de 2016. “Era um mau negócio para os trabalhadores americanos e muito injusto para os Estados Unidos”, justificou.

“A partir de hoje os EUA vão cessar a aplicação de todos os termos do Acordo do Clima de Paris”, informou Trump, acrescentando que a sua ideia é iniciar imediatamente negociações para “reentrar no Acordo de Paris ou numa outra transacção inteiramente nova”.

Ou seja: “vamos sair, mas vamos começar logo a negociar para fazer um negócio que seja justo para os EUA. Se conseguirmos, óptimo. Se não conseguirmos, também está tudo bem”, considerou o Presidente, sem dizer nem onde, nem como, nem com quem se propõe negociar (além dos “obstrucionistas dos democratas” no Congresso, a quem ofereceu a oportunidade de participar nesse processo).

França, Itália e Alemanha emitiram um comunicado conjunto, respondendo que o acordo não pode ser renegociado. "Consideramos que o impulso gerado em Dezembro de 2015 em Paris é irreversível e acreditamos firmemente que o Acordo de Paris não pode ser renegociado, pois é um instrumento vital para o nosso planeta, sociedades e economias", dizem os líderes destes três países europeus. 

Responsáveis por 15% das emissões globais, os EUA são o segundo maior contribuinte mundial para o fenómeno do aquecimento global (depois da China), uma realidade científica que o Presidente recusa aceitar – tal como o responsável pela Agência de Protecção do Ambiente, Scott Pruitt, e um número significativo de legisladores e financiadores do Partido Republicano, que assistiram felizes ao anúncio no jardim da Casa Branca.

Um mito

Donald Trump refere-se às alterações climáticas como um “mito”, e acusa a China de ter inventado esse “logro” para prejudicar os interesses económicos dos EUA. Esta quinta-feira, naquele que para os comentadores foi o seu discurso mais nacionalista e anti-globalista de sempre, sugeriu que o Acordo de Paris também foi concebido com o mesmo intuito, “pelos activistas globais que procuram acumular riqueza à nossa custa”.

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“Este foi um compromisso para uma redistribuição maciça da riqueza dos EUA para outros países”, denunciou. Ao retirar-se do acordo, os EUA “estão a proteger-se de futuras intrusões e a reassumir a sua soberania”. “Nós já somos o país mais amigo do ambiente. E agora ainda vamos ter o ar mais limpo, e a água mais limpa”, afirmou.

“Paso a passo estou a cumprir as minhas promessas eleitorais. E acreditem que ainda estou só a começar”, sublinhou o Presidente. Frisou que foi eleito para defender os cidadãos de Pittsburgh e não os de Paris. Mas o mayor de Pittsburgh, cidade que votou por Hillary Clinton, anunciou logo a seguir que vai cumprir o Acordo de Paris.

As consequências da decisão de Trump, que prova a sua determinação em demolir as políticas que constituem o legado do seu antecessor Barack Obama, em nome da sua agenda de “América primeiro”, são relativamente imprevisíveis. Mas os comentadores concordam que é no palco político-diplomático que os prejuízos se vão sentir de forma mais aguda: ao afastar-se do consenso internacional, os EUA perdem a posição de liderança e autoridade moral e vêem o eixo de poder e influência global mover-se para mais longe.

Uma nova frente Europa-China está já a formar-se – os tradicionais aliados europeus, comprometidos com a transição para a energia limpa, estão preparados para voltar as costas ao parceiro transatlântico e começar a olhar na direcção do Oriente, onde Pequim faz tenção de reforçar os seus esforços no combate às alterações climáticas. Conforme assinalou o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, referindo-se à possível renúncia do pacto de Paris pelos EUA, “sempre que um país decide abrir um vazio, é garantido que um outro país o vai ocupar”.

Ao ceder o palco principal a outros actores, o Presidente dos EUA pode estar a comprometer o sucesso de outras iniciativas internacionais que nada têm a ver com o clima, dizem os analistas. Como notava o The Washington Post, há uma série de promessas/objectivos da Administração Trump, que passam pela revisão dos acordos de comércio livre às coligações que combatem o terrorismo, que dependem da cooperação de outros países. “Depois desta decisão, o resto do mundo deixará de confiar que os EUA respeitam a palavra dada em tratados internacionais”, resumia o diário.

Empresas preocupadas

Do ponto de vista económico, e apesar dos argumentos do Presidente, o impacto também se afigura negativo: as acções das companhias americanas de energia começaram a cair mal abriu a negociação. Fazendo eco das posições do conselheiro económico da Casa Branca, Gary Cohn, e do secretário de Estado, Rex Tillerson, que antes de entrar para o Governo foi o CEO da Exxon-Mobil, a maior petrolífera norte-americana, os executivos das principais empresas do sector energético, do carvão ao gás natural às renováveis, bem como os dirigentes de conglomerados como a General Electric, Wal-Mart e Microsoft, alertaram para o risco de se verem afastados da mesa onde decorrem as negociações e se tomam as decisões globais com impacto na sua actividade. Temem que os seus interesses no estrangeiro saiam prejudicados por possíveis acções de retaliação.

Além disso, dizem, a competitividade das suas empresas irá ressentir-se por limitações à entrada em novos mercados. Elon Musk, o fundador da construtora de automóveis eléctricos Tesla, abandonou o painel de conselheiros económicos da Casa Branca. “Não me resta outra hipótese. As alterações climáticas são uma realidade. Esta decisão é má para a América e para o mundo”, disse. “É um erro colossal”, resumiu a líder da Hewlett-Packard, Meg Whitman.

Os Estados Unidos tornaram-se o primeiro subscritor do acordo de Paris a renunciar ao compromisso. Juntam-se assim à Síria e à Nicarágua, as únicas nações à margem do pacto: a primeira por viver uma guerra civil há mais de seis anos, e a segunda por entender que as metas de Paris não foram suficientemente ambiciosas. No entanto, os governadores de pelo menos três estados – Califórnia, Washington e Nova Iorque – já fizeram saber que vão continuar a respeitar as metas de redução de emissões definidas pela anterior Administração aquando da assinatura do acordo de Paris, e que poderão participar em nome próprio nas futuras negociações internacionais.

Numa nota breve, o ex-Presidente Barack Obama lamentou que a actual Administração tenha escolhido ficar ao lado dos países que “rejeitam o futuro”, em vez de permanecer com as nações que assinaram o acordo e “vão recolher os seus frutos, em termos da criação de indústrias e postos de trabalho”. Mas manifestou a sua confiança de que “os estados, cidades e empresas saberão responder ao desafio e assumir a liderança para proteger o único planeta que temos para as gerações vindouras”.

Em 2015, Obama comprometeu os EUA com uma redução de 26% a 28% do seu nível de emissões de gases com efeito de estufa, num prazo de dez anos. Washington também disponibilizou um pacote financeiro de três mil milhões de dólares para apoiar os países pobres a reagir aos efeitos do aquecimento global (secas, subida do nível do mar) e a desenvolver energias limpas. “Fundo Verde para o Clima, o nome era bom”, ironizou Trump.