Entrevista

Rajendra Pachauri: “Se os EUA pensam que vivem noutro planeta, deixemo-los acreditar nisso”

Esteve durante 13 anos, até 2015, à frente do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas das Nações Unidas. Rajendra Pachauri veio a Portugal e o que Donald Trump ia fazer em relação às alterações climáticas foi assunto incontornável.

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O investigador Rajendra Pachauri Nuno Ferreira Santos

E enquanto por estes dias o mundo aguardava com expectativa o que o Presidente dos Estados Unidos ia fazer em relação ao Acordo de Paris, de 2015, compromisso que o seu país tinha assinado e ainda ratificado durante a Administração de Barack Obama, entre os oradores que vieram às Conferências do Estoril esteve o investigador indiano Rajendra Pachauri.

Entre 2002 e 2015, foi Rajendra Pachauri quem presidiu ao Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC) das Nações Unidas. Criado em 1988, este painel é a autoridade mundial das ciências do clima, emitindo os seus famosos relatórios de avaliação, autênticos boletins do estado de saúde climática do nosso planeta e que têm concluído que a Terra está a aquecer e os seres humanos têm muita responsabilidade nisso. O último, o quinto, divulgado em duas partes (2013 e 2014), elaborado por centenas de cientistas que passaram a pente fino milhares de estudos publicados sobre o que de mais recente a ciência sabe sobre as alterações do clima. O sexto relatório de avaliação sairá em 2022.

Em nome do IPCC, Rajendra Pachauri recebeu o Prémio Nobel da Paz de 2007, que partilhou com o ex-vice-Presidente dos Estados Unidos, Al Gore, também pela sua luta contra as alterações climáticas. Antes do IPCC, tinha feito a sua carreira científica sobretudo nos Estados Unidos: doutorou-se em engenharia industrial e economia na Universidade Estadual da Carolina do Norte e, entre outras funções académicas, noutras instituições, fundou o Instituto do Clima e da Energia da Universidade de Yale, que dirigiu entre 2009 e 2012.

Nas Conferências do Estoril, dedicadas ao tema “Mudanças Globais, Respostas Locais”, que terminaram esta quarta-feira, Rajendra Pachauri, de 76 anos, veio falar do movimento que fundou há cerca de um ano, Protect Our Planet, para mobilizar sobretudo os jovens para proteger a Terra.

Esta quarta-feira, já depois desta entrevista-relâmpago, surgiram mais indícios na imprensa internacional de que Donald Trump iria anunciar a saída do Acordo de Paris. Nesta entrevista, perpassa a ideia de que Rajendra Pachauri estava à espera disso.

Na reunião do G7 [grupo dos sete países mais industrializados] no último fim-de-semana, Donald Trump não aceitou o Acordo de Paris. Disse que tinha de pensar melhor na sua decisão. Como olha para esta posição de Trump?

Vejo-a como algo muito infeliz. O Presidente do país mais poderoso de todo o mundo, o país que é responsável pela maior parte das emissões cumulativas de gases com efeito de estufa está a fechar os olhos à ciência. Alguns dos melhores cientistas do mundo sobre alterações climáticas vêm dos Estados Unidos. Ele ignora o conhecimento que o seu próprio país gera. Também quero mencionar que os relatórios do IPCC, a que presidi, foram aceites por todos os governos do mundo, incluindo o dos Estados Unidos. Se o senhor Trump quer voltar ao ponto de partida, negando o que tanta gente na sociedade norte-americana aceita totalmente, o que posso eu dizer? Isto diz-nos sobre o tipo de pessoa que ocupa esse lugar extremamente importante nos Estados Unidos e é lamentável.

Pensa que os outros seis países do G7 serão capazes de levar por diante o Acordo de Paris sozinhos?

Espero que sim. Porque são liderados por pessoas que são responsáveis e os seus próprios cidadãos estão muito preocupados sobre os impactos das alterações climáticas. Na minha perspectiva, só porque o senhor Trump não quer fazer nada não deve perturbar, de forma alguma, os seus planos. Se alguma coisa devem fazer porque os Estados Unidos não avançam é planos ainda mais ambiciosos. Acredito que é isso que acontecerá. Os outros membros do G7 devem avançar depressa para aplicar o Acordo de Paris e as suas metas.

Quando fala de medidas mais ambiciosas refere-se, por exemplo, a quê?

Cada um deles [membros do G7] assumiu certos compromissos. Penso que devem começar a olhar para esses compromissos e como é que os podem reforçar. Francamente, será muito mais fácil [sem os EUA]. Se olharmos para as tecnologias das energias renováveis, os custos desceram de forma substancial de há três anos para cá. Se decidiram reforçar os seus compromissos, verão que é mais barato e, de facto, poderão fazê-lo quase a custo negativo.

Pode dar outros exemplos dessas medidas ambiciosas?

O aumento do uso de energias renováveis, a melhoria da eficiência energética de edifícios, de fábricas, dos transportes. Podemos mudar para veículos eléctricos, para mais transportes públicos. Tudo isto terá um grande impacto na redução das emissões. O resto do mundo tem de avançar. Se os Estados Unidos não querem fazer parte do resto do mundo, tudo bem. Se pensam que vivem noutro planeta, deixemo-los acreditar nisso. Se não tiverem de participar numa decisão, talvez torne tudo mais fácil. Devemos avançar.

Por outro lado, a posição dos Estados Unidos não poderá desencorajar outros países – como a China – de cumprir o Acordo de Paris?

De qualquer forma, a China está a gastar muito dinheiro na expansão das energias renováveis. Se os Estados Unidos saírem do Acordo de Paris, então a China terá um mercado maior. Mesmo hoje, se olharmos para os painéis fotovoltaicos nos Estados Unidos, uma grande parte é importada da China. Se a indústria norte-americana não se aperceber da sua responsabilidade, isso será oferecido à indústria chinesa. Digamo-lo: mesmo que o senhor Trump não queira fazer nada, há estados, como a Califórnia, há cidades nos Estados Unidos que vão continuar a fazer o que têm estado a fazer. Por isso, acho importante a indústria norte-americana perceber que será a grande perdedora destas políticas governamentais.

O Acordo de Paris é bom? É que não tem metas específicas para a redução das emissões de gases com efeito de estufa.

PÚBLICO -
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Rajendra Pachauri Nuno Ferreira Santos

O Acordo de Paris é um bom acordo porque é um acordo. Dá-nos a oportunidade de fazer alguma coisa, é um começo, não é o fim. O mundo tem de perceber isso. A minha preocupação é que muitos países pensem que agora que temos o Acordo de Paris não temos de nos preocupar com as alterações climáticas. Se pensarmos que o acordo é o fim do esforço, estaremos a cometer um grande erro. Abre uma porta, e o mundo agora tem de entrar rapidamente por essa porta e agir. Se não o fizermos, o Acordo de Paris tornar-se-á inútil, não ajudará ninguém.

O objectivo do Acordo de Paris é que o aumento da temperatura global do planeta até 2100 fique muito abaixo dos dois graus Celsius, à volta de 1,5 graus, em relação aos tempos pré-industriais. Isso ainda é possível?

É possível mas temos muito pouco tempo. Se atrasarmos a redução das emissões, faremos com que as reduções necessárias sejam quase impossíveis de atingir. É precisamente por isso que o mundo tem de se aperceber da urgência da situação.

Acredito que a única esperança reside na juventude de todo o mundo. Por isso é que lancei o movimento POP – Protect Our Planet –, em que tento trabalhar com os jovens por todo o mundo para que assumam a liderança. E que comecem nas suas escolas, universidades, casas e comunidades e que mudem o estilo de vida. As pessoas que têm 60, 70 anos não vão mudar facilmente. Mas os jovens, que querem assegurar-se de que o seu futuro não é afectado pelos impactos terríveis das alterações climáticas, podem certamente começar a agir. É a única esperança.

Quando lançou o movimento POP?

Lancei-o há pouco mais de um ano, no Dia da Terra de 2016. Tenho estado a trabalhar no México e na República Dominicana. E já começámos na China e em França. Espero que comecemos também em Portugal, porque é um país que vai estar muito vulnerável aos impactos das alterações climáticas. Portugal também é uma sociedade que é muito responsável na área das alterações climáticas. Se os jovens de Portugal decidirem avançar, será um exemplo para outros países. Falei aqui com jovens e espero que alguns deles avancem e lancem este programa nas suas escolas e universidades. Quando estiverem prontos, virei cá para o lançar formalmente, para que todas as instituições educativas no país se tornem centros de acção sobre alterações climáticas. Isso terá um grande impacto na sociedade.

Temos a impressão de que os efeitos das alterações climáticas estão a acelerar-se. Temos visto nos dois últimos anos o branqueamento de corais na Grande Barreira de Coral [fenómeno que conduz estes organismos à mortes e se deve ao aquecimento da água]. Temos visto o gelo no oceano Árctico a encolher. Isto é uma impressão ou é mesmo real?

Isso é cientificamente correcto. Há projecções, na quinta avaliação do IPCC, de que em Setembro de 2050 não haverá gelo no oceano Árctico. Setembro é o mês em que há menos gelo, que derreteu nos meses de Verão. Mas em Setembro de 2050 o Árctico não terá gelo marinho. Podemos imaginar isto? As coisas estão a tornar-se muito piores, muito mais graves e vemos isso a acontecer por todo o lado. Não podemos dar-nos ao luxo de perder tempo, temos de agir muito depressa.