Opinião

Eleições que estão vivas em partidos que estão mortos

A amostra que já é possível ter das campanhas que já arrancaram em 2017, é disso um exemplo, sem originalidade, sem conteúdo, usando as mesmas palavras, os mesmos slogans, dum vazio impressionante.

As eleições autárquicas são um momento fundamental da nossa democracia. Num certo sentido são as mais democráticas das eleições: milhares de portugueses nelas participam, a abertura a listas independentes contrasta com as limitações nas eleições legislativas, e percorrem toda a cadeia hierárquica da administração local, da freguesia ao município. São também a eleição com maior proximidade entre eleitos e eleitores, a elas concorrendo pessoas que são localmente conhecidas e reconhecidas (ou não), com forte personalização. Embora a partidarização seja muito forte, como em toda a vida pública portuguesa, a presença dos partidos é menor e muitas vezes diferente, visto que alguns autarcas têm muito mais independência das direcções partidárias do que os deputados, e não se coíbem de exprimir opiniões críticas, principalmente quando tem legitimidade eleitoral própria.

Em partidos como o PSD, que estão civicamente mortos no seu interior, os autarcas ainda representam uma vida própria e uma relação com o eleitorado que vem do seu bom serviço. As excepções são o Porto e Lisboa, onde os fenómenos de partidocracia das estruturas matam toda a vida própria local. Presumo que algo de semelhante exista no PS, como se viu no caso do Porto. No PCP, a atenção às autarquias, que em conjunto com os sindicatos são os polos mais firmes da existência do partido, sempre foi grande, visto que o partido cobre uma zona geográfica homogénea que funciona como um “bastião”. O BE não tem relevância autárquica.

Claro que nem tudo está bem nas eleições autárquicas, porque normalmente as belas tem sempre senãos. Existem fenómenos de caciquismo, e uma tendência para a promessa eleitoral insensata, que não dura mais do que o tempo da campanha. Infelizmente a tradição em candidaturas de vários partidos, com relevo para o PSD,, CDS e PS, é o modelo das “vinte estações de metro” que o CDS quer fazer em Lisboa. Já nas candidaturas deste ano vi as mais fabulosas das promessas, incluindo um “precisamos de uma rotunda neste espaço”. No entanto, começa a haver uma crescente utilização nas campanhas eleitorais de listagens das promessas feitas na campanha anterior e do seu não cumprimento. É igualmente um passo em frente no escrutínio dos mandatos que talvez possa colocar alguma moderação.

Neste contexto nunca fui partidário da desvalorização das autárquicas e da ridicularização dos candidatos com as histórias dos “tesourinhos deprimentes” das eleições de 2013, com que o nosso engraçadismo se entretia. Há de facto muita coisa fácil de gozar, principalmente nos primeiros anos de autárquicas, quando muitos candidatos faziam eles próprios e os seus amigos o chamado marketing eleitoral, sem terem os meios e os recursos que já tinham as campanhas nacionais.

Mas o problema com as campanhas autárquicas, no exacto mimetismo com as nacionais nos dias de hoje, não é tanto o ridículo que muitas vezes era mais original do que o gozo que se lhe fazia, mas a insuportável cinzentismo dos dias de hoje. Ora esse cinzentismo é revelador, por um lado, da apropriação da política por agências de publicidade, marketing e comunicação, que pululam à volta dos partidos e que gostam imenso de campanhas eleitorais onde ganham bom dinheiro. Essas campanhas profissionalizadas caracterizam-se por incorporar a cultura do “não te mexas”, de falta de risco, de querer falar sempre de dentro de um enorme vazio. E essa é em grande parte a política dos partidos de governação, que como não tem nada a dizer refugiam-se nos estereótipos que são o molde da vida política dos dias de hoje. Não há nada para dizer, porque o que há para dizer não se pode dizer.

A amostra que já é possível ter das campanhas que já arrancaram em 2017, é disso um exemplo, sem originalidade, sem conteúdo, usando as mesmas palavras, os mesmos slogans, dum vazio impressionante. Os exemplos que refiro a seguir são todos de 2017, na sua maioria do PSD, CDS e PS, algumas do BE. O PCP tem mantido alguma prudência com um slogan único até agora: “trabalho, honestidade e competência”.

Temos as campanhas do “mais” e do “melhor”: “o concelho merece mais”, “muito mais Montijo”, “juntos somos mais fortes”, “Palmela merece mais”, “mais Coimbra”, “melhor para todos”. Depois há as campanhas do “juntos” e dos “unidos”: “juntos pela nossa terra”, “juntos somos mais fortes”, “unidos por todos”, “unidos a Fafe”. Eu não sei o que diriam os fafenses que tem eles próprios uma das melhores frases populares de sempre: “com Fafe ninguém fanfe”… Mas isso eram outros tempos.

Depois há as campanhas da “mudança”: “estamos a mudar Valongo”, e as campanhas do “caminho”: “o concelho no caminho certo”, e as do “coração”: “Poiares no coração”, “Gondomar no coração”. O tempo aparece em todas as variantes: passado, presente e acima de tudo futuro: “é tempo de Espinho”, “o futuro começa aqui”, “Reguengos hoje e sempre” “renascer Oeiras”, “Évora é agora!”.

Há as declarações de amor às terras: “por Chaves sempre” , “o nosso partido é a Lourinhã”, “leal ao Funchal”, “afirmar o Barreiro”, que se associam às de pertença, as do “somos”: “somos Coimbra”, “nós somos Almada”. E como “acreditam” muito, há as do “acreditar”: “acreditar em Alfândega da Fé”, “acreditar em Tomar”,etc. Depois há os lugares comuns mais absolutos sem classificação “melhor para todos”, “cumprir a esperança”, “por todos nós”, etc.

Algumas palavras de ordem escapam a esta absoluta trivialidade, apenas porque usam palavras menos gastas eleitoralmente, seja o “pela Lourinhã com coragem”, ou o “Porto autêntico”. Algumas só se percebem por quem sabe o que aconteceu como “Gaia de novo”, ou seja voltar ao Menezes.

E isto é só o princípio, uma amostra de cerca de setenta campanhas concelhias já na rua. Duvido que para a frente vá ser muito melhor. O problema já não é das eleições autárquicas, é da esterilidade crescente da vida política nacional.