Schiaparelli recebeu dados contraditórios e despenhou-se em Marte

Inquérito sobre a aterragem falhada do módulo da Agência Espacial Europeia foi concluído sete meses após o desastre.

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Ilustração do módulo espacial Schiaparelli ESA/ATG medialab

A 19 de Outubro, o módulo Schiaparelli despenhou-se em Marte, falhando a aparentemente simples missão que lhe estava atribuída: aterrar inteiro no planeta vermelho. Passados sete meses, foi concluído o inquérito sobre a “anomalia” que levou o módulo a espatifar-se no solo marciano. Segundo um comunicado da Agência Espacial Europeia (ESA), responsável por esta parte da missão ExoMars, conclui-se que “as informações contraditórias no computador de bordo causaram o fim prematuro da sequência de descida”.

Logo após as primeiras notícias que confirmaram a “morte” do Schiaparelli, que acabou por cair em queda livre e desfazer-se no solo de Marte, percebeu-se que os problemas surgiram no final do voo, já depois da abertura do pára-quedas e do (talvez tardio, especulou-se na altura) arranque dos propulsores que deviam travar a velocidade do módulo e amparar a sua descida até ao solo.

“O módulo de demonstração de entrada, descida e aterragem Schiaparelli separou-se da sua nave-mãe, a Trace Gas Orbiter, conforme planeado, a 16 de Outubro do ano passado, e avançou em direcção a Marte durante três dias”, lembra o comunicado divulgado esta quarta-feira pela ESA. Até aqui, correu tudo bem. Mesmo depois, a missão parecia estar bem encaminhada: “Grande parte da descida de seis minutos, a 19 de Outubro, ocorreu como esperado: o módulo entrou na atmosfera correctamente, com o escudo térmico protegendo-o a velocidades supersónicas. Os sensores na parte dianteira e os protectores traseiros colectaram dados científicos e de engenharia úteis na atmosfera e no escudo térmico.”

Centrado nas lições mais positivas que se podem retirar desta experiência da ESA em Marte, o documento sobre os resultados do inquérito refere ainda que “a telemetria do Schiaparelli foi retransmitida para a nave principal, que estava a entrar em órbita, ao mesmo tempo, em torno do Planeta Vermelho – a primeira vez que isso havia sido alcançado na exploração de Marte”. Esta transmissão em tempo real, a monitorização da sonda Mars Express da ESA, os dados recolhidos pelo Radiotelescópio Gigante Metrewave, na Índia, e ainda as imagens obtidas pela Mars Reconnaissance Orbiter da NASA, possibilitaram a reconstituição da cadeia de acontecimentos.

Mas, afinal, o que aconteceu? O comunicado apenas refere que o triste desfecho do Schiaparelli se deveu a “informações contraditórias no computador de bordo”. “O inquérito externo independente, presidido pelo inspector-geral da ESA, está agora concluído. Identifica as circunstâncias e as causas profundas, e faz recomendações gerais para evitar tais defeitos e fraquezas no futuro”, conclui o documento.

No resumo do relatório, com 28 páginas, refere-se que a “dura aterragem” do Schiaparelli se deveu um erro transmitido pelo software que fez com que fossem feitas estimativas de altitude erradas e, por causa disso, foram realizadas transições rápidas para novos 'modos' que eram activados por esse parâmetro. Ou seja, a fase terminal da descida para o solo marciano foi activada demasiado cedo e o módulo acabou por libertar o pára-quedas antes do tempo, os propulsores só funcionaram durante três segundos e o Schiaparelli entrou em queda livre. Atingiu o solo passados 33 segundos a uma velocidade de 150 metros por segundo e ficou desfeito em vários pedaços.

Apesar dos erros, a conclusão do resumo do relatório também sublinha o lado positivo deste desastre: “Em conclusão, o módulo Schiaparelli esteve muito perto de aterrar com êxito em Marte, como planeado. Uma parte muito importante dos objectivos de demonstração foi alcançada, o que permite validar ferramentas e identificar as actualizações necessárias.” Ou seja, houve muita coisa que correu bem e sobre o que correu mal também há o lado positivo de uma lição a aprender para não repetir o erro. 

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