Opinião

Almaraz e o papel social da ciência e das universidades em Portugal

O mais curioso é verificar que as universidades não vieram a terreiro apresentar a sua visão, seguramente informada, sobre a central nuclear espanhola.

A central de Almaraz tem estado na ordem do dia dos portugueses desde que o Estado espanhol anunciou a construção de uma infra-estrutura de armazenamento de resíduos radioactivos nas imediações da central. Obviamente, pela sua localização geográfica e pelos seus declarados propósitos de manter uma central envelhecida em funcionamento por pelo menos mais duas décadas, a criação dessa nova infra-estrutura representa um risco potencial que convém mitigar com planos de contingência que deveriam, de resto, ser conhecidos pela população dos dois países.

É conhecida a propensão que essa central (como muitas outras) tem para incidentes, mas também sabemos pelos relatórios públicos sobre o seu funcionamento que até este momento não existiu nenhum incidente ou acidente suficientemente grave que justificasse o encerramento desta unidade. No entanto, esta aproxima-se a passos largos da obsolescência e, por isso, é fundamental que nem o Governo espanhol nem o português se esqueçam dessa dura realidade: mau grado os custos financeiros elevados, a central terá de ser num futuro mais ou menos próximo desactivada e desmantelada antes que custos humanos e ambientais — muito mais graves e perenes — possam existir.

No entanto, com raras excepções, apenas a criação da infra-estrutura de armazenamento de resíduos nucleares foi seriamente discutida na imprensa escrita, na rádio e na televisão, sendo neste momento conhecidas as posições dos meios governamentais dos dois países, de algumas organizações não-governamentais, e mesmo de alguns cidadãos mais ou menos informados sobre o nuclear e as suas consequências.

Nada da informação anterior parece merecedora de qualquer reparo especial. No entanto, os cidadãos mais conhecedores dos meandros científicos terão quiçá dado pela ausência quase total de informação vinda dos meios científicos nacionais especialistas na área da ciência e tecnologia nucleares. Talvez o episódio mais caricato desta ausência tenha sido protagonizado pelos jornais e pelos ministros deste Governo, que foram à Assembleia de República falar de um capitão e de um sargento do Exército português que terão feito um estudo sobre os efeitos de um eventual acidente grave na central de Almaraz. Na verdade, eles não fizeram mais do que preencher um vazio deixado pelas universidades e centros de investigação nesse domínio. Nesta história, o mais curioso é mesmo verificar que nem nessas circunstâncias as universidades — que, todavia, tutelam unidades de investigação nessa área — vieram a terreiro apresentar a sua visão, seguramente informada, sobre este problema. Dito de outra forma, as universidades, cuja missão passa seguramente por promover uma discussão séria e esclarecida sobre assuntos da sua competência, negligenciaram (ou foram negligenciadas) no seu papel social.

Ora isto não é um problema menor: se é verdade que as universidades têm de criar e discutir nos meios estritamente científicos o seu conhecimento, não é menos verdade que o seu papel de fomentadores de discussão livre e informada dos assuntos relevantes para a sociedade é absolutamente inalienável e inquestionável. Os contribuintes, financiadores directos ou indirectos das instituições científicas e universitárias, estão no seu pleno direito de usufruir dos resultados da investigação que financiam. É, de resto, apanágio de sociedades livres e desenvolvidas que assuntos de especial importância sejam discutidos por todos e sob todos os ângulos de forma a fomentar opiniões e decisões justas e eficazes por parte dos cidadãos.

Nada disto aconteceu neste caso: os programas televisivos sobre o assunto praticamente nunca incluíram especialistas sobre o assunto e a discussão foi sempre apresentada sob o seu aspecto meramente político. Os especialistas (sobretudo físicos) ouvidos eram quase sempre espanhóis e as opiniões vieram quase sempre de políticos que de ciência e tecnologia nucleares — sejamos francos — possuem um conhecimento insuficiente.

Particularmente significativa é a quase total ausência da discussão de instituições como o Instituto Superior Técnico que, contudo, conta no seu seio com um Campus Tecnológico Nuclear dotado de centros de investigação na área da ciência e tecnologia nucleares e mesmo de uma formação avançada em segurança e protecção radiológica. O Departamento de Ciências e Tecnologias Nucleares (DECN) dispõe seguramente de toda a informação e competência que deveria já ter sido posta ao serviço dos cidadãos para que uma discussão alargada e informada do problema de Almaraz pudesse ter sido desencadeada. Nada disso aconteceu.

O problema de Almaraz revela assim mais uma debilidade das universidades e unidades de investigação portuguesas: uma incapacidade de disseminar conhecimento e de promoção da discussão das implicações sociais associadas. Seria talvez útil que os investigadores e docentes universitários portugueses observassem o que de melhor é feito em outros países europeus nesta matéria, nomeadamente no Reino Unido, onde esta questão é levada muito a sério. Divulgar ciência não é apenas fazer uma palestra mais ou menos divertida para o grande público, cujo objectivo muitas vezes mais não é que o de angariar futuros estudantes para a área científica ou curso universitário de quem a profere, quando não mero exibicionismo em terra de quase cegos. Divulgar ciência é, antes do mais, fazer com que esta se torne parte integrante da vida e pensamento do cidadão para que ele possa discutir e decidir de forma informada e consciente as grandes questões resultantes do processo de criação de conhecimento e das suas aplicações. Se isso fosse a realidade, seguramente a discussão e a prática dos cidadãos sobre a questão de Almaraz seria hoje bem diferente e de certeza bem mais clara.