De tumulto em tumulto, os felizes revolucionários Silver Apples continuam

Pioneiros da música electrónica com coração rock'n'roll, os Silver Apples continuam a ocupar um lugar singularmente seu no cenário musical. Não existe música assim em mais lado nenhum. Simeon Coxe fala ao Ípsilon, antes dos concertos em Lisboa, esta sexta-feira, e em Braga, sábado.

Pouco se alterou desde que os Silver Apples vieram ao mundo, nos anos 60: “O mundo continua em tumulto”, diz Simeon Coxe
Foto
Pouco se alterou desde que os Silver Apples vieram ao mundo, nos anos 60: “O mundo continua em tumulto”, diz Simeon Coxe

Danny Taylor almoça uma sanduíche na carrinha da empresa telefónica para a qual trabalha. Estamos no final dos anos 1990. Entre os que passam pela carrinha onde almoça aquele homem a aproximar-se dos 50, ninguém imagina o que ele viveu e a relevância do que viveu. Na verdade, nem ele sabe quão importante é o que criou em Verões passados. Daí o seu espanto quando, do auto-rádio da carrinha, ouve sons estranhamente familiares.

Danny já não está na carrinha a comer uma sanduíche no intervalo de mais um dia de trabalho banal. Está no Central Park a ver gente a dançar à sua frente, a ver miúdos a aproximarem-se, curiosos, das maquinetas que produzem ondas electrónicas de som envolvendo os corpos e reverberando no esqueleto, tão adequadas à idade espacial e tão agradáveis e intensas que outros, os que não dançam, se deitam no chão do palco para sentir melhor as vibrações graves das ditas maquinetas, osciladores [aparelhos que produzem um sinal electromagnético] da Segunda Guerra Mundial que Simeon Coxe agrupara, ligara com linhas e teclas de telégrafo e transformara em inaudito sintetizador. “Onde andará Simeon?”, terá perguntado a si mesmo Danny, antes de continuar a viajar pela memória.

Lá está Simeon, a tocar ao ar livre nos parques de Nova Iorque, nos anos 1960. Lá está Simeon no mítico Max Kansas City, a tocar para artistas, poetas, pintores e músicos, a tocar para as "estrelas" da Factory de Warhol. Lá está também ele, Danny Taylor, em todos esses momentos, baquetas nas mãos a percorrerem as peles da bateria para criar aqueles ritmos situados no exacto ponto de equilíbrio entre transcendência vudu, precisão da era electrónica e atenção ao detalhe do jazz. Tudo tão distante.

PÚBLICO -
Foto
PÚBLICO -
Foto
Segundo álbum, Contact (1969)
I Have Know Love
Ruby

Os Silver Apples, assim se chamava a sua banda, não existiam há mais de duas décadas, mas ele lembrava-se bem. Um par de álbuns editados, um processo judicial de uma grande companhia aérea que os tornou proscritos da indústria musical, a frustração de não conseguir lançar discos ou dar concertos e a despedida de Simeon, esse que diz ao Ípsilon, quase 50 anos depois do sucedido: "Se não podia ter os Silver Apples, não queria ser músico." 

Em 1970, depois do desaire, Simeon voltou à Nova Orleães em que crescera. Danny desapareceu no anonimato e, tal como Simeon, deixou a música. De repente, no final dos anos 1990, tudo regressa. Na rádio passa I have known love, de Contact (1969), o segundo álbum dos Silver Apples. Danny Taylor contacta a estação e mostra o seu espanto. Dizem-lhe que não é surpreendente, que os Silver Apples são pedidos por muitos ouvintes. “Bem, essa é a minha música”, comenta, antes de se identificar. “O quê? Sabe que Simeon anda à sua procura há mais de dois anos?”, respondem. Não, Danny Taylor não sabia. Sabia até ao momento em que se despedira de Simeon, em 1970. Daí para cá, bateria vendida, não sabia nada.

O meu único mundo é o som

“Utilizo os mesmos osciladores. Tenho 16 reunidos num grupo e três noutro, num total de 19 que coordeno o melhor que posso”. Simeon Oliver Coxe III, nascido a 4 de Junho de 1938 em Knoxville, no Tennessee, fala ao Ípsilon sobre o primeiro álbum dos Silver Apples desde Decatur (1998), Clinging to a Dream, editado em Setembro de 2016. “Para dizer a verdade, não mudei assim tanto no que diz respeito ao processo criativo. A diferença é que a tecnologia é muito melhor, o que me permite utilizar todas as camadas de som que quiser e conseguir muito mais detalhe. Mas a simplicidade formal é a mesma de antes."

PÚBLICO -
Foto
Álbum lançado em setembro de 2016, Clinging to a dream

Clinging to a Dream será apresentado em Portugal esta sexta-feira, no Musicbox, em Lisboa (os Silver Apples tocam às 22h30 e sucedem-lhes em palco os Ghost Hunt e os Gala Drop – bilhetes a 12 euros), e este sábado no GNRation, em Braga (22h30, sete euros). Vimos os Silver Apples em 2008, na histórica estreia portuguesa na Galeria Zé dos Bois, em Lisboa. Vimo-los no ano passado no festival Reverence Valada, num extraordinário concerto com o sol a brilhar radioso. Enquanto Simeon comandava o instrumento baptizado com o seu nome, hoje mais portátil, enquanto as reverberações e a cadência do ritmo ocupavam a plateia que era clareira entre o arvoredo, uma coluna haveria de ceder e cair perante o volume e a intensidade do som, no que foi metáfora muito adequada ao poder desta música transportadora, incrivelmente intensa, ainda misteriosa passados todos estes anos – “my only world is sound”, canta Simeon na canção assinatura da banda, Oscillations, a primeira do álbum de estreia.

Quando se estrearam em Portugal ou quando actuaram na tarde de Valada, já tínhamos os Silver Apples como entidade bem preservada pela história. Perante nós, os pioneiros da electrónica que os Suicide tiveram como modelo e com quem aprenderam os Can, os Neu! ou os Cluster; aqueles que os Spacemen 3, os Chemical Brothers ou os Portishead idolatravam; que todo o músico ligado às linguagens electrónicas reconhece como referência obrigatória; que qualquer músico, de qualquer área musical, ouve com admiração pelo aventureirismo, pela vontade de procurar mais e de descobrir outras formas de expressão. “[Quando começámos] Não achava que estivéssemos a quebrar quaisquer regras”, reflecte Simeon. “Estávamos de uma forma muito alegre e inocente a inventar coisas novas. Se quisesse tocar uma flauta de bisel em Seagreen serenades [do primeiro álbum] ou um banjo em Ruby [do segundo], fazia-o. Ninguém me disse que não era suposto fazê-lo, que era suposto ser só electrónica. Para nós, era um jogo completamente em aberto."

No final dos anos 1990, naquela hora do almoço em que Danny Taylor ouviu a sua música na rádio e telefonou para a estação, a estação contactou Simeon. “Estava no Maryland na altura”, recorda. “Peguei numa escova de dentes, meti-me num carro e conduzi noite fora. Encontrei-me com Danny no dia seguinte”. Primeiro passo: ir a uma loja de música comprar uma bateria. Segundo: montar a bateria na cave de Danny e montar o Simeon frente à bateria. Terceiro: tocar. “Lançámo-nos na música e era como se tivéssemos deixado de tocar juntos na noite anterior. Tudo se encaixou imediatamente. Estávamos de volta."

Na verdade, os Silver Apples já estavam novamente activos desde 1996. Foi nessa altura que Simeon se apercebeu do culto existente em volta da banda e do carácter revolucionário que lhe era atribuído. Através de reedições não autorizadas, com origem na Alemanha, a sua música voltava a circular. Ao descobri-lo, não perdeu tempo. Desde que se separara de Danny, voltara à sua outra paixão, a pintura e o expressionismo abstracto, e trabalhara enquanto designer numa agência de publicidade. Nada disso aplacara a sensação de perda que vivera durante duas décadas. “A pintura não nos dá a recompensa imediata que a música proporciona. Prego um quadro na parede e ele fica ali. A exposição pode durar um mês, mas não estamos conscientes do número de pessoas que o foram ver, não sabemos o que disseram, que reacção tiveram. No caso da música, o feedback é instantâneo. Senti muita falta disso”, confessa. Mas não era da música, no geral, que sentia falta. Era da música dos Silver Apples, da visão que construiu em conjunto com Danny Taylor. Após a primeira separação, tocaram brevemente com outros músicos, procuraram outras bandas – “mas era tão pouco compensador”, suspira.

O mesmo acontecera, de resto, enquanto eram ainda banda no activo. Tinham um fã em Andy Warhol, que imaginou para eles algo semelhante ao que fizera com os Velvet Underground. “Estávamos muito interessados em criar qualquer coisa que fosse nossa, minha e do Danny, que reflectisse o que habitava a nossa mente e a nossa forma de construir canções. Era assim que encontrávamos o nosso equilíbrio. Ter alguém vindo de fora até parecia uma boa ideia, e tentámos fazê-lo, mas ninguém entre os que Warhol pôs no nosso caminho passou sequer a fase das audições”, conta.

Isto não é música, não é rock'n'roll

Os Silver Apples nasceram das cinzas de uma The Overland Stage Electric Band que não ficou para a história. Certo dia de 1967, Simeon, vocalista, levou para palco um dos osciladores que eram então vendidos ao desbarato, tidos como obsoletos. Enquanto a banda tocava os blues, os êxitos soul e as canções dos Doors que faziam parte do alinhamento, Simeon ligou o oscilador e deliciou-se com o som produzido. O resto da banda, à parte Danny Taylor, não teve a mesma reacção. Saíram um a um, até só restarem Simeon e Danny.

No ambiente efervescente da Nova Iorque dos anos 1960, os Silver Apples construíram nome junto da comunidade artística e tornaram-se banda seguida atentamente a cada aparição em palco. A sua música era atraente tanto para aqueles que despertavam para a embrionária música electrónica – Morton Subotnick e o seu Silver Apples on the Moon foram um sucesso em 1967 –, como para os que procuravam novas expressões artísticas, onde quer que elas se estivessem (Simeon conta que, no final dos concertos, eram sempre abordados por poetas propondo-lhes colaborações), ou aqueles que encontravam no timbre sonhador da voz e das letras de Simeon, no ambiente onírico das canções e no pulsar rítmico constante, uma banda-sonora perfeita para a contracultura da época. Curiosamente, Simeon aponta como a sua maior referência, ainda hoje, “as sequências de acordes simples de Fats Domino e a energia límpida e cheia de alma dos primórdios do rock’n’roll’”.

A maior resistência aos Silver Apples vinha do local mais inesperado. “Tínhamos uma série de amigos artistas que estavam na linha da frente da revolução cultural, chamemos-lhe assim, que se vivia então em Nova Iorque, e que nos viam como fazendo parte desse movimento. Sentíamos que estávamos a contribuir para mudar a forma como as pessoas apreciavam música." A maior parte dos restantes músicos, porém, não pensava assim. “Achavam ofensivo o que fazíamos. Diziam que não era música, que não soava bem, que não era rock’n’roll. Tinham de ter tudo organizado em caixas, de forma a perceberem o que ouviam. Nós queríamos ver até onde podíamos levar a música e enlouquecer alegremente no caminho."

O primeiro álbum foi um sucesso local na comunidade underground. O segundo, que se esperava de consagração, deveria ser apoiado com uma digressão pelos Estados Unidos. Acontece que um executivo da Pan Am, em visita a uma discoteca, reparou no logótipo da companhia na capa de Contact, onde a banda surgia no cockpit de um avião. Olhou a contracapa e indignou-se: mostrava a banda no cenário de um desastre aéreo. O processo judicial interposto pela Pan Am não só obrigou a que todos os discos da banda fossem retirados do mercado como levou à falência a Kapp Records, a editora dos Silver Apples. Mais: pouco tempo depois, ainda na sequência do processo judicial, o equipamento de Simeon e Danny são confiscados. Mais ainda, conta Simeon: “Fomos considerados os responsáveis pela falência da Kapp e tornámo-nos ‘intocáveis’. Ninguém da indústria queria ter qualquer contacto connosco." Em 1970, desistiram. Se não podiam ser os Silver Apples, não seriam nada.

PÚBLICO -
Foto
Álbum The Garden

O mundo continua em tumulto

Cinco décadas depois do nascimento, nada mudou na natureza dos Silver Apples. São banda reverenciada nos mais diversos sectores da música popular – da electrónica ao rock ao hip-hop –, mais famosos do que alguma vez foram. Tocam em festivais, em salas de concertos e galerias de arte mundo fora. Dos anos 1990 até à actualidade, colaboraram com os Portishead ou com Sonic Boom, editaram música nova e, por fim, The Garden, gravado em 1970 mas que se manteve arquivado até 1998.

Os primeiros versos de Clinging to a Dream, álbum mais polido e de marca contemporânea na produção, mas em que se mantém intocada a estética e traços criativos do período clássico dos Silver Apples, dizem assim: “Lingering on the edge of wonder/ clinging to a dream”. Ou seja, dizem o mesmo que Simeon dizia em 1968. A realidade, com ou sem salto tecnológico, não se alterou substancialmente. “O mundo estava em tumulto quando começámos e continua em tumulto”, resume Simeon. Agradece à miniaturização tecnológica ter-lhe permitido reduzir o número de osciladores que carrega em digressão, substituídos por um sampler que reproduz o som dos ausentes – “agora não tenho de carregar 660 quilos de material em cada digressão”. E agradece à tecnologia outra coisa.

Em 2005, Danny Taylor morreu inesperadamente em Nova Iorque, aos 56 anos, vítima de um ataque cardíaco. Pouco antes, Simeon gravara o amigo ao longo de alguns ensaios, de forma a registar-lhe o máximo de padrões rítmicos possível. Em Clinging to a Dream, tal como nos concertos dos Silver Apples desde a morte de Danny Taylor, é dele a bateria que ouvimos, samplada. “Tantos anos depois, a sua arte ainda é parte da banda, tal como se estivesse aqui ao meu lado vivo e a tocar."

Em Misty mountain, uma das canções do álbum de estreia, ouvíamos Simeon perguntar: “Are you here with me?/ And did you count the miles?”. Estamos. Continuamos a contar.