Não há redenção à vista. Vamos cantar?

Fábrica de Nada: proposta de pensamento e agitação, agora que não se consegue ler o mundo. Grande filme instável, entre o ensaio e o musical, não deixa de procurar a sua utopia. A longa-metragem de Pedro Pinho é um dos quatro filmes portugueses a caminho do Festival Cannes.

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O “apocalipse sustentado” o que é? É hoje. “Tudo se tornou impossível mas tudo prossegue como se nada fosse e como se não houvesse saída. É a coisa mais angustiante que se pode viver. E isso gera coisas bizarras, por exemplo o que aconteceu nos EUA com Donald Trump...” E o que aconteceu em França: Macron vs. Le Pen, o desaparecimento das narrativas partidárias, a raiva, a frustração... Esta conversa com o realizador Pedro Pinho aconteceu no dia a seguir à eleição de Emmanuel Macron para a Presidência francesa.

Semanas antes, Fábrica de Nada era anunciado para a Quinzena dos Realizadores, num daqueles acrescentos que é normal acontecerem nas secções do festival, que se reservam o direito de completar a narrativa após o anúncio oficial. Mas ao chamar a si o filme de Pinho em cima dos resultados da primeira volta, Edouard Waintrop, delegado geral da Quinzena, parecia meter-se ao barulho, reagir. Ou foi tudo coincidência — as coincidências criam-se. É que este é o filme em que um operário de uma fábrica de elevadores na falência, decorrendo as negociações para os despedimentos, diz a um realizador de cinema que se intrometeu no vazio para fazer com os despedidos um musical sobre um modelo de autogestão a nascer, que ninguém quer saber de direita ou de esquerda, que as ideologias não servem, que as pessoas precisam é que as suas vidas sejam protegidas... já ouvimos isto: é a banda sonora do “apocalipse sustentado”.

“Acredito que as grandes narrativas, esquerda/direita, são um equívoco. Mas há um perigo de isso ser aproveitado. Por isso é que o pensamento inconformista não pode ficar quieto. Tem missão a cumprir. Não estamos a produzir discurso sobre essa realidade. Trump está a aproveitar-se disso. Le Pen também.”

Fábrica de Nada é proposta de agitação e pensamento nascida em tempos de impotência. “Impotência pela ausência de discurso válido sobre o lugar do trabalho na sociedade, que mudou, mas não sabemos o que se está a passar, a organização ainda tem a ver com o século XIX.” Fábrica de Nada nasceu em 2013, 2014, 2015, precisa. Houve uma ideia inicial de Jorge Silva Melo: adaptar a peça de Judith Herzberg (despedidos de uma fábrica aproveitam o vazio para não se despedirem da sua humanidade), fazer um musical para crianças. Silva Melo desistiu e Pedro Pinho, que adaptava, ficou com a encomenda nas mãos. Aproveitou-se das ideias de base — aproveitaram-se, ele e os argumentistas Luísa Homem, Leonor Noivo, Tiago Hespanha, colectivo da produtora Terratreme que começou a escrever a partir das histórias que encontravam no casting.

“O facto de ter começado como encomenda deu-nos liberdade para experimentar”, conta Pedro. “O objectivo era pôr em colisão propostas que nos são próximas, muitas contraditórias, nenhuma salvífica, mas todas levantando questões fundamentais. Não há redenção à vista, temos todos que pensar estas questões.”

O resultado é um grande filme instável. Não promete epifania mas isso não nos impede de ficar à espera de resolução. O que o torna experiência angustiante: não estabiliza, está sempre a questionar(-se), a dar e a tirar, a acreditar e a destruir, a permitir o reconhecimento — Recursos Humanos de Laurent Cantet, um melodrama fabril, musicais como Dancer in the Dark de Von Trier, Une Chambre en Ville de Jacques Demy, em que a classe operária (não) vai para o paraíso... — mas depois inventa, com várias estocadas, a sua forma de autogestão.

É a proposta de um colectivo (não é de desperdiçar a hipótese de ser um retrato do que se discute na Terra Treme) para um colectivo, nós. Junta a ficção de um casal e as histórias reais dos intérpretes (profissionais e não actores — um deles um dia trouxe a sua nota de despedimento para o plateau). Propõe ensaio e musical — montando debate sobre o património ideológico do século XX como reportagem sobre um think tank e estimulando os intérpretes “a fazer como nos filmes”. Questionando uma coisa e outra. Para quem tem deixado marcas no documentário (Bab Sebta, 2008, com Frederico Lobo, As Cidades e as Trocas, 2014, com Luísa Homem) é viva a angústia perante a hipótese de uma ficção trair o material humano. (Há um momento em que um operário atira ao cineasta que ele quer fazer um filme para mostrar “aos amigos franceses” — Fábrica de Nada está a caminho de França).

“O filme vai buscar o seu optimismo, para não ser buraco de niilismo, dizendo: temos que discutir isto, sabendo que a utopia não é despida de dúvidas, não se inventa como num musical. Se não percorremos caminhos sinuosos, fazemos o quê, ficamos em casa? Sabendo isso, estamos mais preparados.” É isso a sequência final de Fábrica de Nada: quem fez isto, acredita.