Reportagem

“A pessoa que eu fui está enterrada na minha cabeça”

É um dilema típico da vida de quem faz cirurgias de reatribuição de sexo. Como manter um amor ou encontrar um novo? Que fazer ao passado? O estigma persiste, apesar de o corpo já condizer com a identidade de género. Quarta-feira é Dia Internacional Contra a Homofobia, a Lesbofobia e a Transfobia.

Formas arredondadas, peitos cheios, cabelos compridos, unhas afiadas, andar bamboleante. Quem olha para Maria nem imagina que nasceu num corpo de homem. Nem o namorado, com quem dorme há meses, percebeu. A mulher, de 45 anos, também não lhe contou. Tem medo da reacção dele.

O processo de mudança de sexo demora anos. A espera que o antecede ainda mais. E há muito quem, como Maria, suspenda a vida sexual. Horrorizava-a ser desejada como homem ou usada para satisfazer um fétiche. Quando as suas características sexuais, por fim, coincidiram com a sua identidade de género, ficou disponível para amar. Surgiu o dilema. O que fazer ao passado? Escondê-lo ou expô-lo?

Nunca se sentiu homem quando tinha pénis, muito menos agora, que tem vagina. “Sinto-me mulher, mas... Não sei explicar. É uma insegurança tão grande. Se calhar é como aquelas pessoas magras que se acham gordas.” Ainda na véspera se sentara no colo do namorado e lhe perguntara: “Sou bonita?” As outras mulheres parecem-lhe sempre mais bonitas. Teme que uma mulher transexual seja sempre vista como “uma mulher menor”.

Há perto de um ano, acabara Maria de recuperar das cirurgias de reatribuição de sexo, estava com peso ideal, a pele bronzeada, um novo guarda-roupa, perdeu-se de amores por um homem. Volvidas duas semanas de namoro, abriu o jogo. “Achei que ele ia perceber pela voz, que alguém lhe podia contar. Arrependi-me logo.” O namorado não pôs fim à relação. Tantas vezes até disse a Maria: “Não vejo diferenças. És igual às outras.” Só que ela não se convenceu. Voltou ao bloco operatório para corrigir a vagina. No regresso, vislumbrou um olhar estranho. “Senti que ele ficou repugnado. Há momentos em que se devem lembrar que ali esteve outra coisa.” Terminou o namoro. “Sofri tanto.” Perdeu sono, perdeu peso. Quer evitar o mesmo desfecho.

Agora, a mulher, supervisora numa grande empresa, não consegue contar ao novo namorado que nem sempre teve aquele nome e aquele corpo. Já esteve quase. Uma noite, ao fazer um zapping, depararam-se com Amor Romeira Medina, concorrente do reality-show da TVI Casa dos Segredos. O namorado comentou: “Esta espanhola é esquisita.” Volvidos uns dias, tornaram a vê-la. “Ai, tem um crânio de homem!”, reagiu. Maria concordou: “Tem os maxilares muito angulosos. É natural, é transexual.” Aproveitou para perguntar: “Sabes o que é que isso quer dizer?” E ele retorquiu: “Sim. É uma pessoa que nasce com dois sexos.” Não é. Uma pessoa com características sexuais que incorporam ambos ou certos aspectos da fisiologia masculina e feminina é intersexo. Transexual é alguém que tem uma identidade de género diferente do sexo que lhe foi atribuído à nascença.

Não acha que esteja a enganá-lo. “Ele conheceu-me assim. A Maria que eu sou é esta. A pessoa que eu fui está enterrada na minha cabeça.” Outras vezes, acha que sim, que está a enganá-lo, que, enquanto ele não souber, haverá nevoeiro, silêncio, não poderão ter uma relação verdadeira.

“Tenho medo da reacção dele”, admite. “Ele é homofóbico.” Percebeu isso quando viram dois rapazes de mãos dadas no metro. “Ele disse que é um amor sujo.” Discutiram. “Qual é o teu problema? Não são pessoas como as outras? O amor é para toda a gente. Tens de respeitar as pessoas”, ralhou ela. “Eu respeito”, ripostou ele. “Não respeitas! Se isto te incomoda, não respeitas!”

Às vezes, põe-se a imaginar que ele chega a casa, a abraça e lhe segreda ao ouvido: “Eu sei, Maria. Não te preocupes. Está tudo bem.” Outras vezes, imagina que faz as malas, volta para a casa dela, que mantém intacta, e lhe deixa uma carta a contar tudo. “Não me sinto bem com esta situação. Estou com uma espada em cima da cabeça. É uma questão de tempo. A reacção dele não vai ser boa”, suspira. “Preparei-me tantos anos para viver sozinha”, torna a suspirar. “Acho que o amor não é para nós — a menos que encontremos alguém com uma cabeça especial.”

Duplo estigma

Cada pessoa tem a sua maneira de reagir, sublinha a psicóloga Sara Forte, do Centro Gis, que em Matosinhos presta apoio jurídico, psicológico ou social a pessoas LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e trans). Algumas pessoas transgénero nem precisam de fazer cirurgia de reatribuição de sexo para se sentirem em paz.

Diz a experiência de Zélia Figueiredo, médica psiquiatra, responsável pelo serviço de sexologia clínica do Hospital Magalhães Lemos e fundadora da Jano — Associação de Apoio a Pessoas com Disforia de Género, que para os homens é mais fácil do que para as mulheres. Não só por eles, também pelos outros. “Conheço muitos homens [trans] que vivem maritalmente”, afiança. “Alguns ainda nem tiraram o peito.” Comprimem-no, usam roupas largas, rectas, cabelos curtos. Quando iniciam o tratamento hormonal, a voz engrossa, os pêlos crescem. “Quando elas os conhecem, vêem um rapaz. Depois, quando eles lhes contam, elas têm uma desilusão — não escondem isso. Algumas dizem: ‘Eu fiquei na dúvida, mas já gostava dele.’ A história é quase sempre assim.”

Há excepções, claro. “Há uma ou outra, que é lesbíaca, que acaba por largar”, diz a médica. “A maior parte das outras aguenta. Muitos casais, depois, adoptam crianças, fazem uma vida normal. As mulheres são muitíssimo mais tolerantes.” Os homens tendem a reagir pior. “Um homem tem mais vergonha. É mais mal visto viver com uma mulher que tenha características masculinas.”

As mulheres trans tendem a ter mais dificuldades em passar despercebidas. O Serviço Nacional de Saúde só garante o tratamento hormonal e as cirurgias fundamentais (sobram queixas sobre a delonga e a qualidade do serviço). Muitos não chegam a sujeitar-se a cirurgias de feminização facial — a fazer desgaste ósseo da testa, avanço do couro cabeludo, levantamento das sobrancelhas, aumento das maçãs do rosto, suavização da maçã de Adão, rinoplastia. Ninguém pode mudar a largura dos ombros ou o tamanho das mãos. E há que eliminar pêlos e modelar a voz.

Não é só a forma, alerta Nuno Pinto, presidente da ILGA-Portugal, autor de uma tese de doutoramento sobre as experiências específicas das pessoas transexuais e sobre as representações sociais da transexualidade e do transgénero. “Há uma maior valorização do sexo masculino. A sociedade percebe melhor que alguém queira fazer a transição para homem. Faz-lhe mais confusão que alguém queira transitar para mulher, um sexo que considera menor.”

As mulheres trans enfrentam, indica Nuno Pinto, dois tipos de estigma: um por serem mulheres, outro por serem trans. E isso também afecta quem com elas se relaciona de uma forma amorosa. “Há um preconceito, de contornos homofóbicos, que reflecte a ideia de que aquelas mulheres não são bem mulheres. O companheiro pode ser visto como alguém que tem uma relação não com uma mulher como as outras, mas com uma mulher que foi um homem ou ainda o é de certa forma.”    

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Letícia Santos, 25 anos. Aprendeu cedo a defender-se e diz gostar de desfazer os estereótipos que se propagam como ervas daninhas

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Letícia Santos sabe bem o que é ter de lidar com o desaforo alheio. Há quem lhe pergunte do pé para a mão. “Ai, olhe, você era um homem não era?” Já deu por ela a responder: “Você está a ver aqui algum homem?” “Mas era ou não era?” E ela passa-se. “Olhe, quer que lhe abra as pernas?!” Aprendeu cedo a defender-se. “Quando era miúda, chamavam-me nomes.” Por nomes entenda-se paneleiro, maricas, larilas. “Virava as costas e levava no corpo. Até que rachei a cabeça a um. O que custou foi a primeira vez!”

Não enjeita o Dia Internacional Contra a Homofobia, a Lesbofobia e a Transfobia, que se assinala a 17 de Maio. “Para muita gente isto é um bicho-de-sete-cabeças”, esclarece. Há quem se recuse a frequentar o salão que ela abriu na periferia de Lamego, com argumentos como este: “Não vou aquele salão porque ele era um homem e agora não sei o que é”. E há quem lide bem com o facto de Letícia já ter tido outro nome e outro corpo. “Temos uma agenda regular, certinha.” E a rapariga, de 25 anos, é capaz de passar horas a falar sobre o processo de mudança de sexo com qualquer cliente que se revele interessado e respeitador. Já aceitou várias vezes dar a cara na comunicação social. Gosta de desfazer os estereótipos que se propagam como ervas daninhas.

Quando conheceu o companheiro, no Verão do ano passado, tinha feito a operação de reconfiguração de sexo havia seis meses. “Contei-lhe logo. Acho que não vale a pena esconder. Tudo se sabe, mais tarde ou mais cedo.” Ele não recuou. Ela pediu-lhe que pensasse bem no efeito que a notícia da relação poderia ter na família, no círculo de amigos, no emprego. Ele pensou e ficou.

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Letícia e o namorado, António. "Ela é uma mulher", diz. Planeiam-se casar-se

Teme António ser visto como homossexual? “Não”, afirma ele. “A Letícia é uma mulher.” E ela apressa-se a tomar a palavra para distinguir a realidade da percepção social: “A maior parte das pessoas pensa: era um homem, é uma mulher, és gay; é uma mulher, mas era um homem, és gay.” Que fazer? “É ignorar.”

Quando se conheceram, ela tinha ainda seios muito pequenos e pêlo. Fartara-se de esperar pela resposta do Sistema Nacional de Saúde, na Unidade Reconstrutiva Genito-Urinária e Sexual do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra. Recorreu ao sector privado, ao Hospital de Jesus, em Lisboa, para fazer a vaginoplastia. E ficara à espera que o Hospital de Vila Nova de Gaia/Augusto Santos Silva a chamasse para fazer a mamoplastia. “A mamoplastia nunca foi uma prioridade”, diz. “A prioridade era a vaginoplastia. Há muita menina sem peito ou com pouco peito.”

Mantém o formato do rosto. Aqui e ali, a voz ainda a trai. Não se importa. “Aprendi a gostar de mim, basicamente, a olhar para o espelho e a dizer: é assim que eu estou, é assim que eu vou ter de gostar de mim.” Dizia isso e fazia-se à vida. “Trabalhava de mais. Saía de mais. Andava sempre de um lado para outro. Passava muito pouco tempo sozinha, que era para não pensar nas coisas.”

Não é que esteja imune. Às vezes, só lhe apetece ficar em casa, em silêncio, encostada ao namorado. É que está decidida a viver como sempre quis. Planeiam casar-se pela Igreja Católica e adoptar uma criança. “A minha prioridade a seguir à cirurgia era ser mãe”, revela. “Ia fazer uma adopção, independentemente de ter uma relação. Adoro crianças grandes e pequenas e acho que vou ser uma excelente mãe.” Assusta-a a possibilidade de a criança ser trans. “Se eu tiver um filho, 
isso vai ser a minha preocupação. Não é pelo que as pessoas podem dizer. É: ai que 
tu vais sofrer!”

Um amor que vem dos tempos de escola

Duarte Moreira, 37 anos, tem a mesma companheira há 18, um filho de 13 e outro de quatro, um cão e uma cadela, e não sabe quando contar aos rapazes que já teve outro nome, outro corpo. “É uma coisa que não faço questão de esconder, mas há um tempo certo e ainda não sei qual é.”

Este técnico de emergência pré-hospitalar conhece transexuais que se juntaram a pessoas que tinham filhos pequeninos. “Eles cresceram a ver a transição. Aquilo, para eles, era o dia-a-dia.” Não houve, por isso, estranheza. Os dele vieram depois dessa fase — um por adopção, outro por procriação medicamente assistida. E o mais velho está à porta da adolescência. “Pode descobrir por alguém, ser alvo de chacota na escola.”

Às vezes, Duarte é convidado a falar sobre transexualidade. “Eu tento explicar que nasci com um sexo feminino, tive um nome feminino, mas nunca fui mulher. Peço-lhes que fechem os olhos e imaginem que estão perante um espelho.” Recorreu a essa estratégia quando o filho conheceu uma transexual ainda com traços masculinos e começou a fazer perguntas. “Fecha os teus olhos. Faz de conta que estás em frente a um espelho. Sabes o que sentes, o que pensas, o que és? Agora, imagina que a imagem que tu vês nesse espelho não é a tua, é a de uma mulher.” O miúdo, que tem um défice cognitivo, percebeu a dissonância. “Que horror!”, reagiu.

Sempre que é desafiado a contar a sua história, demora-se nas referências à companheira, Patrícia. Conheceu-a aos 17 anos, nos bancos da escola secundária. Passaram de cão e gato a melhores amigas. Sempre que podiam, juntavam-se. Um dia, trocaram um beijo. “Eu tive uma crise de choro”, recorda ele. “Ai! Acabei com a nossa amizade”, lamentou. “Estou completamente confusa”, admitiu Patrícia. “Eu não gosto de mulheres. Eu não te vejo como uma mulher. Até porque não pareces uma mulher.” Duarte também estava confuso. “Eu sinto-me um homem”, reiterou.

Teve a primeira consulta de sexologia clínica nos Hospitais de Coimbra em 2001. Voltou lá para fazer testes e exames. Na última consulta, estava na sala uma psicóloga do Hospital Júlio de Matos, que levou o seu processo para Lisboa. Impõe-se haver duas avaliações e o aval da Ordem dos Médicos. Quando chegou a autorização, foi encaminhado para o Hospital de Santa Maria, em Lisboa.

As cirurgias de reatribuição de género estavam previstas na lei portuguesa desde 1995. O cirurgião Godinho de Matos começara a fazê-las no Hospital de Santa Maria em 1999 e continuara a fazê-las até 2005, altura em que se reformara. O cirurgião Décio Ferreira tomara o seu lugar, ocupando-o até se aposentar, em 2001 (altura em que passou a operar no Hospital de Jesus, em Lisboa).

Duarte sujeitou-se a tratamento hormonal (o clítoris cresceu). Fez uma mastectomia (remoção de seios), uma histerectomia (remoção de útero e ovários), uma metoidioplastia (soltar o clítoris da sua posição original para a frente, para uma posição que lembra a de um pénis). Ficou com um pénis de cinco a seis centímetros. Não é que a sua masculinidade estivesse em causa. “Eu sentia-me um homem. As pessoas desenrascam-se da maneira que podem. E a Patrícia está-se a borrifar que digam que é lésbica, como é que faz por eu ser assim ou assado, mas eu sentia que não a satisfazia.”

Teria de fazer uma falopastia, o conjunto de cirurgias que conduzem à construção de um pénis. O que se fazia na altura não dava resultados satisfatórios. “Dei um prazo de dez a doze anos a ver se a técnica evoluía. Se não evoluísse, ia ter de viver assim. Há homens que têm micropénis.” Há cerca de dois anos, um amigo falou-lhe numa nova técnica. “Eu perguntei-lhe. Tens fotos disso?” Patrícia disse-lhe: ‘Vê lá no que te vais meter! Estás preparado para mais uma caminhada?”

Nunca imaginou que fossem necessárias tantas cirurgias. Houve um problema. “Infelizmente estive a morrer”, revela. “Perdi o que tinha e o que pus. Tive de recomeçar tudo do zero. Ainda fiquei dois ou três meses com um orifício na bexiga. Usava um tubinho para urinar.”

“Já lá vão quase 40 cirurgias”, suspira. “Fiz 18 só no último ano e meio por causa do meu belo sistema imunitário e das minhas infecções.” Apesar de tudo, não se arrepende de ter feito a falopastia. “Ainda que ela não servisse para mais nada, só o volume, o olhar para ela, o urinar de pé, porque eu tinha mesmo de ir a um urinol porque se fosse a uma sanita ia para todo o lado. Eu na sanita sentava-me. Neste momento, já não me sento. Tendo em conta que isto não aumenta em erecção, têm de fazer umas coisas abonadas. Vê-se à distância”, ri-se.

No fim disto tudo, não suporta ouvir dizer que a transexualidade não é uma doença. “Desde que se começou a falar nisso, tenho sofrido uma discriminação sem precedente”, afirma. “A propósito de tudo o que têm lido e ouvido, as pessoas dizem-me que sofro por opção, que, ao contrário do que sempre disse, não tenho doença alguma.”

Da saúde mental para a saúde sexual

O tema está na ordem do dia. Na Assembleia da República estão três propostas de lei — uma da autoria do Bloco de Esquerda, outra do PAN — Pessoas, Animais, Natureza e outra do Governo — que põem fim à exigência de diagnóstico médico para mudar o nome e a menção ao sexo no registo civil.

As iniciativas surgem na sequência de uma mudança que ocorre a nível internacional. O manual de doenças mentais elaborado pela Associação Americana de Psiquiatria já não inclui o transtorno de identidade de género. Mantém apenas a disforia de género — definida como a angústia sentida por quem se identifica como homem e tem corpo de mulher ou vice-versa. O Parlamento Europeu já aprovou uma resolução para pressionar a Organização Mundial de Saúde (OMS) a “retirar os transtornos de identidade de género da lista de transtornos mentais e comportamentais e a velar por uma reclassificação não patologizante nas negociações sobre a 11.ª Revisão da Classificação Internacional de Doenças”. E a OMS já anunciou que as categorias de diagnóstico relativas a pessoas trans seriam retiradas da área da saúde mental e passariam para a saúde sexual.
O debate foi trazido para Portugal por várias associações de defesa dos direitos das pessoas LGBT, que se batem pela “despatologização”. Não seguem todas essa linha. Dentro da Jano, há um grupo que se opõe.

Neste momento, circula um abaixo-assinado a reafirmar a “necessidade de uma alteração da lei que consagre o direito à autodeterminação de género e à agência sobre os corpos, com o consequente usufruto dos cuidados médicos, garantidos pelos SNS, que cada pessoa considerar necessários para o seu bem-estar, providenciando-se assim uma cidadania plena às pessoas trans”. 

A Ordem dos Médicos entende que “a utilização da expressão ‘patologização’ e da expressão ‘despatologização’, a propósito da transexualidade, condiciona frequentemente mal-entendidos”. Entende que “a correcta utilização dessa terminologia implica que seja claramente explicitado ser uma despatologização em termos de doença mental”. “É inequívoco existir fisiopatologia biológica na transexualidade. Esse aspecto é adicionalmente importante, pois só a assunção de que existe patologia nas pessoas cuja identidade de género não se identifica com o sexo atribuído à nascença permitirá que, se o entenderem, possam ser submetidas a tratamentos para reaquisição de sexo”, sustenta, num parecer. 

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Lourenço Ódin Cunha entrou no programa de televisão "Casa dos Segredos" para provar que "pessoas como eu são normais, têm uma vida familiar, uma vida social, uma vida de trabalho"

Ainda há muita ignorância

Há um antes e um depois de a transexual Gisberta Salce Júnior ter sido agredida por pelo menos 14 rapazes e atirada por três deles para uma espécie de cratera de um prédio inacabado, no Porto. A descoberta, feita a 22 de Fevereiro de 2006, pôs a nu o preconceito do país em matéria de identidade de género, têm dito activistas como Sérgio Vitorino, das Panteras Rosa.

O assunto ganhou espaço de reportagem e documentário, de talk-show e reality-show. Em 2011, uma lei específica foi aprovada. Em 2012, o Código Penal passou a prever um agravamento para crimes motivados por transfobia. Em 2015, o Código do Trabalho proibiu a discriminação em função da identidade de género. Nos últimos anos, desenvolveram-se centros de apoio — há um em Matosinhos, gerido pela Associação Plano i, e dois em Lisboa, um gerido pela ILGA e outro pela Casa Qui.

Lourenço Ódin Cunha assumiu-se como um dos “modelos” que têm permitido a pessoas cada vez mais jovens perceberem o que se passa com elas e procurarem ajuda. Entrou na Casa dos Segredos para provar que um transexual pode passar despercebido. “Eu queria provar que pessoas como eu são normais, têm uma vida familiar, uma vida social, uma vida de trabalho. Antigamente, associava-se muito à prostituição. Queria provar que não é assim. Eu tenho uma vida normal. Sempre tive. Só fiz o processo.”  “Acho que ainda há muita ignorância sobre este assunto”, diz. “Quando se fala numa prótese, as pessoas imaginam coisas absurdas. Isto são uns tubinhos que se metem dentro da pele, não é um artefacto de plástico que funciona a pilhas”, ri-se.

O personal trainer, de 35 anos, mora em Famalicão, junto da família que sempre o apoiou. Não há dia que não receba pedidos de ajuda. Faz parte de dois grupos fechados no Facebook, percorre o país para esclarecer trans, familiares, amigos. Julga que demasiado poucos trans assumiram a luta pelos seus direitos. “Têm receio. A maioria muda de cidade, muda tudo. A pessoa tem uma identidade nova e a outra acabou, morreu ali.” 

Há cada vez mais gente fora do holofote. Carla Soares, 30 anos, perdeu o emprego e muitos amigos quando iniciou as cirurgias. Fez a de reatribuição de sexo há três meses em Coimbra. Ainda terá de voltar ao bloco, mas já se sente mais confiante para enfrentar o mundo. “Eu antes vivia no meu cantinho e neste momento tenho necessidade de conviver com pessoas.Gostava de ter um namorado normal, como qualquer pessoa normal, digamos assim.”

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