Reportagem

Salvador Sobral e a canção em português que resultou tão bem como qualquer outra língua

Num clima de festa, Salvador Sobral regressou a casa com o troféu da primeira vitória de Portugal no concurso de música europeu. Apesar da “peculiaridade” de ter cantado em português num festival dominado por canções em inglês, os vencedores acreditam que o mais importante foi a mensagem sentida.

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ENRIC VIVES-RUBIO
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Os irmãos Salvador e Luísa Sobral chegaram este domingo a Portugal e foram recebidos por uma multidão de fãs no aeroporto de Lisboa, que os aclamaram depois do triunfo inédito da canção Amar pelos dois no festival da Eurovisão. “Ainda não sei bem como vou lidar com isto”, confessa o intérprete de 27 anos, relativamente à atenção que tem recebido a nível mediático – não só em Portugal mas também no estrangeiro.

O sucesso da canção durante a final de sábado, na capital ucraniana, garantiu a Portugal a primeira vitória no concurso da Eurovisão, batendo o recorde europeu de pontos, após anos sem chegar sequer aos cinco países mais votados. E mais: esta era uma das poucas canções desta edição a ser cantada na própria língua, mesmo tendo sido esta a primeira edição portuguesa a permitir canções integralmente em inglês. “O idioma, mais do que a língua portuguesa, foi a música”, explica Salvador, durante a conferência de imprensa pouco tempo depois de ter chegado ao aeroporto de Lisboa.

Quando Salvador apareceu às centenas de pessoas que o aguardavam há horas, bradaram vozes pelo ar, em gritos de apoio que ecoavam pelo aeroporto. Sob o abano das bandeiras lusas, os portugueses gritavam, entusiasticamente e em uníssono: “Salvador! Salvador!” e “Portugal! Portugal!”. Enquanto caminhava sob a protecção de vários agentes da PSP, Salvador, que recusou o estatuto de herói e pediu ainda respeito pela sua privacidade, foi recebido ao som da canção que lhe garantiu a vitória em Kiev. Amar pelos dois, a canção interpretada por Salvador Sobral para cantar por Portugal inteiro.

E a gratidão à chegada do cantor era evidente em quem o aguardava, por entre cartazes, bandeiras e pinturas tricolores nas faces. “Ele cantou com a alma toda. Diz que não tem nada para dar [na letra da canção], mas tem muito para dar”, diz Paula Paliotes, de 49 anos. Ao seu lado, Maria Amorim erguia no ar dois cartazes de apoio a Salvador, enquanto contava ao PÚBLICO que chorou quando Portugal venceu. “Ele disse que não era um herói mas, para mim, é”, garante, mostrando-se feliz pela vitória, que considera ser a “concretização de um sonho”.

Uma vitória bem portuguesa

“Esta vitória dá outro desenlace à típica narrativa, é uma visão muito mais positiva e mostra que não é preciso cantar em inglês para se compreender a música”, explica Sofia Vieira Lopes, que é doutoranda em Ciências Musicais e estuda, precisamente, o Festival da Canção. “Muitas vezes pensa-se que a letra é o veículo fundamental para transmitir uma mensagem mas a música não é só a letra”, acrescenta.

Num festival dominado pela língua ânglica, Sofia Lopes afirma que a “diferença” é uma das palavras-chave da Eurovisão, ainda que tenha de estar aliada à qualidade; ademais, uma sonoridade diferente acaba sempre por ser cativante. Como parte do seu trabalho, Sofia entrevista alguns fãs da Eurovisão e reparou que algum do interesse em ver o festival advém, precisamente, da “peculiaridade” de ouvir músicas cantadas em outras línguas a que não têm facilmente acesso, já que o meio musical português está sobretudo marcado por músicas anglófonas.

“Quando a língua é bem trabalhada e quando é feito um encaixe com a música, como foi feito com muito cuidado pela Luísa Sobral, a língua portuguesa resulta tão bem como outra qualquer”, conclui Sofia.

Mais do que a língua, importa a mensagem – é o que pensam também os irmãos Sobral. “As pessoas na Europa inteira votaram na canção e não perceberam uma única palavra”, sintetiza o intérprete português. Luísa corrobora, afirmando que o importante é sentir verdadeiramente o que se canta para que a mensagem possa seguir o seu caminho até ao coração de quem a ouve.

“Quando percebi que era para representar o país, pensei que só fazia sentido ser uma canção em português”, recorda a compositora. Contudo, considera que não é preciso cantar-se sempre em português lá fora, ainda que também não seja peremptório cantar-se em inglês para que a mensagem seja percebida: “Eu que falo inglês fluentemente, não percebia o que é que eles estavam a dizer na maior parte das canções do festival”. “Nem eles próprios”, graceja Salvador. “Havia uma rapariga que cantava em inglês e não sabia falar inglês”, contextualiza a irmã.

Apesar do cansaço evidente, a conferência de imprensa foi guiada num tom informal e descontraído, marcada por vários momentos de humor. Salvador Sobral considerou que a organização da edição de 2018, em Lisboa, terá um impacto positivo na cidade, apesar dos custos — "peço desculpa à RTP", brincou. 

Concertos esgotados ou a caminho disso

Sem surpresa, a vitória no Festival da Eurovisão veio dar um novo fôlego à carreira de Salvador Sobral, com expressão imediata na digressão Excuse Me – título do seu álbum de estreia, lançado em Março do ano passado pela Valentim de Carvalho –, que começou já em Janeiro deste ano e tinha já datas agendadas até para além do Verão.

O PÚBLICO confirmou este domingo que já não há bilhetes para os concertos na Casa da Música, no Porto (5 de Julho), nem para o Convento de S. Francisco, em Coimbra (dia seguinte). E para o espectáculo no Centro Cultural de Belém (CCB), a 2 de Julho, já só há lugares a pé, na galeria. A venda está a correr também em bom ritmo para um dos concertos mais próximos – Ílhavo, a 10 de Junho –, e também para Odemira (14 de Julho), Setúbal (11 de Agosto), Arganil (14 de Julho), e igualmente para o regresso a Lisboa, no Teatro da Trindade (6 de Outubro).

Co-produzido pelo próprio Salvador Sobral com o pianista Júlio Resende e Leonardo Aldrey, Excuse Me cruza as influências do jazz, especialmente Chet Baker, com a bossa-nova e as sonoridades da América Latina. com Pedro Guerreiro e Sérgio C. Andrade