Opinião

Segunda oportunidade para a França, última para a Europa?

É preciso não esquecer o mais aterrador: Marine Le Pen tem o dobro dos votos do seu pai e 11 milhões de franceses que votaram por ela.

Por que venceu Emmanuel Macron as eleições francesas? Por uma intuição muito simples, mas muito arriscada: a de que era preciso opor a Marine Le Pen valores diametralmente opostos aos que ela representava. Isso, lamento, não estava feito nem era evidente.

Durante 15 anos, desde que Jean-Marie Le Pen passou à segunda volta das eleições presidenciais de 2002, a política francesa viveu dominada pelo fantasma da Frente Nacional. Dominada pelo medo e, portanto, paralisada. Todos tentaram contornar o problema de forma tática: ora tentando roubar o discurso à extrema-direita, ora tentando roubar-lhe os temas, ora as razões de queixa. De cada vez que o faziam, mais submetidos à dominação da extrema-direita ficavam.

Um exemplo claro é o de Sarkozy e os refugiados. Com medo de perder a eleição de 2012 — que perdeu na mesma —, Sarkozy bloqueou tanto quanto lhe foi possível um programa europeu de reinstalação para, naquela época, cem mil refugiados prioritários. Após a guerra na Síria o número de refugiados aumentou 15 vezes e quando foi preciso receber ordeiramente um milhão e meio de refugiados ninguém estava preparado. Quem ganhou com o caos e a impreparação? Marine Le Pen e a Frente Nacional.

O mesmo se poderia dizer, de outras formas, de todos os presidentes e de uma grande parte dos atores políticos franceses. Durante 15 anos, entre 2002 e 2017, nada de significativo mudou em França. O sistema político continuou tão desproporcional como antes, dando à FN uma possibilidade fácil de vitimização. A calamidade das relações sociais entre metrópoles e subúrbios, entre ricos e pobres, entre as autoridades e os jovens, entre xenófobos e imigrantes, continua a mesma calamidade que já era em França. A corrupção e falta de transparência agravaram o fosso entre cidadãos e governantes. O desemprego de massas assim permanece.

Sim, a Europa e a globalização permitiram cristalizar o discurso político em torno dos pólos ideológicos opostos que têm dominado a política nos últimos anos: nacionalismo versus cosmopolitismo. Mas entre a inadimplência de Chirac e a ineficácia de Hollande, a França teve 15 anos perdidos: e o problema francês já vem pelo menos de 2002, ou seja, desde antes da Guerra do Iraque (em que Chirac, bem, não se meteu), do Tratado de Lisboa e da crise financeira global. As raízes francesas do problema francês são mais fundas do que as europeias ou globais e não foram ainda tratadas.

A vitória de Macron, sem frente republicana, face ao taticismo e sectarismo de alguns — que, aliás, só se aperceberão do seu erro moral quando ele se transformar em erro tático nas legislativas —, e com números avassaladores tendo em conta as circunstâncias, tem dois momentos reveladores. O primeiro é a sua assunção das bandeiras da União Europeia — em sentido literal. Quando Macron pede aos seus apoiantes para trazerem bandeiras da UE para os comícios, ele não está só a apelar a uma demonstração de europeísmo: está, acima de tudo, a apelar a uma rejeição do assédio cultural com que a extrema-direita francesa tinha conseguido fazer a política francesa envergonhar-se mesmo do mais tímido dos europeísmos. O segundo momento foi quando, ao contrário de Chirac, Macron decidiu debater com Marine Le Pen, acabando a hipocrisia que fazia com que a extrema-direita dominasse a vida política francesa sem que a política francesa a confrontasse olhos nos olhos. Macron aceitou colocar-se projeto-contra-projeto face a Le Pen. Foi feio, foi agressivo, foi brutal, mas foi eficaz: finalmente alguém disse umas verdades à extrema-direita eurofóbica.

Dito tudo isto, é preciso não esquecer o mais aterrador. Marine Le Pen tem o dobro dos votos do seu pai e 11 milhões de franceses que votaram por ela. Se nos próximos cinco anos nada mudar, a extrema-direita voltará mais forte. A França política teve aqui uma segunda oportunidade que não fez muito por merecer. E a União Europeia? Será esta a sua última oportunidade? Esse será o tema da próxima crónica.