Ovelhinhas cá dentro, lobos maus lá fora

Desde que Bloco e PCP continuem inofensivos em Portugal, é deixá-los ser belicosos e infestos em França e na Venezuela.

Acho comovente que tanta gente de esquerda se espante com o posicionamento do Bloco e do PCP nestas presidenciais francesas, por se recusarem a apoiar, à imagem de Jean-Luc Mélenchon, Emmanuel Macron contra Marine Le Pen — “o escroque contra a fascista”, para recuperar um título recente de Francisco Louçã, inspirado nas eleições de 2002 entre Chirac e Jean-Marie Le Pen. Muito francamente, espanta-me esse espanto, que só se justifica pelo facto de a esquerda moderada não querer realmente acreditar naquilo que a esquerda radical anda a dizer e a escrever há muitos anos. E dá-se este paradoxo: a direita combate a extrema-esquerda porque leva a sério aquilo ela diz; a esquerda alia-se à extrema-esquerda porque acha que aquilo que ela diz não é para levar a sério.

Quem tem razão? Bom, de um modo geral, a minha tendência é para acreditar que as pessoas e os partidos querem dizer aquilo que dizem. Mas a verdade é que António Costa anda há um ano e meio a demonstrar o quão errado estou nesta minha assunção. O sucesso que o PS está a ter na gestão das suas relações com Bloco e PCP prova que é bem possível que seja a esquerda moderada que tem a intuição certa, e que os radicais, afinal, sejam apenas “radicais” quando chegam ao poder. Assim sendo, para quê ter de engolir o sapo Macron contra Le Pen, se eles já têm diariamente de engolir o sapo Costa? A França fica lá longe, e Bloco e PCP estão dispensados de pragmatismos. Mais vale vitaminar as bases que ainda acreditam na “esquerda revolucionária” e na “rede anticapitalista” (como o Bloco), e que acham que o bonito estilo de vida de Pyongyang está sob ameaça do imperialismo yankee (como o PCP).

Ou seja, o que se passa é isto: quanto mais ovelhinha a extrema-esquerda é cá dentro, mais comunistas e bloquistas sentem necessidade de se armarem em lobos maus lá fora. No palco internacional, eles sentem-se livres para rosnar muito e mostrar os dentes, na medida em que estão dispensados da necessidade prática de morder. Ao colocar o “neoliberalismo” de Macron apenas um ou dois degraus abaixo do “fascismo” de Le Pen, a extrema-esquerda aproveita para justificar o seu posicionamento interno e a necessidade de continuar a apoiar um governo socialista que segundo ela nunca faz nada impecavelmente, porque fica sempre aquém daquilo que a verdadeira esquerda ambiciona para o país, mas que é muito melhor do que o “neoliberal” Pedro Passos Coelho, destruidor de todas as conquistas de Abril.

França é no estrangeiro, e quando se trata de comentar o estrangeiro o Bloco é capaz de chamar ao terrorismo da ETA um “conflito armado” e o PCP, herdeiro da bonita tradição soviética, é capaz dos mais obscenos posicionamentos em relação a qualquer país que ostente uma estrela vermelha na bandeira. No caso da Venezuela, uma estrela branca chega. Eis a forma como o Avante! descreve o que se está a passar em Caracas: “O povo da Venezuela tem-se manifestado pela soberania e o progresso protagonizados pelo processo bolivariano, pela democracia e a paz que o governo defende face à violência opositora.” O Partido Comunista Português na sua versão internacional é um susto, e para quem leva isto a sério, como eu fazia até há um ano, é um susto de fugir. Mas como, entretanto, António Costa demonstrou ser só garganta, já podemos dormir mais descansados. Desde que Bloco e PCP continuem inofensivos em Portugal, é deixá-los ser belicosos e infestos em França e na Venezuela.