Portugal ensaia altos voos nos Açores

Reunião de alto nível para lançar a criação do Centro Internacional de Investigação do Atlântico arrancou esta quinta-feira na ilha Terceira, com declarações de apoio de vários países. Porém, ainda há muita coisa que falta definir.

Açores
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Açores Nuno Ferreira santos

A Comissão Europeia aplaude o projecto para a criação do Centro Internacional de Investigação nos Açores, a Agência Espacial Europeia também e os representantes da China, da Índia, dos EUA, do Brasil e da África do Sul manifestaram o seu entusiasmo com o plano do Governo português de explorar o Atlântico, “atacando-o” com uma cooperação internacional nas áreas do espaço, clima, oceanos e energias renováveis. Após nove meses de conversações nasceu a nova fase de “diálogo aberto” para a criação do AIR Center (Atlantic International Research Center). No arranque da cimeira com delegações de 29 países e mais de 200 participantes, na ilha Terceira, falou-se também da base espacial para lançamento de pequenos satélites, que poderá ficar na ilha de Santa Maria. E, curiosamente, com algumas reservas.

“Chegámos à fase do diálogo aberto sobre o AIR Center, que será o vosso projecto”, referiu Manuel Heitor, ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, perante uma plateia de possíveis parceiros e investidores na sessão de abertura da reunião de alto nível. Segundo adiantou, até ao final do ano deverá estar definida a agenda deste ambicioso plano, com a apresentação dos parceiros, organização e financiamento. Até lá, vai ser preciso “seduzir” todos os possíveis interessados a integrar e apoiar esta organização internacional. E, a julgar pelas intervenções feitas esta quinta-feira, a tarefa não parece impossível. Pelo menos, no que se refere à ampla rede colaborativa de investigação (ver texto ao lado) que se propõe criar nos Açores. Vários dos intervenientes na sessão de abertura desta cimeira não só aplaudiram o projecto como apresentaram várias propostas de colaboração.

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Porém, o projecto de criação de uma base espacial de lançamentos de pequenos satélites nos Açores não parece ter sido acolhida com o mesmo entusiasmo. Nomeadamente, pelo director-geral da Agência Espacial Europeia (ESA), Johann-Dietrich Wörner, que, apesar de manifestar um apoio claro no projecto de investigação internacional e colaborativo no tratamento e recolha de dados em terra e no espaço a partir dos Açores, hesitou quando foi questionado sobre a importância da criação de um porto espacial no arquipélago. “Isso já é outra história. Actualmente, existem muitas empresas privadas com diferentes actividades ligadas ao espaço e aos lançamentos de pequenos satélites. Há uma actividade global que respeitamos e Portugal tem de olhar para isso”, disse aos jornalistas, no final da sessão de abertura. O director-geral da ESA frisou ainda que a ESA já está nos Açores com a estação de rastreio de satélites (na ilha de Santa Maria) e que em breve deverá levar para o arquipélago a antena de 15 metros que estava em Perth, na Austrália, e que foram obrigados a desligar por “restrições de frequências”, e que pode ser usada em futuras missões para controlo e monitorização de outros satélites. E pareceu pouco interessado em apoiar planos que vão muito mais longe do que isso.

Hélene Huby, directora de Divisão da Inovação Aeroespacial da Airbus, revelou, porém, que foi realizado um estudo que aponta para os Açores como um dos locais no top dos melhores sítios para instalar uma base espacial para lançamento de pequenos satélites. Mas alertou que é preciso assegurar que esta infra-estrutura tenha um baixo custo, garantindo a sua utilização e rentabilidade. “Como podemos garantir que este porto espacial vai ser usado?”, perguntou. E deu algumas pistas: é preciso, por exemplo, garantir que tem infra-estruturas que podem ser partilhadas para vários fins e que oferece tecnologias inovadoras.

O arquipélago tem um posicionamento geográfico muitíssimo vantajoso para uma base espacial, sobretudo para satélites polares de baixa órbita (entre 400 e 600 quilómetros) e para lançar pequenas cargas (até 300 quilos) para o espaço. Os satélites de órbita polar circundam a Terra de norte a sul e são preferencialmente usados para a observação da Terra (os satélites equatoriais, que andam de leste para oeste, são mais usados para telecomunicações).

O que diz a indústria aeroespacial portuguesa?

A privilegiada posição dos Açores é um dos maiores trunfos do Air Center e, especificamente, do projecto de uma base espacial que poderá vir a ser criada na ilha de Santa Maria. Mas estar no lugar certo é suficiente? Os representantes da indústria aeroespacial ouvidos pelo PÚBLICO confirmam a vantagem geográfica do arquipélago, mas também concordam que isso não chega.

“É um local especial, estrategicamente posicionado entre o mercado europeu e norte-americano, o que fará deste porto espacial um lugar apetecível quando comparado com os que existem actualmente”, antevê Paulo Guedes, da Critical Software, empresa de Coimbra que tem colaborado com várias missões espaciais no desenvolvimento de programas informáticos de satélites. “A criação desta base poderá permitir suportar o previsto aumento de mercado dos satélites e dos lançadores”, defende. Ou seja, mais oportunidades de negócio.

Nuno Ávila Martins, da empresa portuguesa de engenharia aeroespacial Deimos, também fala no mesmo cenário de crescimento “do mercado de observação da Terra com pequenos satélites”. “Sabemos que vai crescer de forma acentuada nos próximos anos, as empresas estimam um crescimento de mais de 10% ao ano neste sector. Estamos a falar de 300 ou 400 satélites a serem lançados todos os anos, nos próximos anos”, diz.

E é aqui que, para Nuno Ávila Martins, está o cerne da questão. “Não chega termos uma posição geográfica privilegiada e criar infra-estruturas. Temos de escolher um nicho de mercado. Saber bem em que vamos apostar”, diz, considerando que o “melhor negócio” se fará se centrarmos o projecto “em lançadores [foguetões] pequenos, com satélites pequenos, com cargas pequenas”. Essa, aliás, parece ser a intenção do Governo português se tivermos em conta as declarações esta semana, em Lisboa, do ministro da Ciência.

Sobre a eventual escolha de Santa Maria para instalar uma base espacial (sobretudo quando o futuro da base das Lajes, na Terceira, está em aberto), o responsável da Deimos também parece estar de acordo. “Os estudos apontam para Santa Maria como local preferencial: tem menor densidade populacional, é mais austral e, por isso, melhores condições meteorológicas, maior estabilidade do ponto de vista sismológico, e tem algumas infra-estruturas já instaladas como as estações de telemetria e telecomando que servem para rastreamento de satélites”, enumera.

Tem “só” cerca de cinco mil habitantes, mas esse lado não deve ser desprezado, alerta. “Um projecto como este altera o tecido socioeconómico da ilha. Cria oportunidades de emprego e desenvolvimento, mas também tem um impacto no modo de vida e no ambiente. Temos de acautelar um equilíbrio”, defende, reforçando que “o dimensionamento do tipo de lançadores deverá ser compatível com o que existe na ilha”.

Nuno Ávila Martins, director da empresa que preside a Proespaço – Associação Portuguesa das Indústrias do Espaço, acredita no projecto do Air Center e da criação da base espacial. E, assumindo que o interesse manifestado é genuíno, agora só parece mesmo estar a faltar a essencial peça do costume: o dinheiro. Para isso, defende, é preciso “ter planos de negócio capazes de sustentar a viabilidade do projecto” e parceiros a bordo desta ambiciosa viagem. “Temos a oportunidade de vir a ser o porto espacial europeu, a partir da Europa, o único”, nota.

Ainda com o Air Center a ser discutido, a Deimos já tem vários planos de acção com destino aos Açores. “Estamos a desenhar um projecto para fazer lançadores a partir de Santa Maria. Isto já está no nosso radar”, avança. E este é só um exemplo. Há mais para fazer nas outras áreas do centro de investigação internacional, nomeadamente, no que se refere ao fornecimento e tratamento dos muitos dados que existem hoje da observação da Terra.

Ricardo Patrício, director da empresa Active Space Tecnologies, é mais cauteloso quando se fala num possível futuro de sucesso deste projecto. Diz que temos de saber onde nos vamos meter, se o queremos fazer e se estamos preparados. “A indústria dos satélites de pequeno porte é muito nova e a indústria nacional ainda não está muito vocacionada para isto. Temos de ter a garantia de que há uma política espacial, um alinhamento estratégico que permita que a indústria nacional o aproveite da melhor maneira.” É que, argumenta, “hoje dedicamos o nosso orçamento a muitos programas, uma coisinha aqui outra ali, e este projecto não pode ser mais uma coisinha onde Portugal participa”. “É um projecto muito complicado de montar. Tenho alguma expectativa em relação a estes dias de conversas nos Açores. Aqui estarão muitos agentes importantes que têm uma palavra a dizer sobre o futuro e sucesso do projecto.” 

Nestes projectos espaciais, mais do que estar no lugar certo, é preciso estar à hora certa. A bordo do foguetão que parece estar a ser lançado com destino ao AIR Center nos Açores têm de estar os parceiros certos.

O PÚBLICO viajou a convite do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior

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