Opinião

A ignorância mata

É verdade que a ignorância e a estupidez não pagam imposto, mas neste caso das vacinas talvez devessem. Saem demasiado caras à sociedade.

Não recorrer às vacinas é um risco mortal. É um risco mortal para quem as não toma e para todos os que se relacionam com essa pessoa.

As vacinas são uma conquista civilizacional tremenda que não pode ser posta em causa porque meia-dúzia de energúmenos decide acreditar em patacoadas sem fundamento. Qualquer tolerância nesse sentido é uma tremenda regressão dos valores que nos trouxeram até aqui e que se baseiam no método científico e no conhecimento adquirido.

Sim, há reações alérgicas a vacinas. Sim, até há (muito poucas) pessoas que morrem por causa das vacinas que tomam. Mas há muitas mais que morrem por não as tomarem. O benefício social de todos se vacinarem é real, impedindo a propagação de doenças e reduzindo o número de mortes evitáveis de forma drástica. 

Mas não, as vacinas não provocam autismo. E não, não é melhor não vacinar e esperar que as crianças não fiquem doentes. Não há qualquer argumento científico válido que justifique um pai ou uma mãe decida que os seus filhos não devem ser vacinados. E também não há um argumento ideológico relevante: se um adulto não se quer vacinar contra a febre amarela antes de viajar para algum destino exótico, não precisa de o fazer. Mas uma criança não tem poder nem capacidade de decisão, e os pais não podem decidir contra os interesses da criança em questões de saúde. A sociedade – e a criança – precisam das vacinas.

Tem de ser o Estado a legislar para impedir a propagação de comportamentos que põem em risco a nossa existência conjunta. Seria preferível que assim não fosse, mas é impossível garantir a segurança dos membros da sociedade sem este exercício de autoridade. Tal como a autoridade policial impede que se conduza desrespeitando os sinais vermelhos, terá de ser legalmente obrigatório que as crianças tenham a vacinação em dia – forçando mesmo a que as crianças possam ser vacinadas contra a vontade dos pais. O controlo terá de ser feito pelas escolas e demais atividades que recebem crianças, que serão a primeira barreira neste controlo necessário. E bem se podem queixar os libertários, anarquistas e demais aguerridos defensores dos direitos individuais: a liberdade é um direito que se exerce, que vem acompanhado de deveres sociais.

É verdade que a ignorância e a estupidez não pagam imposto, mas neste caso talvez devessem. Saem demasiado caras à sociedade.