Subida de Mélenchon transforma presidenciais francesas em corrida a quarto

Sondagens dão três pontos de diferença entre Macron, Le Pen, Mélenchon e Fillon: impossível prever quem passa à segunda volta.

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Nunca houve um número tão grande de indecisos em presidenciais francesas, diz o instituto Odoxa Eric Gaillard/Reuters

É uma situação inédita na política francesa: segundo a última sondagem para as presidenciais dentro de dez dias, a diferença entre os quatro primeiros candidatos é de apenas três pontos percentuais. O que quer dizer que tendo em conta a margem de erro, é impossível prever quem vai passar à segunda volta.

O inquérito do instituto Ipsos-Sopra Steria para o diário Le Monde dá o candidato centrista Emmanuel Macron e a candidata da extrema-direita Marine Le Pen com 22% (e em queda de 2 pontos percentuais em relação à sondagem anterior), com Jean-Luc Mélenchon (esquerda) em terceiro (20%, a subir 1,5%) e de seguida o conservador François Fillon (19%, a subir 1%). O socialista Benoît Hamon (com apenas 7,5%), não passará à segunda-volta.

Numa segunda volta, a 7 de Maio, Macron venceria todos os potenciais rivais: com 63% face a Le Pen, 64% face a Fillon e 55% contra Mélenchon. 

Já o candidato da esquerda venceria com 60% quer Le Pen quer Fillon, e Fillon venceria Le Pen com 56%.

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Mélenchon, 65 anos, tem-se focado no descontentamento dos franceses com os partidos do centro-direita e centro-esquerda, num país estagnado economicamente e sem criação de emprego.

Promete impostos altos para os ricos e renegociar o papel da França na UE e nos acordos de comércio, algo que provoca, tal como Le Pen, medo de que levem a França a sair da União Europeia.

O candidato falou, no seu blogue, do nervosismo que provocou a sua subida nas sondagens. Mostrando imagens de títulos do jornal conservador Le Figaro, que fala da “plataforma delirante de Chávez” (Mélenchon já declarou a sua admiração pelo antigo líder da Venezuela) e do diário económico Les Echos que apresenta a subida do candidato de esquerda como “o novo risco francês”, Mélenchon reagiu: “Mais uma vez, estão a anunciar que a minha vitória eleitoral vai provocar um Inverno nuclear, uma praga de sapos, tanques do Exército Vermelho e uma aterragem de venezuelanos”, disse no seu blogue.

Já não é a primeira vez que Mélenchon parece estar em posição de superar Le Pen: em 2012, tinha 17% das intenções de voto duas semanas antes da data da primeira volta das presidenciais. Mas acabou com 11,1%, atrás de Le Pen e dos candidatos que passaram à segunda volta, François Hollande e Nicolas Sarkozy. 

"Incerteza recorde"

Outra sondagem parece confirmar a situação excepcional destas eleições: 32% dos franceses estão ainda indecisos entre vários candidatos – uma “incerteza recorde” segundo o instituto Odoxa, que fez o inquérito para a FranceInfo. O maior número de indecisos está entre os simpatizantes do Partido Socialista (43% não escolheram ainda) e o mais decididos são os simpatizantes da Frente Nacional (93% já decidiram votar Le Pen).

Inquirida sobre o resultado destas sondagens, Marine Le Pen disse que “não há certeza de nada” na corrida eleitoral e que seria “muito importante” para si passar à segunda volta, como vinha a ser previsto por todas as sondagens até agora. Mais, a ascendência de Le Pen era tida em geral como a única certeza desta campanha.

A presidente da Frente Nacional está a ser prejudicada, dizem alguns analistas, por uma investigação judicial ao potencial uso indevido de fundos europeus (e juízes franceses acabaram de pedir o levantamento da sua imunidade como eurodeputada).

Além disso, provocou uma polémica no fim-de-semana passado ao desvalorizar o papel de França numa acção de prisão de judeus que ficou conhecida como a razia do Velódromo de Inverno, em 1942, dizendo que “a França não foi responsável”, mas sim os dirigentes da altura.

Já dois Presidentes franceses – Jacques Chirac, em 1995, e François Hollande, em 2012 – assumiram a culpa francesa no episódio em que a polícia prendeu perto de 13 mil judeus e os enviou para campos de concentração nazis, onde a maioria acabou por morrer.

Foi algo fora do comum para Marine Le Pen, que apesar de ser de extrema-direita tem cortejado os votos dos judeus. Esta sua posição era, pelo seu lado, um desvio da linha do seu pai e fundador do partido Jean-Marie Le Pen, que foi já condenado por negar o Holocausto.