Fernando Campos, romancista histórico, “melhor entre melhores”

O autor do romance histórico A Casa do Pó, best-seller no final dos anos 1980, morreu no sábado em Lisboa, mas só nesta segunda-feira é que a notícia foi divulgada pela família.

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Fernando Campos fotografado em 2004 Luís Ramos

O escritor Fernando Campos (1924-2017), que morreu no sábado em Lisboa aos 92 anos — a sua família só nesta segunda-feira o anunciou à agência Lusa —, chegou um dia, na escola onde leccionava, a uma aula de Latim e os seus alunos tinham todos o seu romance A Casa do Pó (Prémio Literário Município de Lisboa) em cima das mesas. Uma das alunas comentou para o professor: “Com que então, tão caladinho...”

Este episódio foi contado pelo próprio escritor, em 1990, a José Jorge Letria, que o entrevistou para o JL — Jornal de Letras Artes e Ideias. Tratava-se do seu primeiro romance, publicado pela Difel em 1986, quando o escritor, que nasceu na Maia em 1924 e era filho do pintor Alberto da Silva Campos, tinha 61 anos. Um romance cuja trama decorre no século XVI e conta a história das peregrinações de Frei Pantaleão de Aveiro (autor do Itinerário da Terra Santa, publicado em 1593, um clássico de literatura de viagens).

A Casa do Pó, resultado de dez anos de pesquisas exaustivas, foi um best-seller no final dos anos 1980 e levou a que o pacato professor do ensino secundário, licenciado em Filologia Clássica pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, passasse a ser reconhecido na rua e abordado pelos seus inúmeros leitores, que também lhe escreviam muitas cartas. “Na altura em que se soube que eu era o escritor de A Casa do Pó, senti que os colegas até tinham mais gosto em falar comigo. Era como se estivessem a partilhar o meu triunfo”, afirmava em 1990 ao JL

O original de A Casa do Pó chegou à editora Maria da Piedade Ferreira pelo correio. “Eu nunca tinha ouvido falar do autor. Lembro-me de que enviou um exemplar pelo correio, era enorme, dactilografado, tinha mais de mil páginas”, recorda ao PÚBLICO numa conversa telefónica. 

“Levei-o para casa, lembro-me de que me fez companhia durante uma série de serões. Tinha as folhas do manuscrito ao lado da cama, onde ia lendo, e depois decidi-me a publicar. Entretanto conheci-o e aceitou que se fizessem cortes, porque o livro era muito grande e havia coisas que podiam ser cortadas sem prejuízo da obra. Mesmo assim ainda ficou bastante grande e foi um enorme sucesso”, conta a editora de António Lobo Antunes no grupo Leya e que em 1986 estava na Difel.

Maria da Piedade lembra-se de que na altura saiu no Expresso uma dupla página com uma crítica de Clara Ferreira Alves. Era muito entusiástica e também terá contribuído para o enorme êxito de vendas que foi aquele livro. “Desde que saiu e até ao final desse ano, e foram poucos meses, A Casa do Pó vendeu 30 mil exemplares, o que era enorme”, acrescenta a editora. E o que se dizia nessa crítica do Expresso: “A Casa do Pó é um romance sem padrinhos. Fernando Campos, o seu autor, é um homem que durante dez anos persistiu na demanda do enigma de Frei Pantaleão, franciscano no Itinerário da Terra Santa. O enigma resistiu à investigação, mas a ficção portuguesa ganhou um romance extraordinário, melhor entre os melhores.”

Ao longo de todos estes anos, o romance teve sucessivas edições e foi publicado também pela Alfaguara, editora que além de ter republicado toda a obra do autor, publicou o seu último livro, Ravengar, em 2012. Fernando Campos é também autor de A Esmeralda Partida (sobre a figura de D. João II), que lhe valeu o Prémio Eça de Queiroz, O Homem da Máquina de Escrever, Psiché, A Sala das Perguntas (sobre Damião de Góis), do livro de contos Viagem ao Ponto de Fuga, e ainda de A Ponte dos Suspiros (sobre D. Sebastião), O Prisioneiro da Torre Velha (sobre D. Francisco Manuel de Melo), O Cavaleiro da Águia (sobre D. Gonçalo Mendes da Maia, “o Lidador”), O Lago Azul (sobre os descendentes de António de Portugal, Prior do Crato) e  A Rocha Branca (sobre a grega Safo).

Maria da Piedade Ferreira saiu da Difel no final de 1986 para criar a Quetzal e por isso já não foi ela a publicar as outras obras de Fernando Campos. Agora, à distância, considera que o romance resultou porque “era o começo do boom do romance histórico, era um tema português, passava-se em Portugal, era bem escrito. Foi esse conjunto de factos que fez vender o livro, fundamentalmente a moda que estava a começar dos romances históricos, e não havia muita coisa passada em Portugal”.

Fernando Campos costumava dizer que não escrevia para ser mediático. Escrevia por prazer. Achava que escrever era uma extensão da sua profissão de professor. Numa entrevista que deu a Manuela Barreto, publicada no Mil Folhas em 2004, confessava que achava que a língua portuguesa era muito maltratada e acusava os portugueses de serem derrotistas de si mesmos. Em 2000, quando lançou A Ponte dos Suspiros, a crítica literária do Expresso Luísa Mellid-Franco elogiava a sua “escrita primorosa”, considerando-a “sempre um prazer para os olhos e para o espírito. A palavra certa no sítio certo”. Também pintava. Era dele, por exemplo, a capa da primeira edição O Pesadelo de dEus, outro dos seus livros que saíram na Difel.

Sobre o romance histórico, em que se notabilizou, Fernando Campos afirmava que era difícil de fazer: havia muitas leituras a fazer, era preciso investigação se se queria ser rigoroso. Mas defendia que o escritor podia ridicularizar tudo, destruir tudo ou até construir. A sua concepção de romance histórico estava definida numa frase dessa entrevista ao Mil Folhas: “Eu sou assim: o que é histórico é histórico, o que a História não pode contar conto eu.”