Populistas mostram-se menos antieuropeus

Os políticos contra a União Europeia ou o euro estão a limitar a sua retórica em ano de teste para a ideia europeia em várias eleições no bloco.

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Os líderes dos partidos antieuropeus: Gerrt Wilders (Holanda) LUSA/ROBIN VAN LONKHUIJSEN
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Beppe Grillo (Itália) Reuters/REMO CASILLI
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Frauke Petry (Alemanha) Reuters/WOLFGANG RATTAY
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Marine Le Pen (França) Reuters/MAXIM SHEMETOV

Cada vez mais tempo de antena contra a imigração, cada vez menos contra a União Europeia ou a moeda única. O discurso dos mais proeminentes populistas antieuropeus está a deixar de lado esta ideia e a frequência de críticas às instituições da União Europeia está a diminuir.

Na altura em que se comemoram os 60 anos do Tratado de Roma, muito se tem falado sobre a ameaça dos partidos antieuropeus, especialmente na sequência do "Brexit", à União Europeia, em ano de eleições cruciais em França (23 de Abril e 7 de Maio) e Alemanha (24 de Setembro).

Mas o que parece estar a acontecer é que o referendo para a saída do Reino Unido do bloco aumentou o sentimento de pertença à Europa noutros países, fazendo crescer o apoio à União, e não se transformando num catalisador de um efeito dominó para mais saídas.

A retórica dos partidos populistas anti-europeus que disputam eleições neste ano tem dado a entender que perceberam este sinal, adaptando a sua mensagem em conformidade.

No caso da Holanda, Geert Wilders, o xenófobo de extrema-direita que com apenas 13% dos votos ficou em segundo lugar na votação de 15 de Março, pedia a saída da Holanda da União Europeia no seu programa eleitoral, mas em discursos e debates focou-se sempre noutro ponto: o que vê como a ameaça de islamização da sociedade holandesa (apenas de o país ter apenas cerca de 5% de muçulmanos).

Bons resultados para políticos pró-UE

E se Wilders conseguiu fazer com que políticos como o primeiro-ministro, Mark Rutte, adoptassem alguma da sua estratégia em relação aos imigrantes, esta mudança de discurso não aconteceu em relação à ligação à União Europeia. E partidos que assentaram parte da sua campanha nesta ligação, como o D66 ou a Esquerda Verde, tiveram bons resultados – o liberal D66 um deputado a menos do que Wilders, a Esquerda Verde passou de quatro para 14 deputados.

Em França, Marine Le Pen parece estar a fazer uma inversão semelhante: um artigo no site Politico notava que a seis semanas das presidenciais, Le Pen fala cada vez menos do tema do euro: num debate na segunda-feira, apenas se referiu à questão uma vez.

A mudança não é reflectida, no entanto, na política oficial da Frente Nacional, que mantém a saída do euro no programa. Mas parece uma cedência ao aumento de popularidade da ideia europeia.

Julie Gaillot, do instituto de sondagens francês CSA, nota que “a seguir às eleições na Áustria [em que venceu um ecologista pró-europeu contra a extrema-direita anti-UE] e da Holanda, vemos que o eurocepticismo atingiu mais ou menos o seu pico e está agora a estagnar ou mesmo declinar”. 

Referendo não é prioridade em Itália

Em Berlim, o partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD) já fez a sua grande reviravolta desde que foi criado, em 2013, como um partido antieuro (ou anti-resgates aos países em dificuldades – chegou a defender as duas hipóteses), mas a vertente anti-islão e anti-imigração (da actual líder Frauke Petry) ganhou sobre a defendida pelo economista Bernd Lucke, que acabou por sair. A política de refugiados de Angela Merkel só cimentou esta via do partido. Espera-se que a AfD entre no Parlamento pela primeira vez após as eleições de Setembro, mas está a descer nas sondagens.

Quanto a Itália, o partido 5 Estrelas, o mais popular no país e que poderá mesmo vencer as eleições que deverão realizar-se no próximo ano, afirmou na quinta-feira que a sua principal prioridade não é um referendo ao euro – uma consulta que vinha a defender com empenho.

O vice-presidente da Câmara dos Deputados Luigi Di Maio, o jovem de 30 anos que se espera ser o candidato a primeiro-ministro (o fundador do partido Beppe Grillo já se referiu a Di Maio como o líder), afirmou ainda que a prioridade do partido é a pobreza em Itália, com medidas para os cerca de 9 milhões de pobres do país.

Referendo, sim, garantiu, mas só depois de ser feita uma revisão constitucional para o permitir, um processo que, a acontecer, seria enormemente complexo e demorado (e que muitos desconfiam ser simplesmente impossível). “Entretanto esperamos que as instituições europeias ganhem sensatez.”

Mais, Di Maio disse que o 5 Estrelas não seria necessariamente a favor da saída do euro, queria apenas que fosse dada a hipótese aos italianos para responder à questão. Trata-se, no mínimo, um desacelerar na tónica dada à hipótese de saída.

Talvez a ideia de um ano eleitoral em que o futuro da União Europeia e do euro estava directamente em causa possa ter sido levemente exagerada.