Opinião

A desconfiança dos pobres

“O Donald não é conhecido pela filantropia. É conhecido por outras coisas”, resumiu Bill Gates.

No dia em que David Rockefeller morreu, googlei a combinação “donald trump and philanthropy” e o resultado não surpreendeu. Até no rebanho dos mecenas Trump é a ovelha negra.

O contraste não podia ser mais explícito. David Rockefeller, que morreu na segunda-feira aos 101 anos, deu muitos milhões da sua fortuna de forma discreta e altruísta. Trump, que tem 4,4 mil milhões, gaba-se de ser um grande filantropo, mas na verdade “devolveu” muito pouco.

Como em tudo o resto, Trump contraria o melhor da América.

A tradição americana de “give back” é tão antiga quanto o próprio país. Desde John Jacob Astor (1763-1848), o primeiro multimilionário dos EUA, a Andrew Carnegie (1835-1919), um dos americanos mais ricos de sempre, passando por George Peabody (1795-1869), o investidor de Baltimore a quem se atribui a invenção da filantropia moderna, chegando a Bill Gates, que oferece mil milhões de dólares por ano para causas de interesse público, os super-ricos americanos seguem a máxima do senhor Carnegie: “Aquele que morre rico, morre em desgraça.”

Em Why Philanthropy Matters (Princeton University Press, 2013), Zoltan J. Acs defende que a filantropia é um “processo de reciclagem” e uma força de progresso do capitalismo americano, “o ingrediente” secreto da América. O professor estabelece uma relação directa entre empreendedorismo e filantropia, e nota que os filantropos são quase sempre empresários e tendem, por isso, a valorizar instituições que promovem a actividade empresarial, ou seja, que reconhecem o esforço do trabalho, a ambição e a inovação. Muitos usam até a linguagem dos negócios e falam em “filantropia de risco”. Vêem as suas doações como investimentos e esperam resultados – em forma de estudantes, cidadãos mais cultos e informados, inovação ou curas de doenças.

Nesta bela tradição, os milionários – sobretudo os que não herdaram fortunas, mas que as construíram – fundaram escolas, universidades, bibliotecas e museus, criando novos ciclos de riqueza. O Museu de Arte Moderna e a Biblioteca Pública de Nova Iorque, a Universidade de Chicago, a John Hopkins ou a Brookings Institution foram criadas por mecenas, para não falar da vacina da febre-amarela ou do desenvolvimento da penicilina, entre tantos outros bens públicos que hoje não imaginamos não serem “nossos”.

Mesmo assim, desconfiamos dos filantropos. Na Europa, como nos EUA. Diz Acs: “Os grandes mecenas não são universalmente compreendidos nem admirados. Basta pensar como algumas pessoas não gostam de Bill Gates, do mesmo modo que não gostavam de Andrew Carnegie e de John Rockefeller. O dinheiro deles é sujo!”.

Não vale a pena disfarçar. Quem já não disse isto sobre alguém deste grupo do 1% do 1%? O que vale é que a desconfiança dos pobres (os 99%) aplica-se aos milionários vivos. Não aos mortos. Historicamente, são precisos 50 anos para nós, os pobres, nos reconciliarmos com os filantropos. Mas é isso que acaba por acontecer.

Sobre Trump? “O Donald não é conhecido pela filantropia. É conhecido por outras coisas”, disse Bill Gates há uns meses. Entre 2008 e 2016, Trump fez uma única doação a título individual: dez mil dólares para a Liga Atlética da Polícia de Nova Iorque. Antes disso, fez doações de peso, sobretudo para a Fundação Trump. E o que faz essa fundação? Uma “das causas mais consistentes” que apoiou foi… o próprio Donald Trump, concluiu este Verão uma investigação do Washington Post. Um exemplo: a maior doação de sempre da Fundação Trump foi de 265 mil dólares – para restaurar uma fonte na praça em frente ao Plaza Hotel. Propriedade de Trump.