Editorial

O processo Sócrates num mundo imperfeito

No mundo perfeito, o inquérito estaria acabado. Mas o mundo das suspeitas de corrupção só é perfeito nos mecanismos com que se protege.

O novo adiamento do despacho final do processo que envolve José Sócrates não é uma boa notícia para a Justiça. Mas está também longe de ser uma notícia capaz de afectar a sua aura de credibilidade. No mundo perfeito, a vasta equipa de procuradores e de inspectores tributários teria já chegado há muito a uma conclusão. Mas o mundo onde subsistem suspeitas de crimes de corrupção ou de branqueamento de capitais só é perfeito nos labirintos que criou para subsistir. Resumir o caso da Operação Marquês a um programa de variedades com hora marcada para começar e para acabar é não reconhecer o árduo caminho que o Ministério Público teve de fazer nos últimos 44 meses.

É aceitável que os mais duvidosos critiquem o ziguezague feito pela investigação, do Grupo Lena ao Vale do Lobo, passando pela OPA da Sonae sobre a PT. Mas é ainda mais legítimo notar que a investigação fez um notável percurso de persistência e de perseverança. Nunca encalhou. Não baixou os braços. Foi sabendo encontrar novos nexos de causalidade. Essa capacidade merece aplauso, porque a alternativa era abdicar e desistir. Pelo que podemos saber, não foram deixadas pistas em aberto nem suspeitas por indagar. Fazer mais de 260 buscas, ouvir 170 testemunhas, analisar 2600 escutas, gerir 91 volumes de informação e 452 apensos e verificar 13,5 milhões de ficheiros informáticos é uma tarefa ciclópica que se torna ainda maior quando há nove cartas rogatórias enviadas para vários países, algumas das quais ainda estão sem resposta.

Ainda é cedo para podermos dizer que este caso é um monumento à genialidade da Justiça, como é extemporâneo afirmar que, pelo contrário, é a prova acabada da sua megalomania ou incompetência. Para já, sabemos é que o inquérito está a ser feito com determinação. Quando chegar o despacho final, poderemos então saber se essa atitude bastou, se houve razão para tanta espera. E só depois de um eventual julgamento haverá causa para afirmarmos que a investigação foi excelente, deplorável ou medíocre. Para já, é tempo de dar benefício à dúvida. Quem esperou tanto tempo pela verdade pode esperar mais alguns meses.