Crítica

Portugal troika: uma violenta fábrica de histórias

Um filme de género, transgénero mesmo, atravessado pelo noir e pelo melodrama, como se Portugal nos anos da troika tivesse sido uma convulsa, violenta máquina de histórias. São Jorge

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O tour de force que se vai revelando em São Jorge começa a organizar-se com a delicada negociação, logo nas primeiras imagens, entre o inferno privado de um boxeur (Nuno Lopes) cobrador de dívidas e um país endividado.

Jorge, essa personagem — e Nuno Lopes, o actor —, é um vulto que começa por pairar sobre a ficção e a realidade.

Depois é ele que vai permitindo a aproximação de uma a outra — e nesse percurso é obrigado a abandonar a posição de voyeur, sombra na cidade, para agir. Quando damos por isso, elas já se contagiaram — e Jorge, o boxeur, ultrapassou fronteiras para proteger o seu mundo (depois de Alice, há uma década, o actor interpreta de novo para Marco Martins um pai habitado por uma violenta inocência). É essa uma das singularidades deste belíssimo — e delicado, de novo — filme: a forma como responde à interpelação da realidade.

“Produto” da crise, peça de um cinema que veio da troika, como se vê nas legendas iniciais que são a sua certidão de nascimento, partilhou realidade com As Mil e uma Noites (2015) de Miguel Gomes (começou inclusive a ser pensado durante um projecto teatral de Marco Martins e Nuno Lopes com os trabalhadores desempregados dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo que, se se recordam, tinham papel decisivo na trilogia de Gomes). E no entanto, escolhe responder de forma diferente a essa interpelação. O pressuposto documental — o projecto começou a ser desenvolvido há cinco anos com pesquisa em bairros “problemáticos” e trabalho com não-profissionais, cuja escolha foi exaustiva para lhes dar espaço e às suas histórias — podia ser traído por um argumento que se foi aproximando do film noir, coisa nocturna e onírica.

Em tempos das “ficções do real”, sobre a ficção pode pairar uma desconfiança (a trilogia As Mil e uma Noites “diria” se calhar: “se a realidade é tão brutal e tão incrível, para quê ficcioná-la?”). Mas São Jorge não só não desiste dela, da ficção, como a nobilita, contendo a verdade das histórias dentro dela. É-nos assim entregue um filme de género, transgénero mesmo, atravessado pelo noir e pelo melodrama, como se Portugal nos anos da troika tivesse sido um convulsa, violenta máquina de histórias (e nem precisávamos de legendas iniciais), um studio system a céu aberto — como as histórias com que a América saiu magoada da II Guerra, como os paroxísticos filmes de Robert Rossen, Jules Dassin ou Henry Hathaway.