Os Três Tristes Tigres de regresso por uma noite

Esta quinta-feira, os Três Tristes Tigres voltam a existir no palco do Rivoli numa revisitação do álbum Guia Espiritual. Regresso a um passado essencial da pop portuguesa.

Foto

Após a publicação de Coisas azuis na colectânea Visita de Estudo (2001), os Três Tristes Tigres foram desaparecendo de cena sem um fim anunciado. Na verdade, a canção era um resquício de Ferida Consentida, um espectáculo que Ana Deus e Alexandre Soares montaram em torno da obra da escritora Maria Gabriela Llansol, e que traía já a essência de um grupo profundamente marcante na pop portuguesa dos anos 90: o lugar da letrista Regina Guimarães como membro efectivo. Seguiu-se um período longo em que Ana e Alexandre, voz elástica e guitarra ansiosa, deixaram de se encontrar e, em 2010, quando decidiram voltar a juntar os trapinhos musicais, a música era outra e o nome também teve de ser – Osso Vaidoso.

Ao convidar os Três Tristes Tigres para voltarem a juntar-se num concerto do ciclo Porto Best Of, Miguel Guedes, vocalista dos Blind Zero, tinha em mente aquele que lhe parecia o disco seminal do grupo, o álbum de estreia Partes Sensíveis (1993). Mas, nesse primeiro registo, a guitarra de Alexandre Soares só sobrevoava por cima do último tema, Epitáfios, e não se metia num reportório que importava o cabaret para a pop portuguesa, rasava o legado de Kurt Weill e as canções de Marlene Dietrich, e se dependurava numa teatralidade constante. Tendo Guia Espiritual representado, em 1996, uma notável explosão de criatividade e uma radical transformação dos Três Tristes Tigres, com a entrada em pleno de Alexandre Soares e a guitarra e a electrónica prima do trip-hop a tomarem de assalto canções que obrigavam a pop a uma agilidade só recomendada a ginastas treinadas, a aceitação do convite para voltarem a subir a um palco teria de fazer-se com esse álbum.

“O Guia também foi outro princípio”, justifica a vocalista ao PÚBLICO. “Seria muito estranho voltar atrás para fazer esse disco [Partes Sensíveis]. E como continuo a trabalhar com o Alexandre esse exercício não fazia muito sentido.” Até porque, recuando no tempo e revolvendo a fundação dos Três Tristes Tigres, Ana Deus não se esqueceu de que ter Alexandre Soares consigo estava já presente na primeira ideia para o grupo. “Andei atrás dele bastante tempo, só que na altura ele estava ocupado com outras coisas e avançámos para aquele primeiro disco – teve a sua graça, mas aquilo que aconteceu no segundo é que era o que eu queria para os Tigres.” Novo telefonema para Miguel Guedes e a questão rapidamente se resolveu.

Essa foi a parte mais fácil. Embora os dois não sejam músicos de se demorar muito tempo com os ouvidos sintonizados no passado, a aceitação para um regresso episódico dos Três Tristes Tigres – Guia Espiritual é recordado esta quinta-feira no Teatro Municipal Rivoli, no Porto, estando em negociações mais três ou quatro datas, findas as quais a ressurreição será arrumada de vez – não foi nada que obrigasse a grandes desarranjos nostálgicos e noites sem dormir. O problema chegou depois, quando começaram a limpar o pó às disquetes, drives e DAT onde estavam sons e programações daquele período arquivados numa tecnologia gasta e, em alguns casos, irrecuperável.

Parte do trabalho de preparação deste concerto passou exactamente pela reconstrução dos recursos tecnológicos que compunham Guia Espiritual. “Quando olhamos para trás pensamos que podemos fazer aquilo com as pernas de agora”, diz Ana Deus, reforçando a opção de não assumir uma transposição fiel do que era o disco em 1996. No capítulo das fidelidades, aliás, a vocalista fala de um equilíbrio entre não apunhalar o passado e não trair o presente. Por isso, revela, numa música como Zap canal a ideia passará por entrarem e saírem da canção, criando uma nova relação com aquele que foi o tema mais popular de Guia Espiritual.

A bela complicação

O olhar para trás devolve a Ana Deus a imagem de uma enorme energia – “que agora já não temos”, ri-se – e uma especial vontade de complicar. “A riqueza daquelas músicas, e tivemos de aceitar que era assim, reside muito nas texturas”, diz. “A conclusão a que chegámos é que antes compúnhamos de maneira completamente diferente e, se sempre fugimos à repetição, na altura fugíamos de outra forma, dentro da estrutura. Enquanto agora inventamos, improvisamos e vamos por ali fora, na altura fazíamos umas estruturas muito estranhas. Temos de estar de papel e lápis a tomar nota das partes todas para revermos as músicas.” E já então, reconhece, a relação artística entre os dois podia resumir-se na máxima de que “se um diz mata, o outro diz esfola”.

O encanto de Guia Espiritual estava, então como ainda hoje, nessa forma inquieta e inconformada de domar as canções. Enquanto nos Osso Vaidoso se dizem hoje “livres de constrangimentos de programações” e as canções parecem pairar sem uma forma fechada, nos Três Tristes Tigres – que ao vivo incluíam ainda Quico Serrano, JP Coimbra (ambos presentes nesta revisitação) e Pedro Moura (agora substituído por Rui Martelo) – os ambientes tanto podiam construir-se a partir de voz e guitarra, assim acontecia em Olho da rua, Colchão d’água e Noites brancas, como exigir uma sólida maquinaria nos alicerces. Por definir um novo começo para o grupo, Guia Espiritual será acompanhado por alguns temas do terceiro álbum, Comum, não sendo de descartar o surgimento de algum inédito com letra de Regina Guimarães.

Por enquanto, a única novidade garantida é uma nova introdução para Xmas, escrita por Regina, que destronará a “gravação muito parva de uma noite de desbunda, uma cacofonia de voz de aeroporto que não é inglês, português nem chinês” gravada em disco. O resto será o regresso momentâneo a um dos álbuns mas notáveis da pop portuguesa na década de 90.