Os comoventes esqueletos de canção dos Osso Vaidoso

No segundo álbum do duo, Ana Deus e Alexandre Soares dedicam-se a canções que mal tiveram tempo de nascer. Rilke, Borges, Alberto Pimenta ou Sá de Miranda encontram-se num espaço de tensão e risco.

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Em Março de 2017, a convite do Rivoli, Ana Deus e Alexandre Soares vão voltar a assumir o nome Três Tristes Tigres e reinterpretar Guia Espiritual, álbum fundamental da pop portuguesa lançado em 1996. Uma pop de largo espectro, de canções descarnadas, uma implosão de fragmentos electrónicos numa identidade que até então se definira por uma actualização das memórias do cabaret parisiense e berlinense. Guia Espiritual seria o primeiro momento de verdadeira exploração musical a dois – o ex-GNR fora apenas um músico convidado no anterior Partes Sensíveis (1993) –, as guitarras nervosas e as electrónicas rarefeitas fazendo a cama para uma voz sinuosa, vogando entre o português, o inglês e o francês escrevinhado por Regina Guimarães (o terceiro tigre).

Desafiados a repegar num álbum marcante do grupo que se extinguiu sem alarido depois de Visita Guiada (2001), Alexandre Soares e Ana Deus elegeram esse tiro de partida para uma colaboração que, após uns anos de pousio criativo em que só se encontravam em festas de aniversário de crianças, retomaram muito mais tarde, em 2011, com os Osso Vaidoso. A breve ressurreição dos Três Tristes Tigres, algo que sempre juraram não se permitir fazer, terá como atractivo uma revisitação moldada pelas circunstâncias actuais. Ana Deus garante que vai abordar o disco com aquilo que é hoje; Alexandre Soares desconfia que o material de programações dos temas de Guia Espiritual, arrumado numa pilha de fitas e de discos rígidos, “provavelmente não está legível sequer”. É um sinal óbvio de despreocupação em quem nunca viveu debruçado sobre o passado – até porque o perigo é óbvio: cair e não mais ser capaz de sair desse túnel sem fim.

Miopia, segundo álbum dos Osso Vaidoso – cinco anos após Animal e depois de uma tentativa falhada de gravar um concerto com poemas de Cesariny – é a exacta negação de qualquer obsessão passadista. A representar alguma relação com o tempo, talvez aponte no seu achatamento, juntando poetas dos séculos XVI e XVII como Sá de Miranda e Nicolau Tolentino a luminárias do século passado como Rainer Maria Rilke ou Jorge Luis Borges e a contemporâneos como Alberto Pimenta e Gastão Cruz. “Desta vez, queria poemas um pouco filosóficos”, revela a cantora. “Algo por cima dos dramas dos nossos dias, que tivessem mais que ver com as nossas questões sobre vida, morte, religião, devoção, amor, guerra. E escritores de tantas épocas diferentes acabam por mostrar-nos que há uma ligação que fura o tempo, porque agora é tudo muito em cima, muito hype, muito rápido. Há uma coisa de que gosto para lá destas questões: quanto mais avançamos no tempo, mais recuamos também, porque conseguimos ler melhor, descobrir mais informação sobre as coisas que já se passaram há muito tempo, como se elas ficassem ainda mais próximas.”

Miopia não se chama Miopia por causa dessa relação com o olhar e a distância. Mas há algo que se transporta sem acidentes dos versos de Alberto Pimenta – “Não te sentes capaz de entender / o dia de hoje, baby? / espera que ele seja o dia de ontem” – para esta noção de que trazendo o passado para o presente, roubando-lhe esse estatuto de longínquo, tudo possa ter um sentido. As palavras de Sá de Miranda, Nicolau Tolentino, Rilke ou Borges, ouvimo-las hoje na boca dos Osso Vaidoso sem as arrumar numa gaveta pretérita e tomando-as como presente. “É engraçado encostar estes tempos todos aos dias de hoje”, diz Ana Deus.

Para a voz dos Osso Vaidoso, admitindo que essa possa ser a conclusão em cada momento histórico, “estes são os tempos mais estranhos de todos, os mais rápidos, os mais complexos”. As palavras que traz para a música serão, assim, uma tentativa de navegação por estes dias, tentando descobri-lhes sentidos e coerências, talvez uma forma de consolo. Alexandre Soares concorda apenas com a ideia de aceleração. “Se a gente não se pegar e não houver uma guerra, vai-se dar àquela coisa que sempre se procura mas quando acontece só atrapalha – a mudança”, acredita. “Mas não vou dizer que é sempre no nosso tempo que a mudança é mais forte.”

O tempo de criação para o guitarrista, na verdade, é contrário a toda a aceleração que vê no mundo. Funciona quase como um bunker, um abrigo ou um corte radical com o exterior. “É um espaço em que me retiro e tento viver um tempo que até pode ser falso, que crio ou recrio”, equaciona. “Essa aceleração não tem nada que ver com o processo artístico. Este disco foi feito em seis meses, mas podiam ter sido dois anos. Acho que também é interessante uma pessoa perceber qual é o tempo das coisas que está a fazer.”

No meio dos vírus

As canções de Miopia parecem-se a uma captação fotográfica. Fixam o instante em que os dois músicos sentem que encontraram uma forma, ainda que pouco acabada, do tema em que estão a trabalhar. Em nenhum momento há uma procura pela perfeição desses instantes. Num trabalho contínuo em estúdio, os Osso Vaidoso não seguem o habitual processo de descobrir o esqueleto perfeito de uma música, trabalhá-lo em sucessivas refinações e enxertar-lhe as mais variadas carnes até constituir um corpo sólido e robusto. “Tentamos manter o que deu origem à música, o momento em que aquilo foi feito”, explica Alexandre. “Quando se começa a refazer e a tentar produzir tudo isso se perde um bocado – não digo que fique pior, mas fica diferente. Foi uma opção de trabalhar a versão ainda meio crua mas que tinha onda toda.” Dito de uma outra forma, por Ana Deus, as escolhas recaem sobre takes que fixam “as músicas antes de começarem a ficar normalizadas” pela força da repetição.

O que ouvimos em Miopia equivale, por isso, ao mais próximo vislumbre que podemos ter de canções na sala de partos. Acabam de nascer, estão ainda a tentar sorver as minhas golfadas de ar, mas preservam uma relação ainda quase impoluta com o mundo. Se a vocalista se diz sobretudo “uma intuitiva” – teria mais “a tendência para aperfeiçoar as canções e pô-las bonitinhas”, confessa –, o guitarrista admite ser “mais embirrento”. “Para já, porque não gosto muito de gravar. Aquele botão vermelho mata-me [risos]. O meu medo é a gravação retirar o risco e a tensão. Gosto de trabalhar com esses elementos todos, com a possibilidade de não fazer bem, de não querer disfarçar muito se fizer erros – prefiro deitar as músicas fora.”

Alexandre Soares deitou mesmo muito material fora, privilegiando as escolhas de cada dia em detrimento de qualquer acumulação de takes para analisar durante as duas semanas seguintes. Aquilo que no imediato parecia mais acertado ficava. O resto seguia para o lixo a fim de prevenir que os eventuais arrependimentos atrapalhassem o caminho. Para evitar a tentação do embelezamento, escolheram também gravações de ensaios – Miopia e Princípio da incerteza –, registos de telemóvel, um par de letras da vocalista escritas “quando estava para lá de Bagdade com sono” e todo o tipo de situações em que a energia primordial se mostrasse mais valorosa do que os erros que pudessem acontecer. E eles acontecem: em Miopia, Ana Deus trocou algumas palavras do poema de Alberto Pimenta no meio de um exercício de improvisação e perdeu o rigor das palavras no meio dos gritos. Ela pediu para repetir, Alexandre recusou. Era a gravação certa. O poema, sem enganos, pode ser lido por baixo da bolacha do CD.

O processo de gravação do álbum na sala de ensaios dos Osso Vaidoso na Sonoscopia – associação de músicos portuense ligada à experimentação sonora –, levou à concretização de um álbum “mais mergulhado, mais imerso, com muitas camadas”, palavra de (Ana) Deus. “Estou ali metida no meio dos ruídos e dos vírus. Sinto-me contaminada por vírus.” Essa natureza viral tanto vem da guitarra áspera de Alexandre quanto das suas brincadeiras com instrumentos como o triochord de Yuri Lendman – um instrumento adaptado pelo músico e com fios de pesca em que a afinação é muito flexível – e o laptop acústico – peça construída por Henrique Fernandes, da Sonoscopia, que apenas se parece com o portátil forçoso da electrónica actual mas cuja gama de “barulhinhos” é sempre de origem acústica e inclui, por exemplo, um cortador de batatas.

Tudo isso contribui para uma música densa, em que os refrães só acontecem se os poemas autorizarem esse mandamento pop. O que não significa que Miopia seja um bloco sonoro impenetrável e autista. Dentro da vida soa aos Sonic Youth de Sister, Comigo me desavim tem na PJ Harvey de Rid of Me uma prima óbvia, o esqueleto de canção de Creio nos anjos ou Continuarei são de uma beleza que a crueza não diminui, pelo contrário, torna até dolorosamente comovente. E essa continua a ser a maior qualidade dos Osso Vaidoso: a criação de canções desconformes, à procura de um lugar para habitarem, em fuga dos seus próprios vícios.