Na Rota da Seda os pastores (também) criaram estradas

Nem só as caravanas de cavalos e camelos percorreram a Rota da Seda, na Ásia. A procura de pastagens para o gado também abriu caminhos nesta rede de estradas em tempos movimentada.

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Rebanho de ovelhas a 2000 metros de altitude no Uzbequistão Michael Frachetti
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Um dos sítios onde as caravanas paravam na Rota da Seda, no actual Quirguistão Michael Frachetti

Durante muito tempo, houve uma rota por terra particularmente conhecida: a agora denominada Rota da Seda. Atravessava grande parte do continente asiático, abrangendo territórios agora conhecidos como o Afeganistão, o Cazaquistão, Uzbequistão, Tajiquistão, China, Rússia, Mongólia e Quirguistão, e chegava até à Europa. Mas mais do que uma rota para comercializar bens, esta rota, que já existia há cerca de 4000 anos, continha uma rede de culturas, sociedades e grupos nómadas. Agora, uma equipa de cientistas pensou nesta rota para além do comércio e descobriu que muitos dos seus caminhos foram criados pelos pastores, nas suas transumâncias, em busca de pastagens para o seu gado pelas planícies e montanhas da Ásia.

Se hoje conhecemos a Rota da Seda com este nome, isso deve-se ao geólogo e geógrafo alemão Ferdinand von Richthofen, que a estudou em meados do século XIX. Afinal, a sua história já é antiga, já muitos pés percorreram esta rota e começou a despertar o interesse da ciência durante aquele século. Mas como foram surgindo estes caminhos?

Vamos começar pelo produto que lhe deu o nome. Por volta de 2700 a.C., a seda já era um têxtil muito valioso. Com origens na China Antiga, era usada para roupas, cortinas, estandartes e outros produtos. A forma como se fabricava era um autêntico segredo no Império Chinês, que mais tarde chegou à Índia, ao Japão e ao Império Persa. Mas este não era um produto só usado nestes territórios. A seda também foi encontrada no Egipto ou no Norte da Mongólia e, no século I a.C., foi introduzida no Império Romano. Como tal, teriam de existir caminhos para que se chegasse a esses sítios.

Foi-se criando então a Rota da Seda, que, além deste têxtil que mais tarde lhe deu o nome, caravanas de cavalos e camelos transportavam outros têxteis, especiarias, vegetais, fruta, objectos religiosos, pedras preciosas, trabalhos em madeira ou metal, entre outros bens. Além disso, esta rota foi um importante meio de ligação entre culturas, línguas e ideias. A Idade Média foi um dos períodos mais dinâmicos da Rota da Seda. E hoje ainda há viagens por estes caminhos, mas sem a mesma intensidade e importância de outros tempos.

Esses outros tempos da rota sempre suscitaram curiosidade a arqueólogos e antropólogos, que, noutros estudos, cruzaram a cronologia histórica com os locais mais conhecidos da planície e do sistema montanhoso da Ásia para a compreender melhor. Desta vez, um estudo na última edição da revista Nature, que tem como principal autor Michael Frachetti, antropólogo da Universidade de Washington, em Saint Louis (Estados Unidos), teve em conta tanto a ecologia como a mobilidade pelos sistemas montanhosos do continente asiático e, para tal, utilizou mapas digitais.

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Ilustração de um pastor com o seu gado e o modelo das montanhas utilizado no estudo M.Frachetti/ T. Bukowski

Em estudos anteriores, apenas se teve em consideração a localização de cidades antigas ou dos locais de paragem das caravanas, mas que há outros pontos que nunca foram estudados, explicou Michael Frachetti, num comunicado da Universidade de Washington. “Mas os padrões de navegação e de intercâmbio nas montanhas pelo interior da Ásia, e que foram usados ao longo de milénios por mercadores, monges e peregrinos, são pouco conhecidos.”

E o que permitiu descobrir esta nova forma de olhar de Michael Frachetti? Que os pastores se moviam com os seus animais em busca de pastagens frescas e, assim, acabaram por abrir novos caminhos na Rota da Seda.

Pastagens vistas do espaço

Os cientistas usaram imagens de satélite e sistemas de informação geográficos para estudaram as movimentações actuais do gado ao ritmo da vegetação ora mais alta no Verão, ora mais baixa no Inverno. E, para isso, simularam esses percursos, usando um modelo que permite determinar o padrão de drenagem de um terreno (o modelo de fluxo acumulado), através de imagens de satélite. O estudo consistiu então em procurar as melhores pastagens e, para tal, usaram-se também dados de satélite que permitem avaliar a qualidade da vegetação.

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Animação do modelo simulado no estudo Michael Frachetti

Depois, o modelo de fluxo acumulado foi aplicado 500 vezes (o que equivale a 500 anos), para desta forma representar 20 gerações de pastores. Daqui resultaram vários mapas. O que se viu então foi que os percursos desses pastores se ligavam a 74% dos caminhos montanhosos da Rota da Seda. “O modelo sobre participação pastorícia ilustra a facilidade com que estes pastores da montanha – através das suas estratégias de economia mais básicas – abriram o caminho a percursos permanentes na Rota da Seda através das montanhas da Ásia”, lê-se no artigo científico.

Num comentário ao artigo, também na revista Nature, Michael Harrower e Iona Dumitru, da Universidade de Johns Hopkins, dos Estados Unidos, escrevem: “A análise dos autores representa um avanço significativo no estudo da rede de comércio, um desenvolvimento obtido através do uso de ferramentas de análise espacial que continua a transformar a compreensão dos académicos acerca das geografias antigas.”

Para que as geografias antigas não sejam mesmo esquecidas, a UNESCO criou uma plataforma online para a Rota da Seda, no contexto da Década Internacional para a Reaproximação de Culturas (2013-2022). Em vez dos intercâmbios serem agora (apenas) feitos pelas planícies e montanhas da Ásia, esta troca de ideias e informações é pela Internet. A plataforma tem notícias, informações detalhadas sobre a rota (de museus ou monumentos) e há mais de 40 países envolvidos. Agora junta-se mais uma informação a esta plataforma: os pastores foram personagens fundamentais para os caminhos desta rota.