Opinião

Reforçar a indústria europeia para competir num mundo em mudança

Não sou um ingénuo defensor do comércio livre, temos de continuar a mostrar a nossa posição e a tomar medidas contra práticas comerciais desleai, mas não vejo que o nacionalismo económico seja compatível com a ideia da Europa ou com a prosperidade dos seus cidadãos.

Na sua reunião de hoje em Bruxelas, os líderes da UE farão um balanço das medidas tomadas pela Europa para criar emprego, gerar crescimento e aumentar a competitividade. A indústria europeia tem um papel fundamental a desempenhar, dado ser a principal actividade económica, representando quase 20 % do valor acrescentado bruto e mais de 15 % do emprego da UE.

O meu pai era um trabalhador siderúrgico com orgulho na sua profissão. Tal como em muitos outros lugares da Europa, a fábrica local constituía o elemento de união da nossa comunidade; era o maior empregador e o motor da economia local.

Hoje em dia, as fábricas são diferentes das que o meu pai conheceu. No entanto, a indústria europeia continua a ter a mesma importância. As nossas indústrias são líderes de peso nos mercados mundiais. Dão emprego a mais de 50 milhões de trabalhadores na Europa. Contam com pessoas inovadoras e empresários brilhantes que agarram as novas oportunidades.

A força da nossa indústria sempre foi a sua capacidade de adaptação e de inovação. Num ambiente mundial competitivo e em rápida evolução, temos de aproveitar os nossos pontos fortes: a nossa enorme reserva de talentos, a nossa mão-de-obra qualificada, as nossas tradições de inovação e, em especial, os 500 milhões de consumidores no mercado único. É especialmente importante que as nossas fábricas ocupem um lugar de vanguarda em matéria de tecnologias limpas e de eficiência energética a fim de conseguirem reduzir custos e ser menos dependentes de fornecedores de países terceiros. Devem aproveitar as oportunidades que surgem com a diluição das fronteiras tradicionais entre produtos, serviços e economia digital. Devemos, em conjunto, investir nos nossos cidadãos, dotando-os das competências necessárias num mercado de trabalho em mudança e proporcionando-lhes os direitos sociais adequados à evolução dos modelos de emprego. As antigas zonas industriais podem ser transformadas, não só para construir residências luxuosas à beira-rio, mas também para criar novos empregos para os trabalhadores locais.

A Comissão Europeia dispõe de uma estratégia industrial que apoia a transição para uma economia moderna, limpa e justa, recorrendo a uma abordagem alargada e centrada em resultados nos diferentes domínios políticos.

A indústria deve aproveitar as oportunidades e tirar o máximo partido das soluções de investimento da UE, em especial do Plano de Investimento para a Europa, a que alguns chamam “Plano Juncker”. Ao abrigo deste Plano, já foram assinados projectos como o que vai promover a reabilitação de várias zonas de Lisboa. Além disso, foram disponibilizadas linhas de apoio a várias PME portuguesas inovadoras que contribuem para a criação de emprego. O Plano ajudou os grossistas do aço polacos a prestar novos serviços e a criar novos postos de trabalho. Esteve na origem da construção de uma nova instalação fabril ecológica na Finlândia e da primeira unidade europeia de reciclagem e refundição de sucatas de titânio. Em tantos outros exemplos, como apoiar iniciativas de impressão 3D, bioplásticos destinados a embalagens ou novos sistemas para reduzir o consumo de água na indústria química, a UE continua a permitir o financiamento e a desbloquear investimento para a inovação pioneira e para a indústria europeia.

Continuaremos a precisar de investimento estrangeiro. Para isso, devemos continuar a estar abertos ao comércio e manter os mercados estrangeiros abertos às empresas europeias.

Mas isto não quer dizer que sou um ingénuo defensor do comércio livre. Temos de continuar a mostrar a nossa posição e a tomar medidas contra práticas comerciais desleais como fizemos quando impusemos direitos antidumping sobre o aço da China, o milho doce da Tailândia ou o biodiesel dos EUA, da Indonésia e da Argentina. Continuaremos também a recorrer às possibilidades previstas na legislação sobre auxílios estatais para apoiar a investigação e os investimentos ecológicos. Vamos promover a nossa autonomia estratégica e a nossa força industrial em termos de projectos espaciais e de defesa, em vez de depender dos EUA, da China ou da Rússia.

Mais de 50 % das empresas da UE já fazem parte de cadeias de valor mundiais; não nos podemos dar ao luxo de regredir para o isolacionismo e o proteccionismo. A nossa indústria e a nossa economia dependem de um comércio internacional livre, justo e sustentável. Vejamos o recente acordo comercial concluído com o Canadá, um dos quatro parceiros com mais afinidades com a UE. É o acordo comercial mais progressista que jamais assinámos e terá um efeito transformador: as exportações para o Canadá apoiam já hoje cerca de 900 mil postos de trabalho europeus e, com a remoção dos direitos aduaneiros, ajudaremos as nossas empresas a poupar mais de 500 milhões de euros por ano.

Apresentei na passada semana o Livro Branco sobre o futuro da Europa que traça cenários para uma unidade a 27. Espero que, com base nesse documento, possamos ter um debate franco e aberto sobre o que a UE pode e deve fazer para apoiar a indústria e tirar partido da globalização, por exemplo, nos domínios da política orçamental, da educação ou social.

Uma coisa é evidente: não vejo qualquer cenário em que o nacionalismo económico possa ser compatível com a ideia da Europa ou com a prosperidade dos seus cidadãos. Acredito numa Europa com uma política industrial comum, robusta, que garanta o sucesso, mesmo em tempos difíceis. Esta política desempenha um papel central na Europa pela qual luto.

Presidente da Comissão Europeia