Armando Silva Carvalho vence Correntes d'Escritas

O livro de poemas A Sombra do Mar recebeu esta quarta-feira o Prémio Literário Casino da Póvoa.

Armando Silva Carvalho
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Armando Silva Carvalho RUI GAUDÊNCIO

O Prémio Literário Casino da Póvoa de 2017 foi atribuído esta quarta-feira ao livro de poemas A Sombra do Mar (Assírio & Alvim, 2015), de Armando Silva Carvalho, “pela força imagética da sua escrita e pela tensão conseguida entre ironia e melancolia”.

Anunciado ao final desta manhã no Casino da Póvoa de Varzim, na sessão oficial de abertura da 18.ª edição do festival literário Correntes d’Escritas, que contou este ao com a presença do Presidente da República e do ministro da Cultura, o prémio, no valor de 20 mil euros, foi atribuído ao livro de Armando Silva Carvalho por um júri constituído por Almeida Faria, Ana Gabriela Macedo, Carlos Quiroga, Inês Pedrosa e Isaque Ferreira.

A decisão foi tomada por maioria e, na sua declaração, o júri assume que “mereceram particular atenção” os livros Bisonte, de Daniel Jonas, e O Fruto da Gramática, de Nuno Júdice. Justificando a escolha, o júri considera que A Sombra do Mar “nos traz um conjunto de poemas formando um corpo orgânico de grande unidade estilística e temática, no qual as alusões ao mar e à água constituem um leitmotiv que percorre todo o livro em sucessivas variações (…)” e encontra na obra “um percurso reflexivo capaz de unir a ‘prosa do mundo’ à mais alta expressão lírica da poesia contemporânea em língua portuguesa”.

Além dos dois outros finalistas já referidos, a short list do prémio incluía Animais Feridos, de António Carlos Cortez, Auto-retratos, de Paulo José Miranda, Persianas, de Miguel-Manso, Vem à Quinta-Feira, de Filipa Leal, e Outro Ulisses Regressa a Casa, do poeta Luís Filipe Castro Mendes, cujo alter-ego ministerial participou na sessão. No ano passado, o vencedor do prémio foi o ficcionista espanhol Javier Cercas, com o romance As Leis da Fronteira.

Tendo-se estreado há mais de 50 anos, em 1965, com o notável Lírica Consumível, que venceu nesse ano o Prémio de Revelação da Sociedade Portuguesa de Escritores, Armando Silva Carvalho, nascido em Óbidos em 1938, entrou no século XXI em grande forma criativa, com títulos como Lisboas (2000), O Amante Japonês (2008), Anthero Areia e Água (2010) ou De Amore (2012). A Sombra do Mar, possivelmente o seu melhor livro desde Lisboas, já tinha recebido os prémios da Sociedade Portuguesa de Autores, da Fundação Inês de Castro e da revista Cão Celeste, assim como o Grande Prémio de Poesia António Feijó, uma parceria da Associação Portuguesa de Escritores com a Câmara Municipal de Ponte de Lima.

Em recensão publicada no suplemento Ípsilon em Agosto de 2015, o crítico do PÚBLICO Hugo Pinto Santos escrevia que neste livro "Armando Silva Carvalho ergue de novo a sua língua a realizações de sistemática força rítmica e de uma pulsão metafórica intensa mas sempre medida", sublinhando o seu singular "poder de escrita e de criação".

Um Presidente e um protesto

O nome do vencedor do 18.º Correntes d’Escritas foi anunciado por Almeida Faria, logo antes de o presidente da administração do Casino da Póvoa ter intervindo para explicar que a casa perdeu receitas, mas mesmo assim emprega muita gente, numa óbvia resposta à manifestação de trabalhadores do Casino que, aproveitando a presença de Marcelo Rebelo de Sousa, protestavam à porta contra os baixos salários e um recente despedimento colectivo de 21 funcionários.

O ensaísta e poeta Eugénio Lisboa, homenageado na edição deste ano do Correntes d’Escritas, fez depois uma brevíssima intervenção apenas para agradecer o tributo. Já Castro Mendes assinalou a importância do festival, que conhece bem, na democratização da leitura, sublinhando o acolhimento que a população da Póvoa dá a estes encontros. Esta “participação popular” e a importância da relação do festival com as escolas são bons argumentos, afirmou o ministro, para sustentar a pretensão da Póvoa de obter o estatuto de cidade literária da Unesco, já atribuído a Óbidos.

O Presidente da República fechou a sessão, lembrando que o cidadão Marcelo já passara por este festival e evocando o seu próprio contributo para a divulgação do livro nas suas célebres escolhas dos tempos de comentador televisivo. Elogiando o festival, o PR disse que “basta falar com escritores para perceber que o Correntes d’Escritas ganhou um lugar muito especial no calendário dos encontros literários” portugueses.

Entre os 80 convidados desta edição, Rebelo de Sousa referiu Pinto Balsemão, que fará a conferência de abertura do festival, o homenageado Eugénio Lisboa, e ainda Luís Filipe Castro Mendes, “um ministro a concurso”, que “veio aqui com o seu ortónimo poeta e o seu heterónimo ministro”.