Reportagem

Marcelo Rebelo de Sousa serviu jantar a sem-abrigo do Porto

Presidente da República vestiu a camisola de voluntário, serviu jantar e lembrou que há instituições à espera de uma nova Estratégia Nacional de Integração de Pessoas Sem Abrigo.

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Adriano Miranda
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Noutro dia qualquer, um atraso de minutos na abertura do Restaurante Solidário, na Baixa do Porto, bastaria para haver um reboliço na Rua de Cimo de Vila. Esta quinta-feira à noite, não. O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, ia vestir a camisola de voluntário da CASA – Apoio ao Sem Abrigo e servir o jantar.

É o quarto momento público que o Presidente dedica às pessoas em situação de sem-abrigo no espaço de dois meses. E no passado dia 9 recebeu a Comunidade Vida e Paz, que lhe entregou uma petição com quatro mil assinaturas a reclamar uma nova estratégia nacional de integração de pessoas sem abrigo, que "capitalize as experiências positivas” da anterior e que garanta as “melhorias necessárias". E ele não se esqueceu disso. “O último plano terminou no final de 2015”, lembrou. “Em 2016, não houve plano, houve um prolongamento parcial do plano [2009-2015] e o Governo ficou de dar agora uma resposta em 2017. Há muitas instituições que estão à espera. É uma necessidade.”

À espera de um minuto com o Presidente estavam dois representantes da associação Uma Vida Como a Arte, composta em exclusivo por pessoas com experiência de vida de rua. Queriam dar-se a conhecer, pedir-lhe que os ajude a obter uma sede, mas também entregar-lhe uma carta – a defender que haja uma continuidade; que a nova estratégia seja dotada de recursos; que se cumpram, de forma articulada, as políticas públicas de habitação, saúde, emprego; que se ouça as pessoas sem-abrigo nos assuntos que lhes dizem respeito; que se troque os modelos assistencialistas por modelos virados para a inclusão; e que se combata o preconceito.

Surgiu como movimento dentro do Núcleo de Planeamento e Intervenção Sem Abrigo (NPISA) do Porto, que reúne 64 entidades formais e informais da cidade. E, desde o princípio desde mês, é uma associação. “Pensámos muito antes de formalizar a associação”, contara o presidente, António Ribeiro, horas antes, no início da reunião semanal. “Se calhar, a nossa voz vai ser ouvida de forma diferente do que era quando éramos um movimento informal”.

Não é um lugar fácil este que Marcelo Rebelo de Sousa escolheu para começar a noite de quinta-feira no Porto. Tantas queixas se ouvem na rua sobre o Restaurante Solidário, que era há muito reclamada pelo NPISA e que faz parte da "Estratégia Local de Apoio de Integração de Pessoas em Situação de Sem-Abrigo", aprovada pela autarquia em Julho de 2016.

– Meia malga de sopa, carne esfiada, massa que dá para colar blocos. Às vezes, massa branca com salchichas e uns ovos que nem sal têm – queixava-se um rapaz, 21 anos, há dois meses a viver na rua.


– O comer vem frio. A primeira coisa que uma pessoa que dorme na rua precisa é de um prato de comida quente – corroborava a namorada, de 32.

Não é um serviço municipal. É um projecto de parceria. A Ordem do Terço empresta o refeitório e a equipa de cozinha para preparar a comida. Os alimentos são recolhidos pela CASA, o Banco Alimentar, a Portis-Hostéis Portugueses. A Câmara do Porto paga as despesas de manutenção do espaço e dos equipamentos e os alimentos em falta. As refeições são servidas por 400 voluntários da CASA, que rodam em grupos de 15 a 25, apoiados por voluntários do Colégio Nossa Senhora do Rosário e do Grupo de Acção Social do Porto.

O vereador da Habitação e da Coesão Social, Manuel Pizarro, que ali estava, conhece bem as queixas. “Temos dois problemas, que aliás se resumem a um”, explicara já ao PÚBLICO. “O restaurante tem muito mais gente do que prevíamos. Andámos semanas a contar as pessoas que se alimentavam nos dois espaços de rua que o restaurante pretendia substituir – a Praça da Batalha e as imediações da Estação de São Bento – e nunca ultrapassámos cem. Dimensionámos o restaurante para 130 a 140. Nalgumas noites temos mais de 200. Evidente que isso causa problemas.”

Como é que isto se resolve? “Abrindo um segundo restaurante na Baixa, que permita aliviar este”, retorquira o vereador. Não adiantou em que mês. Referiu apenas que será “neste semestre”. O plano é ter até quatro espalhados pela cidade. “Apesar das críticas, é melhor do que comer na rua”, acredita. Não é só uma questão de dignidade e de conforto. “Por razões de segurança e de qualidade alimentar, quero que deixe de haver serviço de alimentação nas ruas. E tenho de poder afirmar que todas as pessoas que precisam de uma refeição têm um sítio aonde podem ir comer”.

Por ora, é isto:  acesso livre, número de pessoas que aparecem impossível de prever, a escassez a estourar de quando em vez na mão dos voluntários de turno.

O que se faz quando a comida não chega para todas as pessoas que fazem fila à porta? “Temos de arranjar algum remedeio”, responde Pedro Pedrosa, coordenador da CASA. “Temos aqui uma pequena copa e um pequeno almazém. Há sempre atum, salchichas… Às vezes, os voluntários têm de fazer massa ou arroz.”

Não há nada que atrapalhe tanto a voluntária Cristina Ramirez, uma formadora de 48 anos, que trabalha no Porto e mora em Ovar, como estes desarranjos. “Para mim, é complicado ter de dizer a alguém: ‘Não há comida, vamos tentar arranjar qualquer coisa’. Também é complicado quando alguém quer repetir e a gente tem de dizer: ‘Olhe, vamos ver se conseguimos dar.’”

Esta quinta-feira, com Marcelo Rebelo de Sousa na sala, não havia de faltar comida. Uma malga de caldo verde, um pão, um prato de bacalhau espiritual, uma mousse de chocolate, um bolo de bolacha ou um pouco de arroz doce de sobremesa, um café e ainda uma maçã para levar no bolso. “Vamos ouvir bocas”, temia a voluntária Joana Mota. Comida melhorada? “Sim. E mais quantidade do que é costume.”

Depois de dar abraços e beijos aos voluntários, Marcelo Rebelo de Sousa tirou o casaco, vestiu a T-shirt de voluntário e saltitou de mesa em mesa, sorridente.  Algumas pessoas comiam com as caras fechadas, de costas, com os bonés ou os gorros enfiados, para melhor escaparem às câmaras dos jornalistas amontoados a um canto. Outras interagiam o mais possível.

– Senhor Presidente, uma sopa – pediu Rui Salvador, activo membro de Uma Vida Como a Arte.
– Quer mais ou quer menos?
– Cheia, senhor Presidente.

Fernanda Fernandes estava encantada. “Acho muito bem que aqui esteja. Acho muito bem. Devia de ser mais vezes." Já dormiu na rua, já dormiu num centro de acolhimento temporário e agora está num quarto, com o companheiro, com acesso a cozinha, mas sem dinheiro para comprar alimentos. "O meu homem é uma pessoa de sustento. E nós, com as carrinhas, levávamos comida para casa, não é? Aqui não, não deixam. Leva-se uma maçã, mais não. O Presidente devia vir mais vezes para ver se a gente pelo menos tinha uma refeição melhor. Quando é que a gente aqui come mousse de chocolate? Que eu me lembre, nunca.”

Marcelo Rebelo de Sousa parecia estar a par do que ali se passa. “Rodaram já 36 pessoas”, disse, no fim do primeiro grupo. “Acaba a comida a determinada altura. É esticar, esticar, esticar”, referiu. “Há umas instituições mais à-vontade e outras muito menos à-vontade para cumprir esta missão. E esta missão ainda é uma missão com peso. Além dos sem-abrigo propriamente ditos, temos aqueles que têm casa mas não têm condições para confeccionar uma refeição. Têm uma casa precária, vivem num quarto de pensão”, explicou ainda.

Dali, partiu para o parque de estacionamento da Trindade, onde, todas as quintas-feiras, o grupo de voluntários Amor Perfeito distribui uma refeição completa a quem aparece. E aparecem famílias inteiras. Homens, mulheres, idosos e crianças, muitas crianças fazem fila para comer, conviver, arrecadar alguma roupa. Uma mulher pediu-lhe, aos gritos, que lhe arranjasse uma casa. Isso, respondeu o Presidente, "tem de pedir à câmara".