Queridos, toca a acordar – um conselho de Edward Albee

Ricardo Neves-Neves estreia no Teatro São Luiz um texto mal-amado de Edward Albee, Encontrar o Sol. Numa praia em que nada se parece passar, o sol expõe medos, mentiras e arrependimentos.

FOTO: Alipio Padilha
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FOTO: Alipio Padilha

Pouco antes do final do primeiro ensaio corrido de Encontrar o Sol, o encenador Ricardo Neves-Neves sentiu-se a ficar sem um pingo de sangue na cara. “Como quando se recebe uma má notícia”, compara o próprio. A má notícia, no caso, era que, chegado à cena 18 das 21 que compõem a peça escrita pelo dramaturgo norte-americano Edward Albee em 1983, concluiu, agora que via o texto tomar vida diante de si, que ainda não tinha acontecido nada até àquele momento quando restava mais um par de cenas para a peça se finar. Essa momentânea falta de sangue a irrigar-lhe o rosto correspondia à súbita emergência do pânico de que talvez se tivesse precipitado ao sugerir a Aida Tavares, directora do São Luiz, levar à cena o texto de Albee.

Nessa que terá sido uma das reuniões mais fáceis da sua vida, à pergunta sobre o que gostaria de apresentar na sala lisboeta, Neves-Neves atirou duas hipóteses: Encontrar o Sol e um texto da sua autoria. “E a Aida, em vez de me fazer uma contra-proposta do género ‘Muito bem, mas vê lá se não queres fazer aqui um Gil Vicente para escolas’, respondeu que faria um em 2017 e o outro em 2018.” A ideia de Albee não era nova, daí que, mesmo se apresentada de forma impulsiva, estivesse na ponta da língua – pelo menos desde 2012.

Esse seria, na verdade, o annus mirabilis de Ricardo Neves-Neves, quando num curto período definiu cinco anos de programação do Teatro do Eléctrico. Foi quando se pôs a caminho de Barcelona para realizar um workshop com o inglês Simon Stephens, de onde saiu a primeira versão da peça que o afirmou como autor, Mary Poppins, a Mulher que Salvou o Mundo; foi quando Simon lhe deu a ler os textos de Martin Crimp que montou no espectáculo Menos Emergências; foi quando partiu para Avignon com obras de Copi e de Karl Valentin sugeridas por Jorge Silva Melo na bagagem – o primeiro Copi, A Noite da Dona Luciana, estreou-se em 2016, e seguir-se-á um texto de Valentin no Teatro da Trindade; foi quando leu e se entusiasmou com Encontrar o Sol, peça mal-amada de Edward Albee.

Ao apontar para esta peça de um lote de 12 a 15 que gostaria de fazer no imediato, Neves-Neves assume que foi um risco. “Nem estava bem a perceber onde me estava a meter”, desabafa. “Podia ter feito uma proposta que fosse muito mais confortável, fazia uma farsa muito divertida, com muita cor e à partida talvez pudesse ter melhores resultados..” Ao agir por impulso, não teve sequer tempo para premeditar qualquer ruptura com os textos que tem vindo a fazer. Mas é fácil de perceber que o tom que o encenador empresta a Albee não adere com a mesma efervescência ao teatro desenfreado de que o Ípsilon dava conta por alturas da estreia de A Noite de Dona Luciana, à sua forma estonteante de pôr as peças em andamento, empurrando-as e voltando a empurrá-las até perderem o equilíbrio e quase se estamparem. Só que não se estampavam, antes se abandonavam a essa vertigem e embalavam o público numa euforia que apenas no final parecia ceder ao cansaço e descer ao tom menor que o encenador assume como uma atracção involuntária.

Depois de o sangue lhe fugir da cara, Neves-Neves demorou-se a pensar sobre “esta questão de não se estar a passar nada” em grande parte da peça. E lembrou-se do caso de uma amiga que, “num dia aborrecido igual a todos os outros, teve um acidente que a deixou com muitos problemas de locomoção” e um desejo persistente de voltar aos seus dias aborrecidos. “Esta peça é também sobre esta coisa de nada acontecer, de se falar sobre o passado e projectar o futuro, em que o presente parece ser nada, e depois tudo acontece num estalar de dedos.” Encontrar o Sol, acredita, vive da iminência e da surpresa das más notícias. A felicidade, a ser alguma coisa, talvez seja esse momento imediatamente anterior, num esplendor de vulgaridade.

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FOTO: Alipio Padilha

Praia de dúvidas

Edward Albee morreu em Setembro de 2016, aos 88 anos, na sua casa em Montauk. Tendo estreado a primeira peça, The Zoo Story, em 1958, Albee tornar-se-ia, como apontava o obituário do New York Times, o depositário da “tocha da dramaturgia americana” que lhe havia sido legada por Eugene O’Neill, Arthur Miller e Tennessee Williams. Pouco depois, era já um seríssimo caso de sucesso com o primeiro espectáculo para a Broadway, Who’s Afraid of Virginia Woolf? O jornal citaria ainda Albee: “Todas as minhas peças são sobre pessoas que perdem oportunidades, desistem demasiado novas, chegando ao final das suas vidas com arrependimentos daquilo que não fizeram, por oposição às coisas que fizeram. A maioria das pessoas passa demasiado tempo a viver como se nunca fosse morrer.”

É exactamente isso que transborda do monólogo de Henden diante de um grupo de peixinhos – o CoLeGaS, coro da ILGA, que reforça a costela musical que Neves-Neves imprime ao texto e impede que os actores, nos seus momentos de desolada solidão, se dirijam ao público. Henden é o elemento mais velho dos quatro casais em palco, passou a marca dos 70 anos, e fala da morte não como um destino próximo mas como uma presença íntima que se infiltra nos seus dias há três ou quatro décadas. Daí que o encenador oiça o monólogo como um recado deixado a quem vive os seus 30 ou 40 anos. “Para o Henden aquilo já não é uma novidade”, diz. “Oiço mais o Albee a dizer-nos ‘Oh queridos, vá, toca a acordar’.”

Em Maio passado, quatro meses antes da sua morte, Albee aprovou o projecto de cenário, figurinos e elenco do espectáculo, num processo especialmente moroso – um ano e três meses – para que Encontrar o Sol possa estrear-se dia 17 no Teatro São Luiz, em Lisboa, onde ficará até dia 25, seguindo depois para o Theatro Circo, em Braga, a 3 de Março. Não tendo havido qualquer contacto directo com o autor, também não estaria nas cogitações de Neves-Neves inquiri-lo sobre o texto. Aquilo que o encenador faz em Encontrar o Sol é, na verdade, sublinhar as dúvidas sugeridas por Albee, deixá-las a marinar numa aparente superfície que, em pequenos rasgos, deixa desprender uma imprevista profundidade.

Neves-Neves gosta do potencial violento da praia, da sua obediência a ciclos marcados pela natureza, de ser “um sítio de mentira”, das relações indefinidas e do jogo social que dita sempre as regras pouco claras do que vai germinando à beira-mar. E diz-se seduzido por uma estrutura de texto que “está 25 anos à frente, igual à de quase todas as peças escritas no século XXI, num acto e feita de micro-cenas”. Gosta disso e que o texto lhe segrede precisar de uma certa preguiça e um algum tédio que são próprios da praia. O contrário daquilo que Ricardo sabe ser – “um bocado histérico e nervoso”.