A terra de Vazante não é para velhos

Daniela Thomas traz a Berlim uma tragédia em câmara-lenta dos tempos da escravatura do Brasil, inspirada por histórias da sua família.

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Alexandre de Sena, Adão de Fátima Gomes, Adelsson Gonçalo Higino, Celso Timoteo Pereira em Vazante Ricardo Teles
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Celso Timoteo Pereira e Alexandre de Sena em Vazante Ricardo Teles
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A realizadora Daniela Thomas Eudes De Santana

No princípio era uma imagem – ou antes, imagens soltas, que Daniela Thomas criou na sua mente a partir das histórias que o pai contava de um antepassado que nunca usava sapatos, e que casara aos 45 anos com uma menina de 12 a quem trazia bonecas das suas viagens. Mas eram também as imagens das gravuras de época, do princípio do século XIX, e foi para dar vida a essas imagens que Thomas, parceira regular de Walter Salles (com quem co-dirigiu Terra Estrangeira96, e Linha de Passe, 08), foi buscar o grande director de fotografia peruano Inti Briones, e foi rodar a preto e branco, em exteriores de Minas Gerais, uma história dos tempos da escravatura, uma espécie de amour fou enlouquecido pelo isolamento da selva e pela desgraça.

Não sabíamos muito bem o que esperar de Vazante (Panorama), primeira longa “a solo” de Thomas, co-produzida com Portugal através da Ukbar Filmes de Pandora da Cunha Telles e com o português Adriano Carvalho no principal papel masculino – o de António, um “tropeiro” que a morte da mulher ao dar à luz um bebé que também não sobrevive, em 1821 (último ano do Brasil enquanto colónia portuguesa) lança para o desespero.

Não sabíamos muito bem o que esperar, mas não esperávamos isto: uma tragédia em câmara lenta, infiltrada pela letargia tropical da selva, um filme que ultrapassa as suas limitações através do transe quase opiáceo em que coloca o espectador. As tais imagens que inspiraram Daniela Thomas, disse a realizadora na conferência de imprensa de Berlim, estão todas no filme – a boneca embrulhada em serapilheira, os pés descalços que não gostam de usar sapatos, o casamento entre um homem feito que a desgraça deixou viúvo e uma menina que ainda nem menstruou, sobrinha mais nova da esposa defunta.

E as gravuras também: os escravos africanos cuja língua ninguém consegue compreender e cujo chefe – o griot maliano Toumani Kouyaté – se recusa a quebrar perante o “senhor”, a cozinheira e governanta negra que domina a casa senhorial com mão de ferro, a escrava que serve de amante do patrão e que lhe dá bastardos. São todas recriadas com mestria pela câmara de Inti Briones, capaz de lhes dar ao mesmo tempo um recorte rochoso, telúrico, esmagador e uma tonalidade humana, digna, nobre.

O verismo de Vazante, no entanto, não vem só daí; vem também do que Daniela Thomas definiu, na conferência de imprensa, como um “laboratório da vida”. A realizadora, que se formou em História, trabalhou com uma historiadora especializada no período em que tudo se passa, e rodou em locais onde existiram realmente fazendas, recorrendo aos descendentes dos escravos fugitivos como consultores e artesãos responsáveis pela recriação dos cenários e guarda-roupa, como figurantes, como secundários.

Isso ajuda em grande parte a perceber a sensação de hipnose que Vazante cria – de não estarmos apenas a assistir a uma ficção histórica, mas de a estarmos a viver, tal é o sortilégio criado pelo ritmo inflexível da montagem, pela força das imagens, pelo trabalho de som do português Vasco Pimentel. Não há música ao longo das duas horas de Vazante, apenas um constante marulhar de pássaros, galhos, ribeiros, animais, pessoas, vento, chuva, tempo que está sempre presente e se torna opressivo, quase ensurdecedor – e, de repente, percebemos que a loucura está sempre a um passo de vir ao de cima neste ermo perdido nos confins do Brasil, longe de tudo, ao sabor dos elementos e dos instintos e dos desejos.

Acima de tudo, há duas coisas em que Daniela Thomas aposta, que criam o contraste onde tudo se joga: os rostos e as paisagens. Os rostos de gente que sobrevive como pode numa terra que não foi feita para eles; as paisagens cuja beleza esconde também um desafio à sua capacidade de sobrevivência, uma terra que, literalmente, não é para quem quer, mas para quem resiste. Essa noção muito precisa do que Daniela Thomas quer fazer e a teimosia com que o leva a cabo, contra tudo e contra todos, é o que ganha Vazante e compensa as suas relativas fraquezas – como um argumento talvez demasiado frágil para sustentar a aposta formal, como personagens cujo mistério parece por vezes ser uma solução para compensar a sua dimensão arquetípica.

Não é forçosamente um problema – as tragédias baseiam-se nos arquétipos – mas sente-se que Thomas não teve mão por inteiro para compensar um ou outro convencionalismo de narrativa, ou o escorregão pontual num certo lirismo Malickiano. Chega, e sobra, para abrir com força uma forte presença brasileira em Berlim que vai ter um outro filme de época, Joaquim, a encerrar a competição oficial.