Opinião

O homem da melena amarela

Não tenho nenhuma dúvida que começando com muçulmanos, cristãos, negros, mexicanos ou chineses, eu também acabarei por ser atingida individual ou colectivamente.

No princípio não acreditámos que se candidatasse, mas aconteceu. Depois não acreditámos que seria o candidato dos Republicanos, mas também aconteceu. Em seguida, estávamos certos de que perderia as eleições, mas ganhou-as. No fim, pensámos que toda a verborreia destilada durante a campanha não passaria de gabarolice populista, mas a verdade é que nos enganámos em toda a linha. Sem perder tempo, Donald Trump, o homem da melena amarela à frente e um ego do tamanho da América, parece disposto a cumprir as suas promessas à risca, não como politico que nunca foi mas como patrão que nunca deixou de ser: despedindo quem não aceita as suas ordens, calando quem dele ousa discordar, abrindo ou fechando as portas do país como se fosse a sua própria casa particular.

“A América primeiro… A América para os americanos…” Onde é que já ouvimos isto? Os povos têm a memória curta, mas há pelo menos um povo que não pode nem deve esquecer. Esse povo, o povo judeu onde me incluo, não se pode dar a esse luxo porque a factura foi incomensurável. Devíamos lembrar-nos de que os pretensos salvadores só trazem desgraças, que a procura de bodes expiatórios só fomenta a violência, que alimentar os sentimentos de superioridade nacional, religiosa ou de pele favorece o ódio e o ressentimento. E sobretudo, não devíamos esquecer que tratar cada individuo não como tal, mas como parte de um colectivo indistinto, no qual todos são à partida suspeitos ou culpados, para além de iníquo, é perigoso porque leva a que a resposta seja também colectiva, juntando pessoas que à partida nem se identificam com o grupo onde as encerram.

A retórica do “Nunca mais”, mais do que desacreditada, deveria ser substituída pela “Nós lembramo-nos”. Como judeus não podemos esquecer ao que levou a expressão Deutschland über alles – a Alemanha acima de tudo. Não podemos esquecer que fomos colectivamente o bode expiatório e colectivamente designados como o inimigo e causador de todos os males não só da Alemanha, mas do mundo; tudo isso estava já escrito e claro, em 1924, na obra-prima de Hitler – o Mein Kampf, mas ninguém ligou. Não podemos esquecer que quando precisávamos desesperadamente de uma porta aberta, quase todas se fecharam levando ao desfecho que se sabe. Não podemos esquecer que a estrada que pavimentou a tragédia foi a indiferença – hoje tanto mais gritante quando todos vemos, ouvimos e sabemos tudo o que se passa, em directo e no momento.

Diz-se que a história não se repete e de facto o contexto histórico que a produz é irrepetível. Mas a história dá-nos sinais que deveriam funcionar como alertas nas nossas consciências. As medidas tomadas por Donald Trump – nomeadamente a proibição de entrada nos EUA das pessoas originárias de países maioritariamente muçulmanos, colectivamente consideradas como potenciais terroristas, deveriam funcionar como um alerta. Do ponto de vista ético é uma medida iníqua e, politicamente, tem apenas como consequência o avolumar do ódio e da violência. Precisamente o inverso do que Trump alega pretender.

Sabemos que é assim que começa, mas não sabemos como acaba. Para mim é claro que a minha liberdade e a minha segurança nunca se realizarão à custa da liberdade ou da segurança de outros, sejam eles quem forem. Não tenho nenhuma dúvida que começando com muçulmanos, cristãos, negros, mexicanos ou chineses, eu também acabarei por ser atingida individual ou colectivamente. Basta ver que enquanto se processam as juras de amizade de Trump a Israel e aos judeus, sucedem-se ameaças de bomba por todos os Estados Unidos a centros comunitários judaicos, escolas e outras instituições judaicas – 18 ameaças apenas num mês, segundo a Jewish Telegraph Agency.

Não basta combater Trump, é preciso entendê-lo e ao novo mundo que ele de algum modo representa, escreve João Miguel Tavares, cujas crónicas leio regulamente com apreço. Acho que é verdade, só assim se pode entender como e porquê foi eleito, assim como as razões do reforço drástico dos extremos, da direita à esquerda em particular na Europa. Mas se é verdade que não devemos cair em falsas analogias, também não devemos ignorar os sinais da história. Estes têm pelo menos um condão: o de levar mais a sério as ameaças.

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