Academia propõe um registo ortográfico “adequado à variante portuguesa”

As alterações propostas ao acordo ortográfico são um documento aberto. A Academia das Ciências quer agora discuti-las.

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Artur Anselmo, presidente da Academia das Ciências de Lisboa JORNAL PÚBLICO

Depois da aprovado na Academia das Ciências de Lisboa, na quinta-feira, por 18 votos contra cinco, o documento Sugestões para o aperfeiçoamento do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa foi hoje divulgado à imprensa. Tem três pontos essenciais e estes dizem respeito à acentuação gráfica, às sequências consonânticas e ao emprego do hífen. A ACL diz, no documento, que se trata “de um primeiro trabalho”, no sentido de que se “avance com a sistematização de critérios e orientações” visando “uma maior regulação” e “na defesa de um registo adequado à variante portuguesa.”

O Presidente da ACL, Artur Anselmo, gostaria que este documento servisse de base a uma discussão mais alargada. “A Academia”, diz ele ao PÚBLICO, “propôs uma reunião de todas as organizações que trabalham com profissionais da escrita: PEN Clube, a Associação Portuguesa de Escritores, a Sociedade Portuguesa de Autores e seria bom que também participassem organismos representativos dos jornalistas.” Esta reunião, ainda sem data marcada, articula-se, diz, “com a audição a que eu serei sujeito, e com muito gosto, na Assembleia da República. Estou à espera que me digam quando.”

As alterações ao texto do acordo ortográfico de 1990 (AO90) propostas coincidem com as que já tinham sido parcialmente antecipadas na comunicação social: a diferenciação de pára e para; pélo (de pelar), pelo e pêlo; recupera-se a terminação -ámos no pretérito perfeito para distinguir do presente do indicativo, -amos (ex: falámos, falamos); aceita-se a dupla acentuação em palavras como oxigénio/oxigênio ou tónico/tônico, mas com delimitação geográfica clara (uns em Portugal, outros no Brasil); retoma-se o acento circunflexo na 3.ª pessoa do plural do presente do indicativo, crêem, lêem, vêem, em lugar do creem, leem, veem imposto pelo AO90; nas sequências consonânticas recuperam-se as palavras que eram iguais em Portugal e no Brasil e que mudaram só em Portugal (concepção, recepção, etc), sugere-se a manutenção da consoante dita muda em certas palavras “para evitar arbitrariedades” (característica, por exemplo, em lugar de caraterística) e nos casos onde ela tenha “valor significativo, etimológico e diacrítico” (conectar, decepcionado, interceptar), mas sugere-se que continuem eliminadas em casos como acionar, atual, batizar, coleção, exato, projeto.

Por fim, no uso do hífen propõe-se a sua manutenção nas “expressões com valor nominal”, ou palavras compostas, como maria-vai-com-as-outras, em formas como luso-brasileiro, em vocábulos onomatopaicos (au-au, lenga-lenga), e propõe-se que se escreva pára-choques, pára-brisas ou pára-raios, mantendo-se escritas aglutinadamente palavras como mandachuva, paraquedas ou paraquedista. Há mais propostas, mas estes tópicos dão já uma ideia do que a ACL pretende sujeitar à discussão pública.

Artur Anselmo não tenciona deixar morrer o tema. “Isto é como uma campanha: se se silencia, cai no esquecimento. Precisamos de avivar a questão fazendo reuniões, trocando impressões, criando uma onda que vai crescer e perante a qual o poder político terá de tomar uma posição.” Mas conscientemente, acrescenta: “Tudo o que fizermos tem de ser feito com muito juízo: firme, mas apoiado na ciência e na cultura.”

RECTIFICAÇÃO: No terceiro parágrafo dava-se, erradamente, como exemplo, pôr e por; quando essa distinção existia no acordo de 1945 e continuou a existir no acordo de 1990. No penúltimo parágrafo, quando se menciona lenga-lenga, convém dizer que há muitos anos que tal palavra já é escrita de forma aglutinada, sem hífen (lengalenga), pelo que a reposição aqui do hífen não faria sentido.