Opinião

Fraquezas e contradições da estratégia de May

É fácil desejar, em abstracto, uma separação amigável, como até a “dura” Theresa May diz querer (e eu também). Para Portugal é difícil ver aqui boas notícias.

A posição ambígua de Theresa May face ao "Brexit" ficou clarificada com este discurso. May assumiu uma posição dura relativamente à saída britânica da UE, temperada por palavras amáveis de circunstância. A primeira-ministra britânica está claramente entre aqueles ingleses – e sempre foram muitos, mesmo entre as elites – que olham para o resto da Europa e vêem sobretudo as diferenças.

A nostalgia dos tempos do império também se vislumbra quando May refere no discurso uma próxima cimeira da Commonwealth, como se esta comunidade britânica pudesse substituir a comunidade europeia. Londres tentou isso nas décadas de 1950 e 1960 e falhou. Hoje os países da Commonwealth estão ainda mais afastados de qualquer reverência a Londres, e muitos fazem parte de organizações económicos regionais.

Um discurso de ilusões? Tem um lado bem real. A inesperada chegada de May à chefia do Governo marcou a ascensão do Ministério do Interior face aos ministérios tradicionalmente dominantes na política britânica: as finanças (Treasury) e os negócios estrangeiros (Foreign Office). No Home Office, que May chefiava há anos, a prioridade era controlar fronteiras, impedir a emigração. Não é uma surpresa que o "Brexit" seja para May uma oportunidade de concretizar essa prioridade. O que não anula o facto de que a consequente linha dura face ao "Brexit" nada faz para reduzir as tensões no seio do próprio Reino Unido, onde a maioria dos eleitores em Londres, na Escócia e na Irlanda do Norte votaram por ficar na UE.

O temor do chefe da representação diplomática britânica em Bruxelas, que recentemente se afastou, era o de que, além disso, a dureza do Governo May impedisse de se ter em consideração que para umas negociações de sucesso do "Brexit" haveria que ter em conta os interesses dos outros membros da UE. Veremos.

Um problema central, porém, é que apesar da superficial clareza e dureza, a estratégia de May contém importantes contradições e fraquezas. Quer fechar fronteiras. Mas não com a Irlanda. Quer defender o trabalhador britânico. Mas ameaça, caso a UE não ofereça um bom acordo, com uma espécie de “zona franca” que arruinaria a base fiscal do estado providência britânico. Quer uma frente unida com o resto da Europa no campo da defesa. Mas a inaudita saída britânica da UE é apreciada por Putin como um sinal de fragmentação que pode fazer discípulos, tanto mais quanto o acordo obtido por Londres for visto como vantajoso.

É fácil desejar, em abstracto, uma separação amigável, como até a “dura” Theresa May diz querer (e eu também). Mas é muito difícil alcançar uma fórmula concreta para a obter. Para Portugal é difícil ver aqui boas notícias.