VW destruiu ficheiros e emails quando foi conhecido o "dieselgate"

Como parte do acordo do fabricante de automóveis face aos processos-crime e cíveis nos Estados Unidos, a Volkswagen concordou em declarar-se culpada de conspiração para defraudar o Governo e os consumidores e obstrução da Justiça, e a pagar mais de 4000 milhões de euros em multas.

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a Volkswagen concordou em declarar-se culpada de conspiração para defraudar o Governo e os consumidores e obstrução da Justiça, e a pagar pouco mais de 4000 milhões de euros em multas Reuters/CHRISTIAN CHARISIUS
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O caso dos Estados Unidos contra a Volkswagen expõe e sublinha um esquema audacioso que foi delineado em 2006 para vender mais carros a gasóleo nos Estados Unidos LUSA/FELIPE TRUEBA

O esquema utilizado pela Volkswagen ao longo da última década para ludibriar os testes de emissões nos Estados Unidos – enquanto publicitava os seus veículos como sendo amigos do ambiente – foi finalmente revelado publicamente em 2015. Uma campanha destinada a confundir as entidades reguladoras falhou tão estrondosamente que os executivos de topo do grupo prepararam um guião para os empregados usarem quando fossem interrogados.  

Tal não funcionou. No dia seguinte, 19 de Agosto de 2015, um empregado fugiu ao que estava definido no guião e pela primeira vez revelou aos reguladores que os carros a gasóleo afinal estavam construídos de forma a comportar-se de modo diferente durante os testes de emissões poluentes, isto de acordo com documentos apresentados em tribunal. Nos escritórios centrais na Alemanha, alguns executivos e engenheiros começaram a destruir documentos relacionados com as emissões nos Estados Unidos, e o director de desenvolvimento de motores da empresa disse a um assistente para se desfazer de uma placa de memória de computador que continha emails seus e de outros supervisores.    

Tudo isto foi exposto por delegados do Ministério Público dos Estados Unidos na última quarta-feira, quando apresentaram acusações contra cinco funcionários que, afirmam, foram essenciais na elaboração e execução do esquema. Como parte do acordo do fabricante de automóveis face aos processos-crime e cíveis nos Estados Unidos, a Volkswagen concordou em declarar-se culpada de conspiração para defraudar o Governo e os consumidores e obstrução da Justiça, e a pagar 4,3 mil milhões de dólares (pouco mais de 4000 milhões de euros) em multas. Os delegados do Ministério Público continuam a investigar exactamente que papel desempenhou cada um dos acusados e o processo continua aberto, afirmou na quarta-feira, em conferência de imprensa, a procuradora-geral norte-americana, Loretta Lynch.

Para além do director de desenvolvimento de motores, Heinz-Jakob Neusser, foram também acusados: Richard Dorenkamp, que liderou o projecto falhado de desenvolver um motor a gasóleo que obedecesse aos níveis de emissões mais apertados adoptados em 2007 pelos Estados Unidos e que fosse apelativo para os condutores; Jens Hadler, que chefiou o desenvolvimento dos motores entre 2007 e 2011; Bernd Gottweis, que foi responsável pela gestão de qualidade de 2007 a 2014; e Jürgen Peter, que trabalhou na equipa de Gottweis desde 1990 e que era uma das ligações da Volkswagen com as entidades reguladoras norte-americanas durantes os meses críticos em que estas se começaram a mostrar mais desconfiadas. 

Um sexto homem, Oliver Schmidt, que fazia a ligação da empresa com os reguladores norte-americanos, foi preso no passado fim-de-semana, quando tentava regressar à Alemanha após ter passado férias na Florida. Schmidt, que também é acusado de ter participado no alegado esquema, deverá comparecer perante o tribunal na próxima quinta-feira em Miami. Neusser e os outros quatro encontram-se na Alemanha, e Loretta Lynch disse que não sabia exactamente como é se iria proceder no seu caso.

Em comunicado, o director executivo da Volkswagen Matthias Mueller declarou: “A Volkswagen lamenta profundamente o comportamento que deu origem à crise do diesel. Iremos continuar a proceder a alterações na nossa maneira de pensar e de trabalhar.” No rescaldo do escândalo a VW suspendeu ou afastou cerca de uma dúzia de executivos, incluindo o antigo director executivo Martin Winkerton, que negou qualquer conhecimento em relação à fraude. Uma porta-voz da Volkswagen recusou-se a tecer comentários sobre qual a situação contratual e laboral dos homens que foram acusados na quarta-feira.

Os advogados de Neusser e Dorenkamp não responderam aos pedidos para comentarem a situação. Não foi possível contactar os representantes dos outros indivíduos.

O caso dos Estados Unidos contra a Volkswagen expõe e sublinha um esquema audacioso que foi delineado em 2006 para vender mais carros a gasóleo nos Estados Unidos, apesar dos níveis de emissões mais rigorosos que estavam para ser adoptados. Era um objectivo importante para a empresa-mãe e Dorenkamp e Hadler pertenciam a uma equipa que estava a desenvolver um novo motor a diesel que era uma pedra-chave do que viria a ser conhecido como o projecto “US’07”, isto de acordo com o documento de acusação.

Mas não conseguiram conceber um motor que tanto obedecesse às novas regras de emissões como atraísse novos clientes. Assim, apesar de receios expressos por alguns funcionários da VW, foi autorizada a criação e produção de software que reconhecesse quando o veículo estava a ser submetido a testes e mudasse para emissões de gases mais baixas, afirmam as autoridades.

A 17 de Outubro de 2007 uma imagem que explicava a fraude em termos técnicos explícitos foi mostrada a Hadler e outros elementos, tendo ele respondido, em alemão: “Nunca mostraremos isto em lugar algum e não iremos distribuí-lo.” Um mês depois, Hadler enviou um email para Dorenkamp que incluía fotografias de si próprio a posar ao lado do então governador da Califórnia, Arnold Schwarzenegger (do Partido Republicano), num evento onde os carros da VW foram promovidos como o “diesel ecológico”.   

O plano começou a descarrilar em 2014, quando um laboratório da Universidade da Virgínia Ocidental notou grandes disparidades nos testes de emissões da VW. Os reguladores dos Estados Unidos e da Califórnia pressionaram a Volkswagen para obterem explicações, e Neusser, Gottweis, Schmidt e Peter “seguiram uma estratégia de ocultar o sistema de alteração quando respondiam às perguntas das entidades reguladoras dos Estados Unidos, embora parecendo cooperar”, segundo se pode ler nos documentos. 

Em Junho de 2015 Peter escreveu aos empregados da Volkswagen, afirmando que precisavam de pensar em “boas ideias” para responder aos reguladores quando estes viessem fazer perguntas acerca das discrepâncias nas emissões. Foi dada uma oportunidade a Schmidt, que, num encontro com a entidade reguladora do ambiente californiana, justificou aqueles resultados como sendo “irregularidades” e “anomalias”.  

Mais tarde explicou por que razão não trazia outros colegas seus para estas reuniões: para que eles “não tivessem de mentir intencionalmente”. 

*Com Ryan Beene e Christoph Rauwald

PÚBLICO/Bloomberg