Torne-se perito

Kerry reencontrou-se com a sua história no Delta do Mekong

Secretário de Estado regressou ao local onde a lancha que comandava foi alvo de emboscada em 1969. Encontrou-se com um dos atacantes e descobriu a identidade do guerilheiro que matou.

Fotogaleria
“Estou feliz por estarmos ambos vivos”, disse Kerry ao antigo inimigo Vo Ban Tam Alex Brandon/Reuters
Fotogaleria
Reuters/POOL
Fotogaleria
Reuters/POOL
Fotogaleria
Reuters/POOL
Fotogaleria
Reuters/POOL
Fotogaleria
Reuters/POOL
Fotogaleria
Reuters/POOL

Em mangas de camisa e de óculos de sol a esconder-lhe parte do rosto, o secretário de Estado norte-americano, John Kerry, regressou no sábado ao Delta do Mekong, na ponta sudoeste do Vietname, e ao local exacto onde, em 1969, a lancha que comandava caiu numa emboscada – a sua reacção ao ataque valeu-lhe várias condecorações mas foi só agora, quase meio século depois, que ficou a saber a identidade do guerrilheiro vietnamita que matou nesse dia.

A emotiva viagem pelas águas castanhas do Mekong – “estranha”, “um pouco surreal”, admitiu Kerry – aconteceu a dias de abandonar a liderança da diplomacia norte-americana, quatro anos em que se empenhou, como já antes tinha feito enquanto senador, na aproximação ao antigo país inimigo, hoje um importante parceiro comercial. Uma peregrinação que serviu também como corolário da vida pública de Kerry que, no regresso aos Estados Unidos após a sua comissão militar, se tornou uma das principais vozes na denúncia da política americana, liderando a associação de veteranos contra a guerra.

A correspondente do Washington Post escreveu que Kerry, na proa da pequena embarcação em que cruzou o rio, quase parecia ter regressado a 1969, “com o vento a insuflar-lhe as mangas da camisa e os olhos virando-se ora para a esquerda ora para a direita na direcção das margens ensombradas pela densa folhagem”. Era entre as ervas altas que se escondiam os homens do Vietcong, a guerrilha comunista que actuava no Sul do Vietname, esperando pelas lanchas de patrulha da Marinha americana.

“Éramos guerrilheiros. Nós nunca estávamos no local para onde vocês disparavam”, recorda agora Vo Ban Tam, um dos homens que naquele dia 28 de Fevereiro participou na emboscada à lancha em que seguia o então tenente John Kerry, de 26 anos. Kerry, agora com 73 anos, Tam, de 70, nunca se tinham encontrado cara a cara – segundo o jornal norte-americano o antigo guerrilheiro foi localizado por funcionários consulares dos EUA “que o convidaram a encontrar-se com o actual secretário de Estado que um dia tentou matar”.

Foi à beira da água, num pontão rodeado de embarcações que o agora criador de marisco recordou como os guerrilheiros planearam a emboscada: iriam disparar contra a lancha, forçando-a mudar a trajectória e colocando-a ao alcance de um lança-granadas. Um assalto que só não atingiu o seu objectivo porque Kerry saltou da lancha e, armado com uma espingarda matou o guerrilheiro que transportava a arma – pela acção Kerry foi condecorado com o Purple Heart, atribuída a actos de bravura, uma das quatro que recebeu durante a sua comissão.

Quando em 2004 concorreu à presidência norte-americana contra George W. Bush, um grupo de veteranos questionou a valentia das acções de Kerry, sugerindo que o guerrilheiro que ele matou não passaria de um adolescente, que mal sabia empunhar uma arma. Tam garante que não era verdade. Respondendo às perguntas através de um tradutor, revelou que o homem que Kerry matou se chamava Ba Thanh, tinha 24 anos, e “era um bom soldado”, uma condição imprescindível para manobrar os lança-granadas R-40.

“Estou feliz por  estarmos ambos vivos”, respondeu-lhe Kerry, num aperto de mão que encerrou 48 anos de história e mostrou o enorme caminho percorrido pelos dois países. “É muito poderoso que veteranos dos dois lados da guerra possam agora ser amigos e trabalharem juntos com o mesmo objectivo de reforçar as suas relações”, escreveu o secretário de Estado na sua conta do Twitter.

Esta foi a quarta visita de Kerry ao Vietname desde que assumiu a chefia da diplomacia americana e, na mistura dos papéis passados e presentes, é juntamente com o senador John McCain, que foi prisioneiro de guerra, um dos políticos estrangeiros mais populares no país. “Ele olha para o Vietname como um dos grandes feitos da sua carreira política”, contou ao Washington Post o amigo Tom Vallely.

O também amigo de infância e conselheiro David Thorne contou ao mesmo jornal que vê na carreira de Kerry uma metáfora da história recente dos dois países. Depois de todo o horror, “é um pequeno milagre que tenhamos encontrado um caminho de regresso, um caminho de reconciliação”. 

 

 

 

Sugerir correcção