Opinião

A Turquia e o Curdistão: dividir para dominar

A intervenção militar russa na Síria levou ao falhanço do grande objectivo de mudar o regime de Bashar al-Assad — a ideia era colocar no seu lugar um regime cliente sunita.

1. A Turquia tem vários objectivos estratégicos no Iraque pós-Saddam Hussein. Um primeiro é contrabalançar a influência xiita, um canal privilegiado de projecção de poder do vizinho Irão. Essa influência é nítida no actual governo federal iraquiano chefiado por Haider Al-Abadi do Partido Islâmico Dawa — um partido xiita e pró-iraniano. O segundo é diversificar as suas fontes de abastecimento de energia, e, especialmente, diminuir a dependência da Rússia nesse fornecimento. Para isso, e tendo o atractivo de ser a maior economia da região, procura reforçar as ligações económicas e comerciais com o Iraque, em particular com o Curdistão iraquiano, com o qual tem uma continuidade geográfica e religiosa. (Se as divisões étnicas opõem turcos e curdos, já a religião é uma fonte de proximidade: ambos os povos são muçulmanos e maioritariamente sunitas.) Um terceiro é evitar que o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), novamente em guerra com o Estado turco, consiga manter bases do lado iraquiano — seja nas montanhas Qandil próximas da fronteira com o Irão, seja nas montanhas Sinjar, próximas da Síria. Em ambos os casos tais zonas montanhosas, situadas em território iraquiano, estão muito próximas da fronteira turca. S��o um refúgio natural para os grupos que operam em guerrilha, como o PKK, pondo-os ao abrigo das incursões de exércitos terrestres e dos bombardeamentos aéreos.

2. É no contexto da tentativa de prossecução destes objectivos que se enquadra a recente visita do Primeiro-Ministro da Turquia, Binali Yildirim, ao Iraque e ao Curdistão iraquiano. No âmbito desta, decorreram encontros quer com o Primeiro-Ministro do governo federal do Iraque, Haider Al-Abadi, quer com o Primeiro-Ministro do Governo Regional do Curdistão, Nechervan Barzani. O encontro com este último — a par dos habituais encontros com o Presidente do Curdistão iraquiano, actualmente Massoud Barzani —, denota essa vontade de aproximação e de ter um canal de influência na política iraquiana e curda. O Partido Democrático do Curdistão, dominado pelo clã Barzani, tem sido o interlocutor privilegiado pelos sucessivos governos turcos desde os anos 1990. Entre as várias razões dessa preferência está a questão curda da Turquia e o PKK. A União Patriótica do Curdistão iraquiano — partido dominado pelo clã Talabani —, tem mostrado uma certa simpatia política por este. Basta lembrar, por exemplo, que em 2015 esse partido curdo iraquiano propôs o reconhecimento do PKK pelo parlamento do Iraque, como força de oposição política turca a actuar dentro do país. Naturalmente que essa iniciativa desagradou profundamente ao governo turco, o qual qualifica o PKK como grupo terrorista e não como opositor político.

3. Não está isenta de riscos importantes a estratégia da Turquia face aos curdos, de proximidade com o Governo Regional do Curdistão iraquiano, nesta altura dominado pelos Barzani. Desde logo porque existem fortes ambições independentistas no Curdistão iraquiano. Estas, a concretizarem-se, não deixariam de ter repercussões em todas as populações curdas (e noutros territórios com similares ambições de soberania.) Seriam um precedente importante para as reivindicações de mais autonomia / independência existentes entre os curdos da Turquia. Obviamente que o governo turco não quer isso. No entanto, no actual contexto político, há razões de circunstância para uma aproximação oportunística. Como já referido, a Turquia quer contrariar a influência do Irão no Iraque, especialmente na zona do Curdistão iraquiano, que aumentou com a guerra na Síria e o combate ao Daesh. Vê essa região sob um duplo prisma: o da segurança do seu território, devido à existência de população curdas de ambos os lados da fronteira; e o dos direitos históricos que tem sobre este, devido à sua pertença ao antigo Império Otomano. Isso é especialmente evidente no caso da região de Mossul, perdida para os britânicos nos dias finais da I Guerra Mundial. (Perda só aceite juridicamente após a decisão arbitral da Sociedade das Nações em 1925, confirmando a situação de facto.) Com as ambições neo-otomanas de Recep Tayyip Erdogan, o Curdistão iraquiano volta a estar nos objectivos de domínio / influência turca.

4. É também necessário olhar também para o jogo estratégico dos curdos do Iraque, especialmente do Partido Democrático do Curdistão, dominado pelo clã Barzani, actualmente no poder. Tem de ser entendido no contexto das rivalidades existentes entre os próprios curdos e da luta de poder dentro do Iraque. O governo e os militares turcos sabem que os curdos não são uma realidade homogénea. Há divisões linguísticas, culturais e políticas mais ou menos acentuadas. Como já referido, a estratégia é exacerbá-las. Procuram usar o Partido Democrático do Curdistão contra a União Patriótica do Curdistão. Procura também usar os curdos — especialmente nesta altura em que os Barzani estão no poder —, para contrabalançar o governo federal iraquiano, ou seja, a influência xiita e iraniana. Estes últimos, por sua vez, querem da Turquia apoio financeiro e político, aberto, ou dissimulado, para as suas próprias lutas internas (intra-curdas). Ao mesmo tempo, tentam usar a Turquia como contrapeso à ambição centralizadora do governo federal de Bagdad. Naturalmente que a Turquia não está nada preocupada com o centralismo de Bagdad — até o apoiaria facilmente se lhe fosse politicamente favorável —, mas pretende contrariar a influência xiita e iraniana que nele se projecta. Neste quadro complexo, o Governo Regional do Curdistão tem ainda um trunfo importante. Sabe que, para a Turquia, seria muito útil a sua mediação de conflitos com populações curdas, quer no seu próprio território, quer na vizinha Síria.

5. Neste jogo de instrumentalizar e dividir para dominar, para já os interesses turcos e do Governo Regional do Curdistão Iraquiano vão convergindo. Mas pode não ser por muito tempo. A realização de um referendo para a independência do Curdistão iraquiano — algo que periodicamente Massoud Barzani diz ser necessário —, deixaria a Turquia numa situação muito delicada. Provavelmente teria de enfrentar similar reivindicação dos seus próprios curdos. Para além disso, existiriam repercussões nos curdos da Síria. Aí, com a derrota militar do Daesh cada vez mais próxima, os curdos do Partido da União Democrática e a sua ramificação militar, as Unidades de Protecção Militar (YPG), tornaram-se um actor importante. Foram fundamentais na resistência aos avanços do Daesh em 2014 e 2015. Para complicar mais a situação para a Turquia, têm boas relações com a Rússia e os EUA. O factor curdo foi, certamente, uma das razões da aproximação turca à Rússia, numa reviravolta da sua política externa. A intervenção militar russa na Síria levou ao falhanço do grande objectivo de mudar o regime de Bashar al-Assad — a ideia era colocar no seu lugar um regime cliente sunita. Agora o objectivo turco é menos ambicioso: ter uma esfera de influência na Síria, na sua zona fronteiriça, eliminando as pretensões de autonomia dos curdos sírios que possam contagiar os seus próprios curdos. Para isso, precisa de um entendimento com a Rússia (e Irão) nas negociações de paz que deverão decorrer no Cazaquistão, sob iniciativa russo-turca. Mas, neste cenário, há ainda uma variável importante difícil de antecipar: até onde irá o apoio aos curdos na futura política externa dos EUA para o Médio Oriente.