Como Obama comprometeu o seu legado

Em oito anos, os EUA não se tornaram um país diferente, mas houve progressos assinaláveis. Numa presidência repleta de conquistas, foi no aspecto político que o Presidente fracassou. Despede-se dos americanos e do mundo, num discurso em Chicago.

Kevin Lamarque/Reuters
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Kevin Lamarque/Reuters

Em oito anos de presidência, nunca se viu Barack Obama tão triste como no dia 16 de Dezembro de 2012, quando teve de se sentar na primeira fila de um ginásio de uma escola de Newtown, no Connecticut, para assistir à cerimónia em memória das 20 crianças e seis adultos mortos a tiro num ataque na escola primária de Sandy Hook. Na Casa Branca, Obama coleccionou uma série de derrotas políticas e teve a sua quota de frustrações e desilusões. Mas arrependimento só confessou um: o de não ter conseguido fazer mais para que nenhum outro Presidente tenha, nunca mais, de encarar os pais de crianças que não tiveram direito a um futuro porque os políticos de Washington não souberam entender-se para aprovar uma lei.

É a grande mágoa de Barack Obama, que demasiadas vezes teve de confortar o país depois de mais um tiroteio sem sentido, e enfrentar as famílias das vítimas com pouco mais para lhes oferecer do que a sua compaixão e a promessa de acções executivas de alcance limitado. “Independentemente das questões políticas, vamos ter de tomar medidas”, declarou ao país, no dia seguinte à tragédia do Connecticut. Nada feito.

A revisão da legislação para controlar o acesso às armas de fogo não era uma das prioridades, nem um combate político que antecipasse ter de travar, quando foi eleito para a Presidência dos Estados Unidos, em 2008. Nessa altura, o país estava envolvido em duas guerras e o colapso do banco Lehman Brothers ameaçava arrastar a América para uma “Grande Recessão”. Obama prometera pôr termo às guerras e reconstruir o país, “tijolo por tijolo, quarteirão por quarteirão”, acabando com a divisão entre “estados azuis e estados vermelhos” - democratas e republicanos - e iniciando uma nova forma de fazer política em Washington.

Em oito anos, levou a cabo algumas mudanças profundas nos EUA. O Presidente definiu políticas e assinou legislação a todos os títulos histórica. Mesmo assim, na hora do balanço, é a angústia que sentiu em Newtown que persiste – a expressão é melodramática, mas o massacre de Sandy Hook partiu-lhe o coração. “A cada vitória ou percalço, insisti sempre que a mudança não é fácil nem rápida; sabia que não responderíamos a todos os nossos desafios num mandato, uma presidência, ou mesmo uma vida. E apesar de tudo o que fizemos, ficaram tantas coisas que queria ter feito, principalmente ter tomado medidas que protegessem os nossos miúdos e os nossos polícias de tiroteios como os de Newtown”, declarou numa carta escrita ao povo americano na passada sexta-feira.

Esta terça-feira, o Presidente faz o seu definitivo discurso de despedida, em Chicago (quando forem duas da manhã em Lisboa), a cidade que adoptou como sua e onde celebrou a sua histórica eleição perante uma multidão exultante e esperançosa com a mudança que a sua improvável chegada à Casa Branca representava para a América. “Obama será sempre uma figura importante simplesmente pelo facto de que foi o primeiro Presidente afro-americano, e penso que esse é um factor significativo e que diz muito sobre a vitalidade do sistema de democracia americana. Mas obviamente muita gente ficou profundamente descontente com isso”, ressaltou ao PÚBLICO John Harper, catedrático da Johns Hopkins School of International Advanced Studies e especialista em política externa americana.

Esse descontentamento manifestou-se na mais virulenta e intransigente oposição de que há memória. De certa maneira, a impotência de Obama após Sandy Hook fixa o momento em que se resignou, dolorosamente, aos limites da sua acção e da sua capacidade de influência. Nesse aspecto, a sua presidência será avaliada como o esforço de um homem sincero, bem-intencionado, eloquente e comprometido que tentou encontrar soluções pragmáticas para alguns dos problemas mais complexos do quotidiano norte-americano – da violência armada às tensões raciais ou à desigualdade económica – e esbarrou quase sempre contra um muro. E como repetia durante a campanha de 2008, não se pode estar sempre a bater com a cabeça no muro e esperar um resultado diferente.

“Desde o primeiro dia, a estratégia do Partido Republicano foi o obstrucionismo. Foram muito firmes com isso, tornaram tudo tão difícil quanto possível, e ganharam a eleição. Pode argumentar-se que Obama poderia ter sido mais confratacional, mais agressivo na defesa da sua agenda. Mas manifestou sempre uma grande aversão ao conflito, e penso que isso foi um problema para ele”, considerou o professor da Universidade George Washington especializado em políticas públicas e administração, Edward Berkowitz.

Apesar do terreno minado, o Presidente não desistiu de levar a sua avante, contornando os obstáculos do Congresso e abrindo caminho à mudança com acções executivas. E por isso, muitas das suas políticas, em matérias que vão da protecção ambiental à normalização diplomática com Cuba, parecem agora vitórias tão precárias. “É difícil dizer como Obama vai ser lembrado ou qual será o seu principal legado. É demasiado cedo para essa avaliação porque ainda temos de perceber o que vai acontecer às suas principais iniciativas: será que o acordo do clima de Paris vai resistir, o Obamacare está em risco, o que vai acontecer às relações EUA/China?”, questiona-se John Harper.

“Obama foi um Presidente tremendamente consequente. Onde ele fracassou foi no aspecto político da presidência”, salienta o historiador Allan Lichtman, o especialista em política presidencial da American University que se notabilizou, na última campanha eleitoral, por prever contra a corrente das sondagens a eleição de Donald Trump. “Ele não seguiu a lição do grande e icónico Presidente democrata Franklin Roosevelt: é muito importante ser um decisor político, mas é mais importante solidificar o partido se queremos que essas políticas perdurem”, sublinha ao PÚBLICO, ao telefone desde Washington.

Roosevelt construiu um Partido Democrata que dominou a política norte-americana até 1980 (e depois, Ronald Reagan fez o mesmo pelo Partido Republicano). Quando Obama tomou posse, os democratas prevaleciam em Washington; agora deixa o poder com os republicanos na presidência, na maioria no Congresso e em breve no Supremo Tribunal, além de que têm a grande maioria dos governadores e das legislaturas estaduais.

“Embora Obama seja extremamente eloquente – realmente um excelente orador capaz de comover uma plateia –, não foi tão capaz de levar as pessoas com ele: foi incapaz de ter o apoio do Congresso, foi incapaz de eleger Hillary Clinton como a sua sucessora. Existe uma aura especial em torno dele, mas que é só dele: não é do Partido Democrata, não é das forças progressistas ou do liberalismo. Tem tudo a ver com ele, e penso que isso é um fracasso, ou uma fraqueza”, concorda Berkowitz.

Ainda assim, o legado político e legislativo de Barack Obama é impressionante. “Sem dúvida que nos seus oito anos na Casa Branca Obama coleccionou grandes sucessos”, refere Allan Lichtman. “Não podemos subestimar quão importantes as suas acções foram no salvamento da economia americana, mal tomou posse. Merecerá todo o crédito pela sua acção decisiva para impedir o desastre financeiro, e talvez até a queda numa nova Grande Depressão: apresentou ao Congresso legislação destinada a impedir a repetição de outra catástrofe financeira como a que aconteceu em 2008, e foi fundamental no resgate à indústria automóvel, que hoje em dia está pujante”, lembra.

“Além disso, trabalhou muito naquele que é porventura o desafio mais importante que a humanidade enfrenta e que são as alterações climáticas. Foi um líder nos acordos de Paris, onde pela primeira vez o mundo inteiro comprometeu-se a tomar medidas para travar o aquecimento global, e apesar de toda a obstrução republicana, usou acções executivas para cortar as emissões de dióxido de carbono e proteger o ambiente. Adicionalmente é bem capaz de ter evitado uma guerra, ou pelo menos uma corrida às armas nucleares, no Médio Oriente, e depois de anos de isolamento, abriu a porta (ainda que tenha sido a porta das traseiras) a Cuba”, prossegue Lichtman, que perante esta lista retira uma conclusão: “Foi um excelente Presidente”.

A aprovação da reforma do sistema de saúde, o Affordable Care Act rebaptizado como Obamacare pelos seus detractores, ficará na História como a mais importante e significativa acção legislativa de Obama – “independentemente do que venha a acontecer” com a reforma da saúde, considera Lichtman. Nenhum outro Presidente dos EUA depois de Lyndon Johnson, que lançou o programa Medicare em 1965, foi capaz de fazer aprovar uma alteração tão profunda na lógica dos programas de protecção social, para incluir no sistema milhões de cidadãos que não tinham acesso a cuidados básicos de saúde – vários tentaram mas só Obama conseguiu. “Era considerado o triângulo das Bermudas. Mas ele fixou o seu objectivo e levou a reforma até ao fim”, diz Berkowitz.

Também para Michael Barone, do think tank American Enterprise Institute, o ACA está no topo da lista de sucessos do Presidente. “O Obamacare foi o principal feito da sua Administração”, respondeu o e colunista conservador ao PÚBLICO, por email. Mas tal como o acordo para a limitação das actividades nucleares do Irão, que considera o outro grande sucesso negocial de Obama, “é impopular junto da opinião pública e a actual maioria do Congresso, e corre o risco de ser revisto ou substituído”.

A assinatura do acordo nuclear com o Irão é, para todos estes analistas, a grande iniciativa de impacto mundial da Administração Obama. Tal como Allan Lichtman, que chama a atenção para o contraste que o Presidente representou em termos de política externa para o seu antecessor George W. Bush, John Harper entende que a grande distinção de Obama foi a sua recusa em envolver os EUA em novas missões de guerra no estrangeiro. “Ele evitou novos compromissos militares que poderiam revelar-se desastrosos. Com a excepção da Líbia, que ele próprio admite que foi um erro e teria feito de outra maneira, penso que isso é significativo”, diz.

“Uma das áreas onde Obama demonstrou mais a sua aversão ao risco foi na política externa”, aponta Berkowitz. Essa postura alimentou controvérsias, tanto com a oposição como até dentro da Administração, onde coexistiam correntes de opinião divergentes sobre a guerra da Síria e o combate ao Daesh. “Pessoalmente, penso que a decisão de Obama em não intervir na Síria foi correcta. Também é criticado por não ter deixado tropas no Iraque, mas a razão pela qual os soldados americanos foram retirados do país em 2011 foi porque o Governo de Bagdad não os queria lá. Infelizmente, teria sido mais prudente manter algumas tropas – mas não sei se isso teria necessariamente mudado o curso da História. Penso que o Daesh teria emergido de qualquer maneira, e por isso penso que é ridículo culpá-lo pela ascensão do Estado Islâmico”, conclui John Harper.