Quando os bairros históricos de Lisboa quase foram demolidos

Um surto de cólera no século XIX quase levou à destruição de Alfama, Bairro Alto e Mouraria.

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O bairro lisboeta de Alfama Enric Vives-Rubio

A pandemia de cólera invadiu Portugal pela primeira vez em 1833. Chegou com a embarcação London Merchant, que trouxe ao Porto o general Jean-Baptiste Solignac, comandante das forças liberais na Guerra Civil Portuguesa de 1828 a 1834, e cerca de 200 militares, que vinham integrar as fileiras do exército liberal. “Num ápice, a doença estendeu-se a Aveiro, e, em Abril do mesmo ano, já era noticiada em Lisboa, com os primeiros registos de morte no Hospital de São José”, refere um documento da Direcção Geral da Saúde.

“É difícil contabilizar ao certo o número de mortes da cólera”, diz-nos a historiadora Teresa Rodrigues, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH) da Universidade Nova de Lisboa, que publicou o livro Viver e Morrer na Lisboa Oitocentista (Migrações, Mortalidade e Desenvolvimento).

Um dos grandes picos aconteceu em Junho e Julho de 1833, período em que se fizeram cinco cemitérios provisórios: o de Campo de Ourique (com 2268 campas), o dos Prazeres (1273 campas), o de Almeirões (4624), o do Alto de São João (3366) e da Graça (1992). “O número total oficial de mortes foi 13.523”, informa Teresa Rodrigues.

Também a década de 50 do século XIX foi marcada por uma forte epidemia de cólera. Em Lisboa a doença tornou-se praticamente endémica. “Um novo surto surgiu em Outubro de 1855, com cerca de 54 casos. Depois tornou-se benigna até Abril de 1856 e o número de casos voltou a subir até Agosto, quando aconteceu um novo pico. Extinguiu-se no início de Novembro. Houve 2997 mortes [em 1856], um terço do total de óbitos desse ano [no país todo]”, conta Teresa Rodrigues.

no artigo A sanitarização do imaginário urbano e o crescimento de Lisboa na segunda metade do século XIX, da historiadora de arte Joana Cunha Leal, também da FCSH, percebe-se como a cidade estava a mudar devido à cólera e à febre-amarela. “A intervenção urbana é causada pelo medo de contágio e pela falta de higiene”, explica a historiadora, referindo-se aos planos para reformular a capital.

Por isso, a 10 de Dezembro de 1857, organizou-se o Congresso Sanitário para que se tomarem as “providências higiénicas e preventivas adoptadas pelo Governo de sua Majestade”. Em relatórios dos anos seguintes propunha-se a criação uma cidade nova, com melhorias no sistema de esgotos e abastecimento de água ou até mesmo na largura das ruas.

Mas a maior decisão incidia nos bairros hoje históricos, devido ao grande número de pessoas a viver aí em más condições. “Queriam demolir os bairros históricos, como a Mouraria, Alfama e o Bairro Alto. Todos esses bairros estiveram condenados”, diz Joana Cunha Leal. Os projectos acabaram por ir água abaixo com a crise económica de 1867, que levou a grandes cortes orçamentais no Ministério das Obras Públicas.

Já no século XX, nos anos 70, ainda houve dois surtos de cólera em Portugal. A 15 de Setembro de 1971 foi detectado o primeiro caso num bairro degradado da margem Sul do Tejo e o foco demorou a debelar alguns meses.

A maioria da população não tinha rede de abastecimento de água tratada nem tratamento de esgotos. “Para uma população de cerca de um milhão e meio de habitantes do distrito de Lisboa, apenas havia no concelho de Loures uma estação de tratamento [de águas residuais] para 50 mil pessoas”, lê-se no texto Cólera em Portugal na década de 70 no século XX, de Patrícia Moreno, no site Médicos e Saúde em Portugal.

Para o combate da cólera, a população foi vacinada e divulgaram-se medidas de higiene pela rádio e televisão.

Mas a história da cólera não acabou ali. A 24 de Abril de 1974, ainda devido às más condições sanitárias, foi detectado um caso em Tavira. A cólera passou depois para Lisboa, Porto, Aveiro e Braga, entre outras cidades. Hoje a cólera já não é um problema em Portugal.