Investigadores querem lei que obrigue portugueses a consumir sal com iodo

Autores do estudo que detectou carências de iodo entre as crianças portuguesas vão ser ouvidos no Parlamento. A fortificação universal do sal com iodo é recomendada há mais de duas décadas pela OMS.

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Em nenhuma das cantinas das escolas envolvidas no estudo era usado sal iodado, apesar das recomendações da tutela enric vives-rubio

Legislar para que seja obrigatório que o sal que os portugueses consomem contenha iodo é uma das várias propostas que os investigadores do projecto IoGeneration, que fez um estudo sobre a deficiência deste micronutriente em crianças, vão apresentar nesta quarta-feira na Comissão Parlamentar da Saúde.

Os investigadores vão pedir aos deputados que iniciem a discussão para a criação de legislação sobre a fortificação universal do sal com iodo, de forma a que sejam atingidos os níveis recomendados, garantindo, ao mesmo tempo, que não são ultrapassados os limites diários impostos ao consumo de sal por pessoa. A fortificação universal do sal com iodo como principal medida para prevenção e controlo dos distúrbios originados pela deficiência deste micronutriente é recomendada há mais de duas décadas pela Organização Mundial de Saúde (OMS).

Sublinhando que a deficiência de iodo é um grave problema de saúde pública, Conceição Calhau, investigadora principal do IoGeneration , defende que, além da legislação,  há outras “acções que são imperativas”, como a divulgação e a comunicação sobre este problema que ainda é “muito desconhecido em Portugal”. É ainda fulcral, diz, monitorizar a situação para perceber se as recomendações estão ou não a ser cumpridas.

“Queremos resolver um problema que tem sido silenciado em Portugal. Queremos que seja colocado na agenda política”, afirma. Devido à inadequada ingestão de iodo as crianças “não nascem com o potencial máximo de desenvolvimento” do sistema nervoso central, afirma. Isto “quando este problema é facilmente prevenível”, prossegue Conceição Calhau.

Em Portugal, as carências deste micronutriente são conhecidas desde há algum tempo. Ao longo dos últimos 10 anos, foram sendo publicados resultados de estudos que apontam para a carência de iodo quer em grávidas, quer em crianças. Um deles, divulgado em 2010, do Grupo de Estudo da Tiróide da Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, com uma amostra de 3631 grávidas em 17 maternidades do interior, litoral e regiões autónomas, mostrava que 83% das mulheres tinham valores de iodo inferiores aos recomendados.

32% das crianças com carência

Face a esta evidência epidemiológica, em 2013, a Direcção-Geral da Saúde emitiu uma orientação recomendando a prescrição de suplementos com iodo às mulheres antes da gravidez, durante a gravidez e durante a amamentação, enquanto a Direcção-Geral da Educação fez sair uma circular em que determinava que os refeitórios das escolas deviam usar apenas sal iodado.

Três anos depois, os resultados do estudo efectuado pelo IoGeneration (que avaliou 2018 crianças, entre os seis e os 12 anos, de 83 escolas do Grande Porto, do Tâmega e de Entre Douro e Vouga) permitiram perceber que estas recomendações não surtiram grande efeito. Em nenhuma das cantinas das escolas envolvidas no estudo era usado sal iodado, 68% dos pais desconheciam a existência de sal iodado, apenas 2% o usavam em casa e 32% das crianças tinham níveis insuficientes deste micronutriente.

Persiste, lamenta Conceição Calhau, um grande desconhecimento sobre este matéria. O iodo  é um micronutriente essencial à síntese das hormonas da tiróide, as quais são cruciais para o neurodesenvolvimento. A deficiência de iodo compromete este desenvolvimento em qualquer fase da vida mas, quando isto acontece durante a gravidez ou nos primeiros anos de vida, o impacto será mais evidente, porque estas são as fases de maior relevância no neurodesenvolvimento.

O problema não é um exclusivo português. No mundo, um terço das crianças têm deficiência de iodo e os países têm tentado encontrar várias soluções para prevenir este problema.

O projecto IoGeneration durou um ano, foi liderado por uma equipa do Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde (CINTESIS) da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto com a colaboração da Cooperativa de Ensino Superior Politécnico e Universitário e da Faculdade de Ciência e Tecnologia da Noruega.