Torne-se perito

"Ainda há pobres a dez minutos de minha casa”

Maria Filomena Mónica ficou espantada ao encontrar no seu diário de adolescente um sentimento de indignação contra a pobreza que ainda a caracteriza. No livro Os Pobres, que acaba de lançar, a investigadora traça o percurso percorrido desde que se “encarava a pobreza como fenómeno natural”.

Foto
Maria Filomena Mónica na Rua dos Sete Moinhos, em Lisboa: foi neste bairro que a autora descobriu os pobres Enric Vives-Rubio

A cada menina do colégio católico onde Maria Filomena Mónica andava era atribuído um pobrezinho. A sua pobre chamava-se Adriana, tinha um filho chamado Mário que não tinha sapatos. A barraca deles era feita de zinco e madeira, o chão era de terra batida e ela, que vivia numa casa com governanta e três criadas, nunca tinha visto nada assim.

O dia em que descobriu os pobres ficou registado num diário vermelho de letras douradas que encontrou quando quis mostrar a uma adolescente da família como os problemas nessas idades são, afinal, tão parecidos. Mas nem todas as adolescentes seriam iguais a Maria Filomena Mónica. Ficou espantada ao encontrar já nestas suas linhas, escritas aos 16 anos, em 1959, um sentimento de indignação contra as injustiças sociais que ainda é seu, agora que tem mais de 70 anos.

“Eu, quando lá vou, sinto-me culpada por tudo, sinto-me egoísta.”. “Os ricos continuam egoístas, comodamente instalados, ‘católicos’, quando Nosso Senhor disse para darmos a quem tem fome, a quem estivesse nu.” “E por que se gasta 100 contos numa festa e não se tem remorsos por haver pobres, miseráveis, a morrer de fome?” Mais à frente: “Não sei bem qual o remédio que eu hei-de dar à Adriana. Será que aquilo, a miséria, não tem remédio?”

Nestas poucas linhas de Maria Filomena Mónica adolescente estão, parecendo que não, muitas das questões que perpassam o livro que a investigadora social, que gosta de entrelaçar o seu percurso de vida com o mundo da teoria, acaba de lançar. Em Os Pobres (editado pela Esfera dos Livros), a autora aborda a forma como foram sendo percepcionadas, ao longo dos tempos, as desigualdades sociais, as responsabilidades pelo combate à pobreza, os métodos para a tentar debelar.

Mundos separados

O sítio onde ia visitar os pobres, a Rua dos Sete Moinhos, em Lisboa, ficava a dez minutos de sua casa, mas, no entanto, nunca a tinha visto. A sua vida desenrolava-se toda dentro de um espaço de quatro ruas em torno da sua casa de família católica habituada a ser servida por criadas de uniforme preto e avental branco com rendas, uma delas de 13 anos, que eram trazidas de famílias pobres das aldeias.

No seu meio social, a pobreza era vista como uma inevitabilidade, que assentava numa espécie de teoria das necessidades diferenciadas. Prevalecia a ideia de que “os pobres têm necessidades diferentes dos ricos”, que não precisam de coisas como “arranjar as unhas, ter carro”. “Os pobres eram vistos como uma raça diferente”, explica ao PÚBLICO Maria Filomena Mónica, que é investigadora emérita do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.

E havia uma espécie de “sistema de apartheid”, de separação de mundos que quase não se cruzavam, a não ser com as criadas e as acções beneméritas católicas, normalmente por alturas do Natal. “No Natal oferecia-se fruta e uns sapatos velhos que andavam lá por casa.”

A Maria Filomena Mónica parecia-lhe, já na adolescência, que aqueles episódios de bondade pontuais eram insuficientes. Pensava: “Como é que esta gente vai melhorar a vida com ananases e sapatos velhos?” Foi então que começou a roubar cobertores e pacotes de arroz da despensa de casa para dar, de forma mais activa e contínua, aos pobres.

Na adolescência propôs soluções muito concretas para os problemas dos pobres que ia conhecendo, como sugerir à mãe que adoptasse um menino da aldeia do avô que andava sem comer. Não perdeu o espírito de pôr mãos na massa.

A história de João

E conta no livro a história de João, esta passada em 2005. Era fruto de uma violação de uma mãe adolescente surda-muda e deficiente mental por um idoso da aldeia. “Fora vítima de sucessivas violações, sem que a doçura dos costumes rurais pusesse termo ao facto.” João dormia, com a mãe, numa enxerga de palha, e deixara a escola. Maria Filomena soube deste caso e pôs o sistema à prova. Tentou fazer algo pelo rapaz.

O Estado nada fez em tempo útil e acabou por ser uma instituição da Igreja, a vetusta Casa do Gaiato (fundada em 1948), que internou o rapaz em 24 horas e o pôs a estudar. O João escreve-lhe, de quando em vez. Sabe que está a tirar um curso de fisioterapia.

“Nem os professores fizeram nada pelo João nem os assistentes sociais.” Maria Filomena, que se afastou do catolicismo da sua infância, viu neste episódio uma eficiência de acção que o Estado, neste caso, não teve. “O Estado está longe dos problemas concretos das pessoas.” Mas, diz propósito do caso de João, “o que falha em Portugal não é apenas o Estado, mas a Igreja, as classes altas e até os pobres”. Todos na aldeia sabiam o que estava a acontecer, ninguém fez nada para ajudar.

Neste livro, onde passa em revista as várias formas como os pobres foram sendo encarados, a autora explica como “a pobreza só foi descoberta no século XIX. Até 1880 os pobres faziam parte do cenário social.” Foi um longo percurso desde que se deixou “de encarar a pobreza como um fenómeno natural”. Os vários países fizeram depois caminhos diferentes. No capítulo intitulado “De quem são os pobres?”, a autora discorre sobre o papel que a Igreja, o Estado e a sociedade foram desempenhando, desembocando em várias formas de se encarar a pobreza. Por exemplo, a católica (de Portugal), a jacobina (de França) e a meritocrática (dos Estados Unidos)

Maria Filomena Mónica diz que desconfia da tradição católica porque muitas vezes exerce-se a caridade em troca de comportamentos morais. Em França a tradição é estatal, tanto que houve momentos em que aos pobres não era permitido sequer pedir comida à Igreja. Nos Estados Unidos, um país em que a ideologia diz que “todos os homens são iguais”, a culpa de ser pobre é dos próprios, nota.

Inglaterra, país onde viveu quando estava a tirar o seu doutoramento em Sociologia, mereceu todo um capítulo. Foi com William Beveridge, um liberal, sublinha, que nasceu o que considera ser um dos melhores sistemas assistenciais do mundo. Em 1909 escrevia ele que “o desemprego era um problema da indústria e não dos desempregados” e que “a pobreza era um problema da sociedade e não dos pobres”.

De volta ao bairro

Mas é Portugal que mais anda pelas páginas de Os Pobres. É com Portugal que termina o livro. “Portugal está muito melhor.” Irritam-na os que lhe vêm com a nostalgia dos velhos tempos. “Qualquer miúdo hoje, se estudar bastante, consegue uma bolsa”, diz, para logo de seguida se corrigir: “O problema de ser pobre tem também a ver com expectativas. Quando se é muito pobre os pais tendem a dizer aos filhos ‘não vais sair daqui, vais ser o que eu fui’. Se eu fosse uma rapariga pobre alguma vez me passava pela cabeça ir estudar para Oxford? A pobreza é também uma questão psicológica.” Mas diz que hoje existe “o Serviço Nacional de Saúde, que tanto me trata a mim como à minha empregada”, e que “os miúdos de dez anos já não cuidam de cabras”.

Desafiamo-la a voltar ao bairro onde descobriu os pobres, tal como faz no fim do seu livro. A Rua dos Sete Moinhos continua a ser um enclave de pobreza em Lisboa, agora com o Centro Comercial das Amoreiras à vista. O chão já é alcatroado, há carros de gama baixa estacionados à porta das casas, que já não são de zinco e madeira, são de betão, algumas estão bem pintadas, com vidro duplo, a maioria estão decadentes.

Susana Machado circula no meio da rua com chinelos de quarto às riscas castanhas e robe de quarto de bolas cor-de-rosa. Está desempregada, conta-nos, tem uma filha de seis anos, recebe 200 euros de Rendimento Social de Inserção e come graças ao Banco Alimentar Contra a Fome.

“Quem é que vive com 200 euros?”, comenta Maria Filomena Mónica. A autora não consegue localizar o sítio onde viveriam a sua pobre Adriana e o filho Mário, na altura as portas não eram numeradas. Imagina que Adriana tenha morrido pobre e que o filho Mário tenha hoje um emprego desqualificado porque não pôde estudar, talvez seja hoje varredor de ruas. “Ainda há pobres a dez minutos de minha casa.”