É preciso pôr os museus a falar do presente e explicar por que não se pode caçar pokémons em Auschwitz

Os museus nacionais têm de saber falar do que se passa hoje, se quiserem manter-se relevantes. E de aprender a lidar com o passado, por mais incómodo que seja. Quem o diz é Chris Whitehead, um investigador que trabalha para que a história difícil dos países não fique de fora das exposições.

O campo de Auschwitz, com a célebre inscrição "O trabalho liberta" à entrada, é hoje visistado por milhares de turistas por ano
O campo de Auschwitz, com a célebre inscrição "O trabalho liberta" à entrada, é hoje visistado por milhares de turistas por ano AFP/JOEL SAGET
Chris Whitehead
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Chris Whitehead, professor de Museologia na Universidade de Newcastle, Inglaterra, está habituado a olhar para o discurso dos museus nacionais e para o passado histórico “difícil” dos países e a tentar perceber porque é que, muitas vezes, os dois não se encontram.

Ligado ao projecto CoHERE, pensado para valorizar o património europeu a partir do impacto social e cultural que pode ter no desenvolvimento identitário das comunidades, este historiador de arte de 44 anos esteve em Lisboa a dizer que os museus têm de repensar o seu próprio conceito e aprender a falar do presente, estabelecendo relações com o passado, mesmo quando ele é incómodo. Exemplo? Associar a história de um império colonial a uma sociedade contemporânea que é multicultural e procurar explicar as tensões que nela existem a partir daí. Um projecto que, em territórios como o Reino Unido, pode ser hoje politicamente complexo, mas que não deixa de ser absolutamente necessário.

Numa comunicação que começou com uma selfie provocadora tirada por um visitante no campo de extermínio de Auschwitz, feita durante a conferência que a divisão europeia do Conselho Internacional de Museus (ICOM Europe) organizou recentemente na Fundação Gulbenkian, Chris Whitehead falou da Alemanha como uma nação que tem sabido lidar com a sua história e da forma como os museus por toda a Europa têm vindo a usar o Holocausto para evitarem tratar outros temas duros do passado, eventualmente mais próximos dos seus países (impérios coloniais, ditaduras, genocídios), e do presente (a crise dos refugiados, o multiculturalismo, as migrações ou a intervenção militar no Iraque).

“Ainda é preciso explicar a algumas pessoas por que não se pode caçar pokémons num campo de extermínio, mas também é preciso olhar para a maneira como nos servimos do Holocausto para não falar de outros temas incómodos”, diz nesta entrevista ao PÚBLICO.

Se os museus nacionais querem continuar a ser relevantes, defende, têm de garantir que são capazes de encontrar o equilíbrio entre serem um território sólido de definição da identidade de um país e um espaço onde se pode criticar abertamente essa mesma identidade. Quanto aos políticos, têm de perceber que eles podem também ser um lugar onde se pede desculpa pelo passado.

No contexto dos museus nacionais, como é que um passado histórico difícil pode contribuir para a formação da identidade de um país?
É um assunto muito complexo. No contexto alemão, por exemplo, lidar com o passado tornou-se absolutamente central na formação da identidade contemporânea, mas há muitos outros países que continuam a não olhar para esse passado problemático. A Noruega, por exemplo, só recentemente começou a lidar com a questão do colaboracionismo com a Alemanha de Hitler e em Itália é ainda muito difícil falar de fascismo – a história que os italianos preferem é a que envolve o outro lado, a resistência, o lado dos bons, porque é mais fácil de contar. E, depois há a questão da Turquia, claro, em que simplesmente se nega qualquer culpabilidade histórica [relativamente ao genocídio arménio]. Há muitas maneiras de olhar para a história que é dura, que é difícil, como parte da identidade das nações; é preciso é fazê-lo, se queremos que aquilo que contamos sobre nós esteja próximo do que realmente aconteceu.

A Alemanha é sempre apresentada como um bom exemplo, o bom aluno no que ao passado diz respeito, mas a forma como se tem abordado o Holocausto em muitos museus pelo mundo fora tornou-se quase um cliché de como tratar um acontecimento terrível…
Sim, essa é uma ideia que tem vindo a tomar forma entre os académicos que estudam o universo dos museus. Há um investigador que chama ao Holocausto “horror confortável” precisamente porque sabemos lidar com ele, porque lidamos com o Holocausto há décadas. Ele torna-se um veículo mais fácil para falar de um passado incómodo, muito mais fácil do que as coisas que estão a acontecer neste momento, por exemplo, temas como a intervenção militar no Iraque ou a não-intervenção na Síria… Talvez não consigamos lidar com eles ainda. De certa maneira, em certos contextos, abordar o Holocausto tornou-se fácil, porque ele tem uma espécie de gramática própria, uma terminologia que muitos dominam. Além disso, há uma prática social que lhe está associada que nós somos capazes de executar…

… também porque há uma enorme carga emocional ligada a essa memória que o cinema e a literatura foram sublinhando nos últimos 70 anos…
Sim, claro, as emoções colam-se à nossa memória e é por isso que voltamos a elas, mas o elemento chave é o tempo que passou. A concentração no Holocausto criou uma espécie de sentimento cultural e uma série de práticas normalizadas. Quando vamos a uma exposição sobre o Holocausto ou a um dos campos de extermínio, por exemplo, sabemos como devemos comportar-nos, como agir, o que esperar. Bom, nem todos sabem, como vimos pela selfie [apresentada no começo da conferência]… Hoje há um enorme debate sobre o que é um comportamento aceitável nos lugares que estão ligados a um episódio dramático do passado: que fotografias podemos tirar em Auschwitz? E caçar pokémons podemos? Há comportamentos indescritíveis. Ainda é preciso explicar a algumas pessoas por que não se pode caçar pokémons num campo de extermínio, mas também é preciso olhar para a maneira como nos servimos do Holocausto para não falar de outros temas incómodos.

Em países como Portugal há uma distância ainda maior do comércio de escravos do império colonial, por exemplo, e mesmo assim os nossos museus não têm o hábito de incluir o tema no seu discurso de forma evidente. Isto acontece também na Inglaterra ou na Holanda? Porquê?
Não sei, talvez por ser mais fácil… No Reino Unido, na Holanda e até na Bélgica continuam a ser temas muito problemáticos. Ainda assim, as pessoas vão a exposições que tocam na história da colonização sabendo que têm de sentir alguma vergonha e algum arrependimento. Mesmo que tudo tenha acontecido no século XVIII ou antes, há uma sensação de ligação deste passado ao que somos, ao que fomos. Os museus dão às pessoas uma oportunidade de ter um comportamento ético em relação a esse momento da história.

Na Holanda, por exemplo, este passado colonial é apresentado com frequência como algo que o país deve lamentar, um episódio vergonhoso que precisa de ser mais explorado. É uma questão de reconhecimento que está ligada a uma política de pedir desculpa publicamente. E os museus podem ser esse lugar onde se pede desculpa pelo passado, algo que os países não fazem oficialmente com facilidade. O que os políticos precisam de perceber é que os museus podem servir para estabelecer um compromisso com a representação do passado tal como ele é e não como preferíamos que fosse. E tudo isto dá um sinal ao presente.

E fazer essa ligação ao presente é essencial para que os museus possam ser melhores na sua relação com o passado?
Certamente. Para melhorar, os museus podem e devem começar por contar a história a partir de diversas perspectivas, não apenas a branca e eurocêntrica. Há sempre muitas leituras a fazer de qualquer acontecimento e elas podem começar agora e depois ir para trás. No caso britânico tivemos abolicionistas e pessoas que, por motivos económicos, estavam interessadas em manter o comércio de escravos. Nessa altura houve um debate público, uma espécie de concurso, e os abolicionistas ganharam. Hoje temos um debate semelhante à volta de perguntas como “Será que o multiculturalismo é positivo?”, “Será que está a resultar?”. Há uma ligação clara entre estes dois temas separados por centenas de anos e os museus não fazem essa ligação com facilidade e deviam fazê-la para aproximar a discussão das pessoas, para que elas percebam que é uma discussão que também é sua.

Os museus têm tendência a concentrar-se nas dificuldades do passado, mas parecem não ver que elas nos seguem até ao presente. É obrigatório fazer essa ligação. Jo Cox [deputada trabalhista britânica] foi assassinada antes do referendo do “Brexit” por alguém que se dizia movido pela ideologia nazi. O passado está sempre cá.

Porque é que os museus têm dificuldade em lidar com o presente – falta-lhes distância ou vontade?
Há certamente uma falta de vontade, medo da controvérsia. Muitos profissionais dos museus estão mais preocupados com a experiência que oferecem ao visitante, partindo da ideia de que um museu é também um espaço de lazer. Muitos acham que as pessoas não querem ir a um museu para serem confrontadas com as coisas terríveis que vêem nas notícias. Temos de repensar o próprio conceito de museu.

Isso quer dizer que os museus se transformaram em lugares pouco desafiantes do ponto de vista crítico, quando deviam ser sítios para ajudar a pensar?
Sim, podemos olhar para eles assim, como se fossem preguiçosos… Mas também há museus corajosos. O que temos de fazer é descobrir técnicas expositivas para explorar as coisas que estão a acontecer agora. Não temos de contar uma versão final da história, porque ela ainda não acabou, mas precisamos de saber falar sobre o que se está a passar hoje. Para começar, podemos alargar a forma como olhamos para as coisas: porque é que este grupo se comporta desta maneira, porque é que aquele pensa assim, de onde vieram estas ideias? E a intolerância de onde vem? É possível pensar historicamente sobre o presente. Esta é uma maneira de criar uma certa distância que nos permite reflectir sobre o que importa e ter uma perspectiva crítica que não seja demasiado dolorosa.

Mas os museus nacionais, na sua maioria, não têm sabido criar essa distância. E se assim é, ainda são relevantes?
Acho que ainda são, mas precisam, cada vez mais, de ter um enquadramento transnacional. As nações ainda cá estão, mas, ao mesmo tempo, há tantas forças económicas, sociais e culturais que atravessam fronteiras… O enquadramento nacional que habitualmente é feito nos museus precisa de ser mais permeável, mais flexível, de modo a conseguir relacionar o que neles é dito e mostrado com contextos regionais e globais. Tem de se afastar dessa visão da nação como único lugar de cultura, de vida e de experiência. As escalas são múltiplas.