Pode Jo Cox ter sido vítima do sentimento anti-imigração no Reino Unido?

A deputada trabalhista não resistiu aos ferimentos causados por um homem que a alvejou e esfaqueou na rua. Jo Cox defendia um Reino Unido na União Europeia, a diversidade e uma política de imigração mais fácil.

A polícia escusa-se a fazer comentários sobre uma possível orientação política do ataque.
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A polícia escusa-se a fazer comentários sobre uma possível orientação política do ataque Craig Brough/Reuters
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Pelo menos duas testemunhas garantem que o atirador gritou “Reino Unido primeiro” Craig Brough/Reuters
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Vários testemunhos adiantam que o atacante agrediu primeiro Jo Cox Craig Brough/Reuters
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A deputada trabalhista Jo Cox numa fotografia de Maio do ano passado Reuters
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REUTERS/Phil Noble

Passavam poucos minutos das 13h quando Jo Cox e o seu assistente desceram as escadas da pequena biblioteca de Birstall, em Leeds. Regressavam de um encontro com moradores, agendado há semanas no portal da deputada trabalhista. Não se sabe ao certo o que se passou em seguida, mas várias pessoas dizem que o homem que acabaria por matá-la já a esperava no fundo das escadas. O relato que se segue é de Clarke Rothwell, dono do café no outro lado da rua. Saiu ao ouvir o que lhe pareceu ser “um balão a estoirar”. Foi um disparo.

“Quando olhei à volta, estava um homem na casa dos 50 com um boné branco, casaco e uma arma — um tipo de arma antiga, na mão”, contou à BBC. “Disparou mais uma vez contra a mulher. Ele caiu no chão, debruçou-se sobre ela e disparou outra vez na zona da face. Alguém tentou agarrá-lo, ambos lutaram. Depois ele pegou numa faca — uma espécie de faca de caça — e começou simplesmente a fazer investidas com a faca uma meia dúzia de vezes. As pessoas começaram em gritaria e fugiram da zona.”

A faca usada para matar a deputada trabalhista na tarde desta quinta-feira tinha 30 centímetros de comprimento. Jo Cox foi atingida por três balas no corpo e face e já estava em paragem cardíaca quando a assistência médica chegou ao local. Foi declarada morta pouco antes das 14h, já no hospital de Leeds. O homem que a atacou foi entretanto capturado. Segundo os moradores, trata-se de Tommy Mair: sujeito pacato, fazia a vida ajudando na jardinagem dos vizinhos, não tinha carro ou emprego.

A polícia não confirma a identidade do atirador, nem comenta as razões do ataque, mas há razões para crer que o homicídio de Jo Cox pode ter contornos políticos. Pelo menos duas testemunhas no local dizem que Tommy Mair gritou repetidamente “Reino Unido primeiro”, enquanto alvejava e esfaqueava a deputada trabalhista, usando um termo comum entre defensores da saída do país da União Europeia e também o nome de um partido britânico de extrema-direita nacionalista, anti-imigração e igualmente favorável ao "Brexit".

Cox não podia estar mais distante do eleitorado anti-imigração britânico. A jovem deputada de 41 anos não era apenas uma forte apoiante da permanência do Reino Unido na União Europeia: defendia também uma política de imigração mais permissiva e discursou na Câmara dos Comuns pelo acolhimento das três mil crianças sírias que chegaram à Europa sem família. “Estas crianças foram expostas a coisas que nenhuma criança deve testemunhar, e eu sei que arriscaria a vida e o corpo para recuperar os meus dois preciosos bebés daquele inferno.”

Cox trabalhou na primeira campanha eleitoral de Barack Obama e chegou aos postos mais altos da Oxfam. Co-presidiu também o grupo parlamentar Amigos da Síria, que discutia a abordagem britânica à guerra civil — absteve-se no voto de uma possível intervenção militar. Foi eleita pela primeira vez em 2015 e estreou-se no Parlamento com um discurso a favor da imigração e diversidade. “As nossas comunidades foram profundamente beneficiadas pela imigração, seja de católicos irlandeses, seja de muçulmanos de Gujarat, na Índia, ou do Paquistão”, disse, em Junho do último ano.

“O ódio não tem credo”

A notícia da morte de Jo Cox foi confirmada apenas a meio da tarde, quase três horas depois de ter sido atacada. Muito mais rápida foi a disseminação de relatos de que o atirador gritara frases nacionalistas, enquanto disparava e esfaqueava a deputada. A própria secretária do Governo sombra para a Cultura e Media publicou essa informação no Twitter, ajudando a alastrar a ideia de que o ataque contra Cox foi executado por defensores da saída do Reino Unido da União Europeia que se votará para a semana. Maria Eagle apagou entretanto a publicação.

Os dois movimentos contrários em redor do "Brexit" anunciaram prontamente que iriam interromper as acções de campanha previstas para esta quinta-feira. O primeiro-ministro, David Cameron, cancelou uma viagem polémica a Gibraltar, onde defenderia a permanência do país na União Europeia. “Perdemos uma grande estrela. Ela era uma grande deputada em luta com uma compaixão enorme, com um grande coração”, escreveu David Cameron. "É correcto interromper todas as campanhas depois deste terrível ataque contra Jo Cox", disse no Twitter.

As mensagens de consolo chegaram de todo o espectro da política europeia, incluindo do presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, ou do primeiro-ministro francês, Manuel Valls. Jeremy Corbyn escreveu sobre Jo Cox em nome do seu próprio Partido Trabalhista. “Perdemos uma mulher maravilhosa, perdemos uma deputada maravilhosa, mas a nossa democracia continuará. O seu trabalho perdurará. Enquanto estamos de luto, trabalharemos em nome da sua memória para chegarmos ao mundo melhor para o qual ela passou a vida a trabalhar.”

Cox estava a menos de uma semana de fazer 42 anos. Tinha dois filhos, ambos do seu marido, Brendan, que, em nome dela, pediu que o mundo não cedesse ao ódio. “Ela quereria duas coisas acima de tudo. A primeira, que os nossos preciosos filhos sejam banhados em amor. E, em segundo lugar, que nos unamos na luta contra o ódio que a matou. O ódio não tem credo, raça ou religião. É venenoso.”